50 Anos da Revolução do 25 de Abril

Uma Avenida em Liberdade

| 26 Abr 2024

25 Abril capitular, 25Abril, Catarina Castel-Branco, Mendo Castro Henriques

Cartaz 50 anos do 25 de Abril, com desenho de Catarina Castel-Branco e frase de Mendo Castro Henriques, para exposição na Galeria Diferença, a partir de 23 Abril 2024, nos 50 anos do 25 Abril 1974. Imagem cedida pelos autores.

 

 

 

Cravos esvoaçam no meio da multidão. Assiste-se a uma verdadeira ode à liberdade. Nos precisos 50 anos após o acontecimento que mudou o país, desce-se a avenida, na certeza de que o 25 de Abril é recordado com entusiasmo e alegria.

 

 

 

 

 

 

A Diversidade saiu à rua

“Temos de lutar todos os dias, pois estamos a ver a nossa democracia cada vez mais diminuída. Encontramo-nos aqui [comunidade cigana], em conjunto com todos os portugueses, a lutar pela nossa liberdade e para o bem de todos” Foto : Desfile na avenida © José Alberto Catalão/7M

José, homem de etnia cigana com muito orgulho, segura um megafone enquanto vai conversando. “Temos de lutar todos os dias, pois estamos a ver a nossa democracia cada vez mais diminuída. Encontramo-nos aqui [comunidade cigana], em conjunto com todos os portugueses, a lutar pela nossa liberdade e para o bem de todos”, afirma ao 7MARGENS. Apela à união e ao consenso contra a discórdia e a indiferença, sempre no respeito pelas convicções de cada um. Queixa-se de discriminação apenas por ser cigano. Do seu ponto de vista, as autoridades políticas deviam empenhar-se mais na inclusão da comunidade na sociedade. “Queremos ser uma verdadeira parte de Portugal e que nos abram as portas dos empregos para que nós possamos trabalhar e dialogar e, assim, misturarmo-nos com a sociedade maioritária a que também nós pertencemos”, reitera.

Este homem de 60 anos é um dos milhares e milhares que, na tarde de 25 de Abril desceram a Avenida da Liberdade em Lisboa. Quando falamos com ele, entusiasmada e sorridente, uma mancha humana começa a formar-se diante da longa avenida que a irá acolher em breve. Entoam-se cânticos, palavras de ordem, assertivas, convictas de um valor supremo, a liberdade. Liberdade para pensar, expressar, reunir, manifestar. O vermelho intenso dos cravos empunhados nas lapelas e encostados ao corpo das pessoas evoca a memória de um passado ainda a ser escrito a quente. Afinal, passaram já (ou apenas) 50 anos sobre o 25 de Abril de 1974, dia em que se deu a revolução que conduziu à instituição da democracia em Portugal e que derrubou o regime autoritário que durante 48 anos nele vigorou.

Vislumbra-se a diversidade. Partidos, associações, grupos pelo clima, feministas, LGBT, associações de defesa dos direitos humanos, até escolas de dança. E muitos, muitos cidadãos sem etiqueta, com cartazes improvisados, juntando-se em grupos informais, encontrando outros amigos, abraçando-se. Não são só portugueses que desfilam nesta tarde com uma brisa refrescante. Turistas de várias nacionalidades assistem ao desfile interminável da multidão que caminha lentamente. Crianças correm e brincam entre si enquanto as suas famílias conversam animadamente. Diante de um dos hotéis mais caros do país, um grupo de guineenses empunha bandeiras do seu país: “Estamos aqui porque o nosso Presidente está lá dentro. Veio aqui celebrar a liberdade, mas ele é um ditador”, diz um deles, referindo-se a Umaro Sissoco Embaló, que de manhã tinha estado também, a par dos presidentes de Angola, Moçambique, Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste na cerimónia no Parlamento.

A multidão prossegue cantando muitas melodias de Abril. Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso é a mais escutada. Se as árvores da avenida tivessem ouvidos, o que diriam desta animada caminhada? Resta-nos a imaginação e a criatividade para o dizer livremente, agora sem as amarras ou condicionamentos que antes da revolução existiam.

 

 

“Não tomar a liberdade como garantida”

Desfile Avenida. 50 anos 25 abril

“A minha grande mensagem é para as pessoas não desistirem e para continuarem a sair à rua sempre que virem os seus valores e os seus princípios serem diminuídos em termos de representatividade no Parlamento” Foto © António Marujo/7M

Todas as faixas etárias estão representadas neste desfile, algumas com memória direta da revolução, porque a viveram ou a ela assistiram e outras, as mais jovens, com o que lhes foi transmitido pelos mais velhos. André, 22 anos, e Rita, 21 falam entusiasticamente deste acontecimento. “Eu vejo o 25 de Abril como uma data muito relevante de assinalar mais do que nunca. Acho que é fundamental as pessoas saírem à rua para defenderem aquilo em que acreditam e para lutarem por uma liberdade que às vezes nós, que nascemos depois dele, tomamos como garantida. Então, é muito importante sairmos à rua para mostrar que mesmo nós não tomamos essa liberdade como garantida e vamos sempre lutar por ela quando for preciso”, exclama a jovem.

“A minha grande mensagem é para as pessoas não desistirem e para continuarem a sair à rua sempre que virem os seus valores e os seus princípios serem diminuídos em termos de representatividade no Parlamento, por exemplo. Que isso não seja motivo para se acanharem e para deixarem de ir à rua e de lutarem por aquilo em que acreditam”, conclui. André expressa uma sensação de particular liberdade, neste dia. “Não a vivi diretamente [a revolução], os meus pais eram ainda jovens quanto aconteceu, mas tive um avô que pertenceu a um dos grupos clandestinos antes do 25 de Abril e que viveu a lutar contra a ditadura”, recorda. Apela a que “respeitem a opinião dos outros”. “Vivemos num Estado de direito em que os diferentes pontos de vista devem ser valorizados, não censurados”, defende.

Observam-se diferentes caravanas partidárias e inúmeras associações sindicais e informais atrás dos dois chaimites que encabeçam o percurso e que estiveram no Largo do Carmo há 50 anos, a aceitar a rendição do regime que caiu quase sem sangue.

Da Praça dos Restauradores, percebe-se a gigantesca dimensão deste desfile, o que talvez se possa explicar pelo facto de se comemorar o cinquentenário da revolução.

Cruzamo-nos com Ana e Sónia que nos confidenciam algumas das suas experiências e pontos de vista sobre a revolução. Ana remata logo uma mensagem inequívoca: “Continuar a lutar pela liberdade”! Recorda que no dia 25 de Abril esteve perto do Quartel do Carmo [local nevrálgico no desenrolar do movimento militar] e sentiu as balas dos elementos da PIDE [Polícia Internacional de Defesa do Estado] passarem por cima de si, ali perto, quando agentes da polícia política mataram quatro pessoas, como recorda esta reportagem da Rádio Renascença.

Sabe, por isso, o que é o antes [da revolução] e o depois. Vê, atualmente, um Portugal “muito diferente e muito melhor”, mas deixa um repto: “É preciso nunca não nos deixarmos adormecer e continuar a lutar pela melhoria das condições de vida”. Já Sónia avalia o país com grandes melhorias e conquistas. Porém, adverte: “É preciso não baixarmos a guarda para não as perdermos e para conseguirmos ainda mais, sobretudo na igualdade, na acessibilidade e na manutenção dos direitos das mulheres e das pessoas mais vulneráveis”.

 

“Multiculturalidade, pluralidade, diversidade”

“Na avenida que já foi Passeio Público, no século XIX, acolhe-se, neste dia, a multiculturalidade, a pluralidade e a diversidade.” Foto © José Alberto Catalão/7M

Na avenida que já foi Passeio Público, no século XIX, acolhe-se, neste dia, a multiculturalidade, a pluralidade e a diversidade. Também de religiões. Encontramos Paulo Fontes, professor da Faculdade de Teologia e responsável do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa que nos explica o papel que estas tiveram no desenrolar do processo revolucionário. “A religião é vivida pelas pessoas e, portanto, mais do que falarmos só de religião, temos de falar dos crentes, dos cristãos em geral, católicos, de outras confissões, que participaram de uma maneira muito decidida, enquanto cidadãos, num primeiro momento, juntando-se àquilo que eram as aspirações de mudança em ordem à liberdade, à democracia, ao desenvolvimento, ao fim da guerra…”, afirma.

“Num primeiro momento, podemos dizer que a hierarquia da Igreja Católica e os católicos, na sua grande maioria, estiveram muito ligados à ideia do Estado Novo, que surgia, na altura, como uma espécie de terceira via, do ponto de vista internacional, entre a solução fascista e a solução comunista, por outro lado. Depois, com o fim da Segunda Guerra Mundial, com a instauração das democracias, com o próprio apelo à participação política dos cristãos e dos católicos nos vários países, nomeadamente, primeiro pela democracia cristã e depois por outras vias, a situação portuguesa foi-se alterando e, portanto, houve um desajustamento, um afastamento, digamos assim, um desligamento dessa adesão aos princípios e às dinâmicas do Estado Novo”, acrescenta.

Para além da Igreja Católica, a diversidade religiosa era quase nula, em Portugal, durante o regime do Estado Novo, esclarece Fontes. As outras comunidades “foram crescendo e é muito interessante que logo a seguir ao golpe de 25 de Abril e quando se iniciou o processo de mudança política, há também da parte dessas confissões religiosas, nomeadamente as que estavam ligadas ao Conselho Português das Igrejas Cristãs, pronunciamentos vários no sentido de aderir à nova situação e de se congratular com as mudanças políticas, precisamente no sentido da liberdade e também da própria liberdade religiosa”, reitera o docente.

Paulo Fontes considera, ainda, que, hoje, a Igreja deve responder aos diferentes modos de entender a vida, de entender a realização humana, de entender as vivências familiares. De igual modo, envolver-se no “desafio de aprofundar, consolidar e encontrar formas para que a democracia política seja capaz de responder às novas questões e às novas necessidades sociais e culturais que existem na sociedade portuguesa”.

Quanto à presença das diferentes comunidades religiosas no desfile, pensa que os cristãos, em geral, estão presentes como cidadãos. “Do ponto de vista mais institucional houve o pronunciamento da Conferência Episcopal Portuguesa, da Comissão Nacional Justiça e Paz, ao nível das dioceses e de vários bispos. Talvez possamos dizer, do ponto de vista analítico, que há alguma dificuldade de passar da reflexão e dos pronunciamentos às práticas quotidianas e também cívicas e políticas com que os cristãos estão comprometidos.”

Daqui a um ano, a Avenida receberá novamente a afirmação da liberdade.

 

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