AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Maria João Sande Lemos, Nós Somos Igreja

Maria João Sande Lemos (1938-2024)

Um vulcão pelos direitos das mulheres e a renovação da Igreja

| 05/06/2024

Maria João Sande Lemos, Nós Somos Igreja

Maria João Sande Lemos: “Um vulcão de criatividade militante nas causas da justiça.” Foto: Direitos reservados.

 

O núcleo português do movimento internacional Nós Somos Igreja (NSI) não existiria sem ela: Maria João Sande Lemos, católica assumida, que esteve na fundação do então PPD com Francisco Sá Carneiro, dedicou as últimas três décadas à sua paixão pela renovação da Igreja Católica, nomeadamente na defesa dos direitos das mulheres a mais participação e ao acesso ao sacerdócio. Morreu na terça-feira, dia 4. Na quinta-feira, 6 de Junho, às 20h30, será celebrada missa de corpo presente na Basílica da Estrela. O funeral realiza-se na sexta-feira, 7, a partir das 11h30, no mesmo local.

“Um vulcão de criatividade militante nas causas da justiça, em Portugal ou em África, na luta contra as descriminações nomeadamente das mulheres na sociedade e na Igreja”, escreve sobre ela Alfreda Ferreira da Fonseca, em nome do núcleo português do NSI. Há dias, o NSI perdera também já outra das suas fundadoras, Mariana Mendes Pereira, que o 7MARGENS evocará nos próximos dias.

Em nota publicada neste dia 5 na página da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa escreveu que Maria João Sande Lemos era “uma mulher de convicções fortes e acção consequente, que toda a vida lutou pelo reconhecimento e reforço do papel das Mulheres na Sociedade e no seio da Igreja Católica”. O Presidente acrescenta que ela foi “fundadora do PSD e amiga de Sá Carneiro e de Mário Soares, Mãe e Avó”, tendo-se dedicado também “ao apoio a crianças, jovens e idosos, designadamente através da Fundação Aboim Sande Lemos, com vasta obra social, desde as residências universitárias a estabelecimentos de apoio à infância”. E acrescenta ser “já com saudade” que “vê partir uma amiga de tantos anos e tantas lutas”.

Nascida em Lourenço Marques, actual Maputo, em 17 de Junho de 1938, Maria João Sande Lemos começou a trabalhar ainda na capital da então “província ultramarina” de Moçambique. Veio para Portugal em 1960. Funcionária do Ministério da Agricultura desde 1975, trabalhou depois funções como assessora em vários governos, nomeadamente com governantes do PPD (depois PSD).

No partido que ajudara a fundar com Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota, desempenhou vários cargos locais, concelhios e nacionais, tendo mesmo sido candidata a deputada à Assembleia Constituinte em 1975, e depois à Assembleia da República em 1976 e 1979. Em 1978, integrou também o Secretariado Nacional das Mulheres Social Democratas, além de ter representado o PSD em várias instâncias nacionais e internacionais. Esteve ainda na fundação de estruturas laborais (Trabalhadores Sociais Democratas) e sindicais (União Geral de Trabalhadores), permanecendo como militante do PSD até 1999, altura em que se desvinculou do partido, tendo mais tarde voltado a inscrever-se no mesmo.

 

África e a democracia

Maria João Sande Lemos, Nós Somos Igreja

Maria João Sande Lemos defendia a importância da sociedade civil africana. Foto: Direitos reservados.

A dimensão internacional da sua intervenção cívica e política traduziu-se também no apoio que deu à UNITA, o partido de Jonas Savimbi, durante a guerra civil angolana. Em Setembro de 1992, foi uma das pessoas que integrou o grupo de observadores internacionais das primeiras eleições no país. O mesmo iria repetir-se, dois anos depois, na Guiné-Bissau (Junho) e em Moçambique (Outubro). Com a mesma perspectiva, integrou o Fórum Português para a Paz e Democracia em Angola e o Movimento para a Paz e Democracia em Moçambique, do qual foi vice-presidente.

“Um dos maiores desafios enfrentados pelas sociedades africanas que buscam a democracia, como sistema de governação participativo é a formação e consolidação do espaço da sociedade civil”, escreveu ela num depoimento sobre a questão africana.

“É nesse espaço onde a cidadania organizada e independente do Estado estabelece instituições e capacita indivíduos capazes de mediar as relações e os conflitos entre a sociedade, o eleitorado, e o governo, como o grupo eleito para representar o Estado. Ademais, é na autonomia desse espaço onde reside a capacidade e o poder do cidadão em fiscalizar os acções do governo e pressionar pela prestação de contas.”

Os direitos das mulheres foram outra área de intervenção de Maria João. Além de integrar a estrutura das Mulheres Social Democratas, trabalhou na então Comissão da Condição Feminina (Março 1976-Março 1977), onde voltaria, já enquanto Comissão para a Igualdade dos Direitos das Mulheres, entre 1986 e 1989. Entretanto, integrou as delegações governamentais portuguesas à Conferência das Nações Unidas para a Década da Mulher, em Copenhaga (Junho de 1980), a Conferência de Bagdad (Março de 1984) e a Conferência de Pequim (Setembro de 1995).

Precisamente nesse ano, surge na Áustria a “Petição do Povo de Deus”, que pedia a reforma do catolicismo, nomeadamente no capo da moral sexual e da participação das mulheres. Rapidamente, o documento reuniu centenas de milhar de assinaturas em países como a Áustria, Alemanha, Suíça, França, dando lugar à criação do movimento Nós Somos Igreja (NSI), que pugnava pela participação de todos os baptizados na vida da Igreja, na linha das orientações consignadas no II Concílio do Vaticano. Com Ana Vicente, a investigadora de temas das mulheres que morreu em 2015, e mais algumas pessoas, Maria João avança para a criação de um núcleo do NSI em Portugal.

 

Sempre atenta à reforma da Igreja

Maria João Sande Lemos, Nós Somos Igreja

“Enquanto a Igreja Católica não resolver o problema das mulheres na Igreja, vejo com muita dificuldade o seu crescimento”, dizia. Foto: Direitos reservados.

O movimento “não existiria em Portugal se não fosse o activismo da primeira hora da Maria João Sande Lemos, sempre atenta à necessidade de reforma da Igreja Católica”, diz Alfreda Ferreira da Fonseca, professora de filosofia no secundário. Ao mesmo tempo que divulgava a petição, o núcleo português do NSI decidiu organizar uma conferência no Centro de Reflexão Cristã (CRC). A rede do NSI Portugal nasceu aí, com o impulso e actividade de Maria João. Pertencendo ao movimento das Equipas de Nossa Senhora, não lhe bastava uma “ligação à experiência crente”, acrescenta. “Atenta aos dinamismos da vida real para além das questões doutrinais, procurou no NSI fomentar e encontrar um espaço de diálogo com a atualidade e a fé.”

Maria João Sande Lemos foi, com Ana Vicente, o rosto público do Nós Somos Igreja. Ainda no ano passado, por causa da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa ou da tragédia dos abusos sexuais de membros do clero, Maria João foi chamada para várias entrevistas nas rádios e nas televisões. Para ela, estava em causa uma realidade católica demasiado masculina e clerical, fundada no celibato, que cria uma estrutura que marginaliza as mulheres.

“O problema das mulheres na Igreja só se resolve com o fim do celibato obrigatório e enquanto a Igreja Católica não resolver o problema das mulheres na Igreja eu vejo com muita dificuldade o crescimento da Igreja”, dizia ela, em Agosto, em entrevista à RFI.

Alfreda Ferreira da Fonseca, que com ela participou no NSI nas últimas três décadas, refere que nem o avançar da idade “nem as doenças a desencorajavam”. Mantinha um “entusiasmo contagiante”, que se manteve ao longo de todos estes anos.

Numa nota a propósito da morte desta que também era sua associada, a direcção do Centro de Reflexão Cristã, de Lisboa, escrevia: “Sempre viveu e lutou pelas causas em que acreditava.”

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This