Uma aventura mágica, de Portugal à Guiné

| 19 Fev 19

Os bispos Manuel Linda (Porto), Pedro Zilli (Bafatá) e José Lampra (auxiliar de Bissau) “falaram de um rosário de assuntos muito interessantes” (Foto André Ferreira)

 

A chegada do senhor D. Manuel Linda, bispo do Porto, à Guiné, pode parecer um pouco para alguns, mas para nós, que viemos de jipe, foi um tudo e para o país constituiu um muito, pelas razões que mais à frente explicaremos.

Estávamos tão ansiosos e desejosos da sua chegada, que até confundimos a hora do avião: às 20h00 metemo-nos no jipe para o aeroporto e só nesse momento verificámos que, afinal, a aterragem seria pelas 22h00.

O Padre Jaquité, nosso grande amigo e pessoa que sempre se apresenta numa imperturbável serenidade e se veste de uma diplomática delicadeza, infiltrou-se na zona proibida e eu resolvi fazer o mesmo, à boleia do cartão de residente. As autoridades aqui consideram bastante os sacerdotes e são muito delicadas connosco.

Por ter sido dispensado das excessivas formalidades, depressa apareceu o bispo, oferecendo um efusivo abraço, que a mim me pareceu do tamanho da nossa grande diocese do Porto. 

Há momentos na vida que, pela sua densidade, nos marcam indelevelmente. Foi o que aconteceu connosco ao vermos o nosso bispo pisar o chão sagrado da Guiné!

Depressa nos precipitámos para a Pensão Coimbra. Guardadas as malas, jantámos melhorado para festejarmos a chegada do bispo e os 46 anos do nosso padre André. Um luxo, fazer anos na Guiné e com a presença do bispo! E fazer anos ainda é o único remédio que existe para a morte. Eu aprecio  tanto a vida, que gostaria de andar aqui 300 anos, mas só envelhecer aos 295. Mas nem me posso queixar: na Guiné, a esperança de vida dos homens é de 42 anos e das mulheres 45.

Foi muito agradável o jantar e o convívio, como não foi desagradável o descanso que merecíamos e a que nos entregámos.

O dia 13 começou com um pequeno-almoço especial: o bispo auxiliar de Bissau, D. José Lampra, que representava D. José Camnate (ausente em trabalhos pastorais no estrangeiro), e o bispo de Bafatá, D. Pedro Zilli, apresentaram-se para acolher e cumprimentar D. Manuel Linda. Foi muito bonito ver aqueles abraços de homens que servem a Igreja e o Povo de Deus em contextos diferentes, mas com o mesmo amor. Falaram de um rosário de assuntos muito interessantes e já não era cedo quando nos levantámos da mesa e partimos para Caió. Éramos sete no mesmo jipe, incluindo a Irmã Maria, superiora da comunidade, que nos veio cumprimentar à capital.

Esta tabanca (aldeia) fica a 87 quilómetros de Bissau, mas não se faz em menos de três horas, tal é o estado das estradas. Preocupava-me o nosso bispo, não habituado a estas andanças, mas ele a todos surpreendeu ao mostrar ter ossos de ferro e vontade de aço. Também tinha uma contínua boa disposição e uma alegria contagiosa. Era curioso, também: estava sempre a perguntar o que era muita coisa do que via e ficou estupefacto com as construções altaneiras e resistentes que as formigas (aqui apelidadas de bagabaga) fazem nesta zona. São construções muito engraçadas, feitas de terra e saliva de formiga que mais parecem a Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, projectada por Gaudí.

Além de tantas outras coisas maravilhosas e bonitas que D. Manuel Linda conseguiu na Guiné, houve uma que se lhes juntou: a admiração destes quatro padres que o acompanhavam. No tempo todo em que esteve connosco e em todas as circunstâncias, revelou-se uma pessoa verdadeiramente extraordinária.

Maravilhosa foi também a surpresa de termos a receber-nos várias dezenas de crianças que as irmãs apoiam e formam. Cantaram-nos bonitas canções de boas-vindas e outras tradicionais daquela zona da Manjaca.

O senhor bispo fez um discurso apropriado, traduzido para crioulo pela Irmã, distribuiu doces a todas as crianças, admirado por cada uma saber esperar a sua vez de forma tranquila, sem confusões nem atropelos. Comparando, as crianças portuguesas são muito mais turbulentas!

As queridas irmãs de Caió, que não são muitas mas todas queridas, tinham-nos preparado um almoço melhorado e foi à volta da mesa que fizemos da refeição, do diálogo e da partilha um verdadeiro sacramento. Coisa sagrada foi também, e particularmente, a tão substancial oferta que o bispo do Porto deixou naquela comunidade. Às vezes parece-me que o dinheiro é a coisa melhor das coisas piores que a vida tem. Serve para comprar uma bala que mata, mas também para adquirir um comprimido que salva ou o pão que não deixa perecer. Ali, aquele dinheiro pareceu-me a coisa melhor do mundo e muito bem aplicado.

Ainda houve tempo para uma visita à missão e à casa paroquial, acompanhada pelo pároco. Já eram 20h20 quando regressamos à Cúria de Bissau. Jantámos, rezámos e  deitámo-nos, cansados mas felizes. O primeiro dia com o nosso bispo tinha sido uma graça e uma bênção.

 

Ir a Bafatá e não ver o rio…

O dia 14 começou com os cumprimentos que o dr. Tiago Bastos, da Embaixada de Portugal em Bissau, quis fazer ao bispo. Já no dia anterior, o nosso grande amigo, dr. Fernando Machado, quisera fazer o mesmo.

Mas o grande momento da manhã deste dia foi a visita ao palácio presidencial. O Presidente da República manifestou a vontade de receber o bispo do Porto. Foi uma experiência muito interessante para D. Manuel, e até para nós que o acompanhámos. Por causa das manifestações estudantis, o aparato militar era grande e parecia intimidar, mas a visita do D. Manuel teve toda a serenidade e delicadeza.

Foi daqui que saímos, já atrasados, para Bafatá, onde chegámos para além da hora razoável. A causa era sempre a mesma: o deplorável estado das estradas. Bafatá dista 140 quilómetros de Bissau, mas demora tanto ou mais como chegar do Porto a Lisboa.

Foi dos momentos que mais me encantou: ver dois bispos que se entrelaçavam na fé e no serviço à Igreja e ao Povo de Deus: um, de uma grande diocese portuguesa, apesar de tudo com algumas possibilidades; o outro, de uma pequena diocese guineense, absolutamente desprovida.

Entrega oficial do jipe: “Ficou muito feliz o bispo que o ofertou e comovido o que o recebeu” (Foto André Ferreira)

 

Foi aqui que se fez a entrega oficial do jipe. Reparei que ficou muito feliz o bispo que o ofertou e comovido o que o recebeu. Nós, os padres que o trouxemos de Portugal à Guiné, sentimos as duas coisas: a alegria e a comoção, misturadas!

Não sobrou mais tempo senão o que era preciso para ir ver a catedral de Bafatá e o rio: no dizer de D. Pedro Zilli “ir a Bafatá e não ver o rio é como ir a Roma e não ver o Papa”. Só não está de acordo quem nunca viu a beleza daquele lugar que já foi português!

Partimos apressados para ainda passar pela Missão de Bambadinca e Nhoma. Só visitámos a primeira, pois depressa se fez noite e o tempo não esperou por nós. Os africanos costumam dizer que nós, europeus, temos os relógios; eles têm o tempo. Aqui sente-se a verdade desta sabedoria.

Depois do jantar fomos visitar as Marianitas. Foi aqui que o senhor D. Manuel Linda deixou outra tranche da substancial quantia que quis oferecer à Guiné. E aquelas queridas irmãs bem mereceram, se mais não fosse pelo esmero com que tinham aquela casa!

O dia 15 era o da despedida. Preparámos as malas, pois embora o voo fosse só à tarde o chek-intinha de ser feito de manhã. Tomámos o pequeno-almoço apressados. Fomos visitar o Orfanato de Bambaram, onde nos ferimos tanto na dor e na desgraça daquelas crianças. Demos-lhe rebuçados, quando o que gostaríamos era de lhes oferecer a solução para a amargura das suas vidas.

Fomos ver, também, a Nova Universidade Católica, filha das duas dioceses da Guiné e menina dos olhos dos seus bispos.

Não podíamos deixar de passar pelo mais fantástico hospital para crianças:  o Hospital Pediátrico de Bôr, autêntico oásis naquele deserto de dor. Um verdadeiro milagre! Encantámo-nos com as suas potencialidades e admirámo-nos com o que lá se faz.

Dali partimos a alta velocidade para a Embaixada de Portugal. Pelo ambiente e pelas pessoas que nos receberam, pareceu-nos estar em casa, estando tão longe! Foi tirada uma foto de grupo para mais tarde se fazer grata memória.

Em síntese: animada, desprendida, exposta, radiante, extenuante, mágica… assim foi a nossa aventura de jipe e de pick-upde Portugal à Guiné!

O bispo do Porto à chegada a Caió, saudado por crianças

 

Atracar num cais de mistérios e de beleza rara

Quem chega a África atraca num cais de mistérios, mergulha numa beleza rara e indizível, veste-se de paisagens ímpares e irretratáveis, mas também se vê envolvido numa noite de dramas e sofrimentos incomensuráveis. Ao fim de meia dúzia de dias ficamos cansados de ver tanta gente com o corpo nu da dignidade que devia ter mas que lhe roubaram; gente com o estômago nu do alimento que lhe era merecido; gente com a cabeça nua da cultura que nunca lhe possibilitaram; gente com o coração nu do amor que sempre lhe negaram.

Faz-me pena ver pessoas à deriva num mar de problemas e a flutuar em ondas de sufoco. E custa-me ver tanta gente deitada no chão funesto da indiferença, às vezes eu incluído, a ser testemunha passiva deste naufrágio existencial.

Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.

Em África, até para andar de carro é preciso ter coragem: é preciso acreditar que os travões funcionam com a água e sabão que lhe metem, já que dinheiro, para óleo apropriado, não há; ter fé que os pneus, que mais parecem skinheads de cabeça rapada, não rebentem como frágil balão; fé que o motor não pegue fogo com a gasolina que o roto carburador espalha em golfadas diarreicas; fé que, de noite, vejamos e sejamos vistos, quando os faróis de muitos carros simplesmente não existem, mais parecendo caveiras sem olhos; fé que uma roda não saia em pleno andamento, quando arames fazem as vezes de parafusos; fé que a tosca solda que uniu a metade de um Peugeot à metade de um Toyota, criando uma nova marca chamada “desenrasca”, não claudique e fique uma perna numa e um braço noutra.

“Em África, até para andar de carro é preciso ter coragem…”

 

Sim, África tira-nos o tapete das nossas seguranças e apenas nos dá a confiança na Divina Providência.

Em África, até os animais sofrem! Meteu-me tanta pena ver tantos burros a puxar tão grandes carroças de rodas perras e carga brutalmente excessiva!

Pelo esforço, até mereciam um refrigerante. Talvez precisassem mesmo de um pouco de doping, para potenciar as forças que pareciam já não ter. E, depois, ninguém lhes passa cartão. Parecia até que aqueles animais incomodavam o caótico e anárquico trânsito cujas buzinadelas se assemelhavam a uma girândola de protestos, pelo impasse que os burros e as carroças causavam.

 

O olhar das crianças, o maior tormento

Mas o que me persegue e mais me atormenta é o olhar de tantas crianças desnutridas com o rosto pintado de cinzento no preto da sua pele, olhos cavados e olhar sombrio, mas penetrante e reprovador. Algumas nem para berrar têm forças e são lentos, roucos e arrastados os seus gemidos!

A fome, esse pecado mastodôntico da humanidade, essa verdade que é a maior mentira, essa realidade tangível que nos devia envergonhar, esse grito abafado que nós não ouvimos, mas que a eternidade escuta.

Pudesse eu concentrar num só grito os gemidos de todos os que se sentem crucificados nesta cruz feita de estômagos vazios e condenados à morte por tantos Pilatos que apenas lavam as mãos, porque não têm a coragem de lavar o coração e a consciência.

O sofrimento dos inocentes é uma voz abafada que deveria ter eco, ao longe e ao perto, mas que vai morrendo, estrangulada, nos braços da indiferença de tantos que tornam surdos os ouvidos, insensíveis os corações e branqueada a consciência, não se preocupando com o mar de desespero em que tantos naufragam.

É por isso que se vê ficar a gemer o restolho de tantas vidas ceifadas à felicidade.

Parece-me que a tarefa mais imperativa e inadiável a realizar em África, e em todos os outros continentes, é revestir o ser humano de encanto e beleza, de dignidade e espiritualidade, de alegria e felicidade, para que a Civilização do Amor passe de mera miragem, ou ente de razão, à mais extraordinária e feliz das realidades. Impossível? Há quem tenha força de vontade e existe quem tenha vontade de não ter força. Para mim, o impossível é só o que a gente não quer, ou não tenta; é simplesmente o que ainda não aconteceu.

Nesta longa e cerrada noite da estagnação em que tantos países de África, e a Guiné em particular, se eclipsaram, vê-se melhor a necessidade de promover o progresso.

O progresso verdadeiro será o Homem restituir ao Criador, em cada tempo e em cada lugar, um mundo melhorado e engrandecido pela sua capacidade de bom administrador mas, sobretudo, apresentar-se a si mesmo aperfeiçoado na dimensão ética e estética, harmonizadas quanto possível, no direito e na moral, no material e no espiritual, para a edificação da verdadeira civilização da verdade e da liberdade, da paz e da fraternidade, do amor e da felicidade.

O que primeiro se deve desejar para esta África e o essencial que se deve procurar para a Guiné é esta marcha do Homem para a plena consciência da sua liberdade e responsabilidade, da sua dignidade e divindade, da sua crescente libertação e plena realização.

Esta viagem para este progresso não é fácil, nem é cómoda. Mas será a única forma de não vilipendiar o Homem nem insultar Deus! 

 

Fazer tanto com tão pouco

“Impõe-se, com urgência, acabar com a pobreza e minimizar o sofrimento com a força e a estratégia do amor.” (Foto André Ferreira)

Não basta filosofar sobre a endémica pobreza em África e o infinito sofrimento que aqui montou tenda. Impõe-se, com urgência, acabar com a pobreza e minimizar o sofrimento com a força e a estratégia do amor. E há quem seja a mais bela instância deste amor. Sou fiel testemunha de que os missionários e missionárias que trabalham na Guiné com infinita generosidade, contribuem, em grande parte, para as soluções necessárias para o desenvolvimento deste país e para felicidade das suas gentes. Nunca vi ninguém fazer tanto com tão parcos recursos como os missionários. São eles e elas que todos os dias beijam o chão sagrado da Guiné com a sua entrega e doação e sempre abraçam a dor de tantos inocentes, tornando-se instância segunda do amor que Deus dedica àquele sofrido mas querido povo.

Mas também olho para a maior parte dos governantes e vejo neles o contrário deste amor ao povo e deste serviço à comunidade: são, na maior parte dos casos, um vasto oceano de tirania, crueldade e desumanidade. Muitos políticos, com seus desvarios, vestem de pobreza os corpos frágeis desta gente de estômagos minguados e desnudam, sem pudor na consciência, a alma nobre deste povo que vê afundar-se o barco da esperança em que tinha embarcado, mas que, agora, parece encalhado nas fragas do desespero.

E o mundo fica indiferente!

A indiferença é a pior e a mais perigosa das opções, exactamente por parecer a mais razoável, a mais fácil e perfeitamente justificável, porquanto não se intervindo, não se torna necessário fazer ondas, não é preciso tomar partido, nada tem que se assumir.

O problema é que a indiferença tem uma irmã gémea que é a hipocrisia e, parecendo uma coisa óptima, está muito perto do péssimo.

Ser indiferente à dor humana é o maior pecado de omissão e é alienar-se e deixar à deriva o curso da história, quando devemos ser nós a delinear-lhe os contornos e a dar-lhe consistência.

Correm magoados os dias de tantas pessoas da Guiné, mas, por incrível que pareça, até às tristezas esta gente oferece a ilusão que o tempo é bom e que a vida é sempre uma bela aventura. Por isso, pintam sempre o rosto de airosos sorrisos! É também por isto que gosto tanto das gentes da Guiné!

Não gosto do pessimismo nem do negativismo: é cantando a esperança que se obtém a derrota do desespero; é cantando a alegria que se consegue a vitória sobre a angústia; é cantando a luz que se faz a aurora; é cantando a vida que se afirma a nossa imortalidade; é cantando o amor que se realiza a nossa primeira e maior vocação; é sendo optimista que se obtém a certeza de que a Guiné “não é terra do demo e eternamente abandonada, mas filha de Deus muito amada e pátria nossa irmã”, como dizia D. José Lampra, bispo auxiliar de Bissau, no discurso de despedida.

A moral da Fé é o Amor. E se o Amor guiar o acerto dos nossos passos, que devem escrever no caminho a palavra confiança, e o jeito das nossas mãos, que devem semear esperança neste tempo, então, será fértil o futuro da Guiné.

 

O meu Jardim das Oliveiras

A Guiné é o meu jardim das Oliveiras, onde sofro a agonia de me ver vazio de soluções. Mas gosto de pousar nela o meu olhar, o meu interesse e a minha compaixão, porque um olhar misericordioso é, sempre, um olhar onde pousa a poesia do amor. Namoro o céu, mas foi com a Guiné que me casei desde 2005!

É verdade que são inúteis as agonias que sofremos no presente, por coisas que aconteceram no passado e até seriam mais felizes os nossos dias, se não tivéssemos tanta memória do acontecido. Mas, agora que regressámos a Portugal e não podemos fugir à vida nem há outra escapatória que não seja a da luta e a da labuta, a minha mente desenrola, mesmo sem eu querer, a corda das lembranças maravilhosas, estica o fio das benévolas recordações e estende na minha alma a palavra saudade! E nada salva os olhos da enxurrada das lágrimas que os afogam. A saudade da querida Guiné é letra do fado português que se canta sem voz e um hino que se canta em desatino.

Enfim, quatro audazes padres e outros tantos corajosos leigos ousaram dobrar o cabo tormentoso do querer e foram do Porto à Guiné de jipe e de pick-up, realizando uma humana transcendência. Agora, que daqui partimos, com a epopeia chegada ao fim, há, em todos nós, um “herói” sem remate…

Missionárias na Guiné com o bispo e os quatro padres do Porto: “Os missionários e missionárias que trabalham na Guiné com infinita generosidade, contribuem, em grande parte, para as soluções necessárias para o desenvolvimento deste país e para felicidade das suas gentes.” (Foto André Ferreira)

 

Quem sabe se, por causa disto, aqui não voltaremos se, no nosso interior, fizer Deus outro rebate!…

Fica uma dúvida: não sei se este diário disse coisas que valha a pena ler.

De pequenos nadas fizemos o seu todo, respondendo ao aceno de jornalista persuasivo. Só aceitei porque gosto do baile das palavras. Quem me dera ter a arte de dar corda às palavras e pô-las a dançar para a festa da vida, embora chegue a ter a ilusão (ou certeza?) que me digo e não digo, nas palavras que semeio, num deserto de expressão.

Gemem-se agonias, quando se sente que aquilo que é vivido deve ser compartilhado. Por isso, não foi sem sofrimento que tecemos estas reflexões no tear da meditação e no colo do cansaço que uma aventura destas sempre aporta.

Oferecemos também um esclarecimento: as palavras semeadas no nosso diário não buscaram a eloquência; são, apenas, vivências manifestadas, sentimentos expostos, dores caladas, problemas narrados, lágrimas choradas, silêncios experimentados e alegrias incontidas. Tudo tímida e envergonhadamente revelado. Apesar disto, ficamos esperançados que todos os que perfuraram a rocha da inércia e leram esta “peregrinação” tenham encontrado nos acontecimentos singelos e nas palavras simples, um caudaloso canal de fertilização do espírito.

Quanto a mim, padeço de insatisfação quando reparo que o meu nada, até o deste diário, é o tudo que tenho para deixar aos que o leram e dar a Deus.

Padre Almiro Mendes

(O 7MARGENS acompanhou, entre 3 e 13 de fevereiro, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus sete companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-up e outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais; o texto anterior deste diário de viagem, que relata a chegada a Bissau, pode ser lido aqui.)

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