Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 10)

Uma assembleia sinodal periódica nacional, diocesana e paroquial

| 12 Abr 2023

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

Nesta décima resposta, Conceição Oliveira Lopes, sugere a realização de uma assembleia sinodal periódica de âmbito nacional, diocesano e paroquial, que assuma diferentes focos temáticos, incluindo a escuta e acompanhamento de vítimas de abusos, o repensar da formação e exercício do ministério eclesiástico e a promoção de uma cidadania cristã ativa.  Conceição Lopes é professora (aposentada) de Comunicação Humana na Universidade de Aveiro, investigadora do ID+ (Instituto de Design, Media e Cultura, e autora de vários livros, incluindo o mais recente Recta Intenção – Homenagem ao João Sacristão, setubalense-murtoseiro (ed. Paulinas).

 

Alegria da Páscoa: a esperança em Jesus

 

Quarta Assembleia Sinodal do Caminho Sinodal, em Frankfurt. Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner.

“O processo de sinodalidade da Igreja, em que juntos caminhamos, encontra nas encíclicas do Papa Francisco as orientações dessa coconstrução.” Foto: Quarta Assembleia Sinodal do Caminho Sinodal, em Frankfurt. ©  Synodaler Weg / Maximilian von Lachner.

 

Animada pela alegria da Páscoa e a coragem das duas Marias, Maria Mãe de Jesus e Maria Madalena evangelizadora dos 12 apóstolos, escolhida por Jesus para lhes anunciar a sua ressurreição, respondo ao desafio lançado.

 

1. Que mudar? Como? Quem? Com quem?

O processo de sinodalidade da Igreja, em que juntos caminhamos, encontra nas encíclicas do Papa Francisco as orientações dessa coconstrução. A encíclica social Frattelli Tutti (2020) demonstra como a fraternidade e a amizade social constroem um mundo mais humano, pacífico e justo. A encíclica Laudato Si’ (2015) abre caminhos de (re)aprender a escutar o grito da terra, dos pobres e do Cuidar da Casa Comum. A encíclica Lumen fidei (2013) ilumina o cristão a caminhar, em humildade criativa, não ser arrogante e religar o que é, por condição,  indivisível Fé-Razão-Emoção – com e  na Igreja e Sociedade que somos. As bem-aventuranças, alicerces do Evangelho de Jesus Cristo, são a carta de orientação do exercício da cidadania cristã ativa, de clareza revolucionária e permanente atualidade. São elas que religam a praxis fraterna inter-geracional e a sustentabilidade planetária.

 O exercício de poderes eclesiais das mulheres é parte integrante do apostolado de Jesus. A Igreja Católica e a Igreja Católica em Portugal não podem continuar a trair a sua génese.

Compreender a meta ideal da comunicação humana, a intercompreensão, é o passo elementar da aprendizagem da escuta ativa e do observar atento. É impossível não haver comunicação. Silêncios, indiferença, omissões, risos, sorrisos, uso do tempo, contexto, organização do espaço, relacionamentos, tudo tem valor de mensagem, tal como a palavra, na informação transmitida.

 

Em espírito de cidadania cristã ativa, sugiro com carácter de urgência, face à tragédia das vítimas de abuso sexual na Igreja Católica:

– Exigir o cumprimento, por parte da CEP e demais responsáveis, das soluções indicadas pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças.

– Enviar uma carta ao Vaticano e pedir a intervenção pastoral de ajuda urgente, sobre o estado da Igreja Católica em Portugal, nas forças e fragilidades do caminho da sinodalidade. O 7MARGENS poderia coordenar a elaboração desta Carta e do seu envio, reunindo contributos de cristãos e de não-crentes.

– Reconhecer o papel apostólico e eclesial das mulheres. Acabar com o estatuto de menoridade e subalternidade existente.

 

2. Claro que sim. O absurdo é estes encontros não existirem, de modo geral, nas paróquias, nas dioceses e a nível nacional.

Realizar uma assembleia sinodal da Igreja portuguesa, de dois em dois anos. 2023-Abril de 2025. Criar e implementar a estrutura da assembleia sinodal da Igreja Católica em Portugal, cuja atividade envolveria três níveis de assembleias: nacional, diocesana e paroquial, articulados em rede.

A estrutura funcional de cada uma das assembleias – nacional, diocesana e paroquial – têm em comum a existência de cinco grupos com idênticas designações e focos temáticos, que se articulam entre si, através das coordenações das assembleias em cada um dos três níveis. A finalidade de cada um dos grupos é escutar, observar, interagir, esclarecer, intervir.

Objetivos, entre outros: recolha, debate, intervenção, avaliação, acompanhamento e partilha de resultados, aos níveis paroquial, diocesano e nacional.

Focos temáticos de cada um dos grupos que integram a estrutura de funcionamento das três Assembleias sinodais:

Grupo 1 – Coordenação geral de cada assembleia. As coordenações das assembleias e dos respetivos grupos são distintas, ao níveis nacional, diocesano e paroquial. Devem integrar mulheres, homens, religiosas, leigos, leigas, padres, bispos e não-crentes.

Foco temático: A arte da comunicação sinodal, numa Igreja de portas abertas. Presidido por uma leiga ou leigo, inclui um bispo e outros membros de outras estruturas católicas e várias gerações e de várias etnias culturais e linguísticas.

Grupo 2 – Grupo independente de escuta, intervenção e acompanhamento das vítimas de abusos: – Presidido por uma leiga ou leigo, inclui um bispo e um não-crente, um especialista e uma pessoa vítima de abusos.

Grupo 3Repensar a formação e o exercício do ministério eclesiástico. Repensar a formação (inicial e contínua), ligada ao exercício do ministério episcopal, de presbítero, de leigas e leigos, catequistas e dirigentes de associações católicas. Presidido por uma leiga ou leigo, inclui um bispo, um padre, um seminarista, um/uma especialista em formação.

Grupo 4 – Cidadania cristã ativa.  Focalizado no debate e aplicação das encíclicas do Papa Francisco. Presidido por uma leiga ou leigo, inclui um bispo, um padre, um seminarista, crentes de várias idades, dos géneros feminino e masculino. Destaco a dinamização da participação ativa dos paroquianos, na escolha do perfil dos bispos e dos padres.

Grupo 5 – Observatório. Criar um protocolo inter-institucional com a academia portuguesa. Avaliar o processo e os resultados finais do projeto sinodal da Igreja portuguesa.

 

3. Contribuir para pensar as estruturas de funcionamento das assembleias sinodais: no desenho global de comunicação institucional de cada assembleia; pensar e colaborar na formação dos grupos de cidadania cristã ativa.

 9 de Abril de 2023

 

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