O meu primeiro contacto com Sarah Mullally ocorreu em julho de 2023, em Moçambique, numa formação realizada para novos bispos anglicanos africanos. Acompanhado pela minha mulher, Rute, tive o prazer de conhecer o casal Mullally, Sarah e Eamonn, que connosco colaboraram na formação e acompanhamento dos novos bispos e suas esposas. Na altura assumindo já a grande e complexa Diocese Anglicana de Londres, Sarah revelou-se uma companhia simpática e acessível, com uma natural curiosidade em saber mais da Igreja em Portugal e de estreitar os laços de colaboração com a realidade da Igreja em Moçambique.
É já de longa data a colaboração da Diocese Anglicana de Londres com a Igreja Anglicana em Moçambique. Uma colaboração que se expressa através do apoio espiritual e material, mas principalmente através de uma presença humana que se disponibiliza para estar, acompanhar e aprender com o povo moçambicano. Enquanto bispa de Londres, Sarah aprofundou esta relação tornando-se uma conhecedora da realidade lusófona e promovendo novas formas de cooperação.
O seu percurso e a sua personalidade revelam uma característica que considero fundamental para qualquer líder e que se expressa na disponibilidade para servir, por mais custoso e exigente que se torne o chamamento de Deus feito através da Sua Igreja. Uma disponibilidade que assenta na confiança em Deus e não propriamente nos seus méritos pessoais ou percurso já feito. Um estar que em cada momento e fase da vida se abre confiante à novidade sempre surpreendente que Deus nos propõe. Disso deu conta quando afirmou após a sua nomeação: «ao responder ao chamamento de Cristo para este novo ministério, faço-o com o mesmo espírito de serviço a Deus e aos outros que me motivou desde que me converti à fé na adolescência… sei que esta é uma enorme responsabilidade, mas encaro-a com uma sensação de paz e de confiança em Deus para me guiar, como sempre fez.»
Foi esta mesma disponibilidade responsável e confiante que a levou a liderar durante anos o exigente processo Living in Love and Faith, que promoveu no seio da Igreja de Inglaterra um amplo processo de reflexão, de escuta e de conversas sobre questões ligadas à identidade, sexualidade e casamento. Responsavelmente defendeu uma abordagem pastoral às questões controversas buscando o consenso possível dentro da Igreja.
Na apresentação feita ao Sínodo de Inglaterra sobre este processo referiu: «A Igreja começou a mudar. Começou a mudar a sua forma de agir. Acredito que estamos agora mais conscientes da necessidade de incluir o maior número possível de vozes nas nossas deliberações, de ouvir o Espírito a falar através de toda a Igreja, em toda a sua diversidade. E, ao fazê-lo, percebemos o quão ricas e transformadoras essas conversas podem ser. Mas também percebemos o quão maltratámos as pessoas LGBTI+. O quão desumanamente excluímos e rejeitámos pessoas que não são como nós. Os nossos olhos foram abertos para o mal que causámos, especialmente às pessoas LGBTI+. Essa é uma realidade que deve continuar a mudar.» O processo avançou até aonde foi possível, abrindo já, no entanto, novas e interessantes possibilidades eclesiais, cabendo-lhe agora na sua nova função de arcebispa de Cantuária definir os moldes da sua continuidade e aplicação na Igreja de Cristo.

Cerimónia de instalação de Sarah Mullally como arcebispa de Cantuária, com mais de duas mil pessoas, incluindo líderes de outras confissões cristãs e outras bispas anglicanas: “expressar o lugar que as mulheres já tem no serviço a Deus através do ministério ordenado.” Foto © Neil Turner for Lambeth Palace.
Trata-se, pois, de uma peregrina que através da sua própria experiência de vida compreende a fé cristã e o ser da Igreja enquanto jornada a ser percorrida e que nos conduz ao Reino de Deus. Na sua fragilidade física não se furtou a seguir os passos de Thomas Becket, um dos seus predecessores como arcebispo de Cantuária, fazendo o caminho de peregrinação entre Londres e Cantuária como forma de preparação para a sua instalação. Uma vez mais enfrentou as dificuldades do caminho, mas não o fez sozinha, antes acompanhada por muitos companheiros e companheiras de jornada que soube agregar a si. A este propósito e na sua homilia referiu e bem que «mesmo seguindo um caminho, o percurso pode ser desconhecido e o destino nem sempre é claro, mas podemos sempre confiar na mão de Deus que nos guia e nas suas promessas».
O chamamento que Deus fez e continua a fazer a Sarah é o mesmo que faz a muitos outros, sejam homens ou mulheres. Sarah respondeu a Deus por se sentir amada e convocada por Ele para o ministério que agora é chamada a desenvolver. A visibilidade que concedeu às mulheres bispas que a rodearam na Cátedra de Santo Agostinho não pretendeu evidenciar qualquer sentimento feminista; antes e tão só expressar o lugar que as mulheres já tem no serviço a Deus através do ministério ordenado. Irá agora exercê-lo de acordo com a sua sensibilidade e os seus dons e carismas, próprios de uma mulher. Fá-lo-á com a naturalidade, compromisso e responsabilidade que até aqui soube evidenciar no seu ministério. Procurará amar e servir a todos por igual. E a Igreja estará ao seu lado para a fortalecer e amparar na jornada que agora se inicia.
Sendo Sarah no seu novo ministério e função, a metropolita dos bispos das dioceses extra provinciais na Comunhão Anglicana, teve o cuidado de os receber após a sua instalação. Foi um encontro fraterno, tendo-nos recebido com gentileza e atenção. Mostrou a sua disponibilidade para nos acompanhar pastoralmente e em oração. Quis saber os desafios e as oportunidades que se colocam a cada Igreja. Tive, pois, a oportunidade de partilhar com Sarah o caminhar da Igreja Lusitana no seu acolhimento e integração das comunidades migrantes, na sua relação com as demais Igrejas Anglicanas lusófonas espalhadas pelo mundo e também a visão que nos anima de reforçar a presença Anglicana na Europa Continental através da criação de uma Província Anglicana Ibérica em conjunto com a Igreja irmã em Espanha. Em nome da Igreja ofereci-lhe um exemplar do livro de liturgia da Igreja Lusitana que muito apreciou e naturalmente brindá-la com uma garrafa de vinho do Porto aludindo à antiga e profícua relação entre ambos os países e Igrejas.
Que Sarah seja uma bênção não só para a Igreja, mas, e principalmente para o mundo que se comprometeu servir.
Assim Deus a ajude.
+ Jorge Pina Cabral é bispo da Igreja Lusitana da Comunhão Anglicana; esteve presente na celebração de instalação da nova arcebispa de Cantuária, no passado dia 25 de março, em Inglaterra.










