Nos valores que a filosofia platónica nos legou, a bondade e a beleza identificam-se e ocupam um lugar de destaque, o que nem sempre acontece nos pensadores que se lhes seguiram. De facto, a ética e a estética constituíram-se enquanto domínios próprios, elegendo os seus valores que por vezes se cruzam, mas que são autónomos na apresentação que deles têm feito os diferentes filósofos.
A hipótese de uma beleza que poderá salvar o mundo, admitindo o cruzamento e mesmo a identificação da ética com a estética, foi-nos apresentada por Dostoiévski no seu romance O Idiota, uma obra em que um dos personagens – o príncipe Myshkin – se interroga sobre esta possibilidade, admitindo a capacidade redentora da beleza, algo que para mim faz todo o sentido. Por isso foi com agrado que verifiquei esta tese concretizada na série dinamarquesa Um Hotel à Beira-Mar, actualmente em curso no canal 2 da RTP. (1) De facto, a narrativa que nos é apresentada vem mostrar a identificação dos valores éticos e estéticos através de um enredo inesperado para o espectador comum – o cruzamento da beleza e da culinária.
A série em si mesma é bonita pelo ambiente em que decorre – uma praia na Dinamarca, onde um mesmo grupo de pessoas costumava passar as férias de verão – antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. O enredo é muito divertido, pois os diferentes personagens têm personalidades, profissões, aspirações e objectivos muito próprios, estabelecendo-se romances entre eles sem que haja quaisquer preocupações de ordem ética: assistimos a infidelidades conjugais, a traições entre sócios e a negócios pouco claros, ficando bem evidente a desonestidade da maior parte dos personagens, algo que nos é apresentado com graça e leveza, levando-nos a simpatizar com gente pouco escrupulosa mas também, como acontece nos contos de fadas, a desejar que os “bons” sejam compensados e os “maus” punidos.

“O ambiente paradisíaco em que a série decorre estende-se à praia e a todo o hotel, nomeadamente à cozinha onde decorre a preparação das refeições e onde todos nos deleitamos com a decoração dos pratos que são servidos.” Foto retirada de um dos episódios da série Um Hotel à Beira-Mar. RTP
O ambiente paradisíaco em que a série decorre estende-se à praia e a todo o hotel, nomeadamente à cozinha onde decorre a preparação das refeições e onde todos nos deleitamos com a decoração dos pratos que são servidos. Mesmo aqueles destituídos de dotes culinários – como é o meu caso – não podem deixar de ficar entusiasmados com a decoração das mesas, com o arranjo das travessas apresentadas aos hóspedes, com a preocupação em que o bom, o saboroso e o belo se identifiquem.
Não falo da narrativa e das suas múltiplas peripécias, por vezes dramáticas, por vezes divertidas, mas cujo enredo nos faz próximos dos diferentes personagens e, através deles, do modo como a história de cada um se insere na História – a Segunda Guerra Mundial é uma ameaça que se vai concretizando e que atravessa a série. Os episódios dramáticos convivem com cenas cómicas e o retrato que nos é feito dos hóspedes do Hotel à Beira Mar é significativo de uma época que nunca perde actualidade, pois retrata as paixões humanas naquilo que têm de paradoxal e de permanente. Mas o que me surpreendeu e agradou sobremaneira foi a presença constante da beleza, nos cenários, no realismo com que são tratadas as diferentes personagens e sobretudo, no modo como a comida nos é apresentada pois nunca tinha pensado – porque detesto cozinhar – no efeito pacificador de uma refeição esteticamente conseguida. O que me leva a concluir que em muitos aspectos da nossa vida, mesmo nos aparentemente mais comezinhos como é a culinária, podemos encontrar uma beleza que nos redime e que nos salva.
(1) A série já foi emitida o ano passado, mas presumo que o agrado que provocou nos espectadores seja responsável pela sua repetição este ano.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










