Uma ativista e uma catequista à conversa com uma teóloga e um padre

| 3 Mar 2024

Homofobia. Homossexualidade

Manifestação em Estrasburgo, em Janeiro de 2013, contra a homofobia. Foto © Claude Truong-Ngoc/WikiCommons

 

Georgina perguntou-se sobre como explicar a dificuldade de relação dos bispos africanos com o mundo LGBTI+, Helena congratulou-se pela presença de leigos na aula sinodal em outubro, Serena sublinhou que a participação não se limita a “fazer parte”, inclui “tomar parte” e James falou da corresponsabilidade e da certeza de que o “Espírito não nos largará!”. Aconteceu tudo no primeiro webnair organizado em fevereiro pelo European Forum of LGBTI+ Christian Groups em que também eu participei.

Georgina Adhiambo, queniana, ativista dos direitos das pessoas LGBTI+, estava na missa de Quarta-Feira de Cinzas na sua paróquia. O foco da homilia centrou-se na família “tradicional” – constituída por um pai, uma mãe e filhos –, essa imagem idílica que não cola com a realidade do continente africano (veja-se a alínea q) do ponto 16 do relatório de síntese da primeira sessão da XVI Assembleia do Sínodo dos Bispos). Georgina pergunta-se como ir à Igreja, se no início da Quaresma é recebida com palavras de condenação aos católicos homossexuais: “Porque é que os bispos africanos têm um discurso tão fechado?” A resposta veio mais tarde na conversa… mas, antes disso, houve lugar a outra partilha: “Um missionário africano, numa homilia no País de Gales, disse: ‘vocês não podem abençoar o mal’”. 

Ouvindo Adhiambo percebi que esta homofobia em África (com exceção da Africa do Sul e dos países do Norte de Africa) está muitas vezes relacionada com o patrocínio político e económico vindo do exterior que utiliza a comunidade LGBTI+ como “carne para canhão” enquanto garante contratos lucrativos e poder. Na verdade, trata-se de formas de neocolonialismo que certos bispos defendem embora custe (literalmente) a vida a alguns dos seus concidadãos!

Em jeito de conclusão, Georgina apelou a que mais africanos possam dar testemunho do que vivem neste campo e sejam escutados em toda a Igreja e, em particular, na próxima sessão da assembleia sinodal, para que esta realidade seja acolhida.

Num outro continente vive Helena Jeppesen-Spuhler, enviada pelo seu bispo a Praga para a assembleia continental (europeia) do Sínodo dos Bispos em representação da Suíça. Foi-lhe dada a missão do acolhimento urgente à comunidade LGBTI+ na Igreja. Partilhou a mesa de trabalho (ela é catequista), com uma irmã do Iraque e uns quantos bispos; sentiu-se pequena – não era consagrada, nem teóloga, nem sabia como responder à interpelação do bispo: “Se isto é o Sínodo dos Bispos, porque é que há aqui leigos!?”, mas estava ali na sua condição de batizada, de mulher!

Em Praga teve a oportunidade de se encontrar com um grupo de católicos LGBTI+ das várias geografias da Europa, escutar os seus testemunhos e principalmente estar próxima! Foi, conta agora, “o ponto alto desses (duros) dias, onde as discussões foram corajosas” e onde percebeu que, verdadeiramente, a Igreja é diversa, colorida, mas unida. Para ela, “a participação dos leigos, no sínodo, faz a diferença: o Povo de Deus está todo representado!”

 

Ana Carvalho participa no Fórum Europeu de Grupos Cristãos LGBTI+

Ana Carvalho foi uma das participantes no Fórum Europeu de Grupos Cristãos LGBTI+. Foto retirada do site lgbtchristians.eu

 

Serena Noceti, italiana, professora de teologia, falou de uma Igreja inclusiva nos seus ministérios. Evidenciou como a participação é, por um lado, o ‘fazer parte’ a partir da condição de batizado, e, por outro, ‘tomar parte’ como processo potenciador de cada um. Já na carta de Paulo ao Efésios (Ef 4, 11-16), esta diversidade de ministérios está plasmada, sem diferença de quem o faz, num texto que conclui: “(…) o Corpo inteiro, bem ajustado e unido, por meio de toda a espécie de articulações que o sustentam, segundo uma força à medida de cada uma das partes, realiza o seu crescimento como Corpo, para se construir a si próprio no amor.”

Esta participação é enquanto membro de uma grande família que se senta à mesma mesa, e não como pessoa convidada. Também a conversação no Espírito nos leva ao movimento ‘com’ e ‘para o outro’ (conversationem), que, numa mesa tão diversa, nos convida também à escuta e a deixar o Espírito falar, não importa de onde venha.

James Hanvey, jesuíta escocês, acompanha muito de perto o Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade e foi nesse tema que colocou a tónica: estamos no início de um novo tempo, de uma nova Igreja, aquela que vive na conversação no Espírito. Somos convidados à corresponsabilidade (faz-me lembrar a Carta aos Romanos, onde Paulo nos recorda que somos “co-herdeiros” de Cristo!), através da participação desde a nossa realidade batismal, como responsáveis pela mensagem de Cristo no mundo. Com efeito, recordou, é em virtude do batismo que somos guiados pelo Espírito Santo, que Ele é a nossa bússola. Mas como honrar esta experiência? Aprendendo a escutar, aprendendo a ser católico (passar da habitual dimensão local para a ampliada experiência do mundo), treinando a habilidade de reconhecer Cristo quando escutamos o outro. Essa é a conversação no Espírito. Confiantes, sabemos que o Espírito nos deixa inquietos, nos guia e nos há de levar de acordo com a Sua agenda. O desafio do processo sinodal é grande e será um longo processo.

Hanvey terminou a sua intervenção afirmando com confiança: “O Espírito não nos largará!”

Ao encontro do Espírito vamos estar, de novo, no webnair com o título “Fiducia Supplicans e o processo sinodal” que o Fórum Europeu de Grupos Cristãos LGBTI+ organiza no dia 9 de março e que terá tradução simultânea em espanhol.

Ana Carvalho participa no Fórum Europeu de Grupos Cristãos LGBTI+, foi promotora e dinamizadora do Centro Arco-íris e fundadora do movimento Sopro.

 

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