
O livro de Ana R. Gomes, Padre Felicidade, o oposicionista praticante (edição Tinta-da-China), é um retrato da complexa personalidade de um padre que evoluiu muito na sua posição face à Igreja e à política. Não é um retrato fixo, bem pelo contrário. Trata-se, se quisermos, de um filme com muitos capítulos.
E Ana R. Gomes enquadra este filme na mudança, também multifacetada, da atitude dos católicos designados de “progressistas”. Filme a que não falta, até, a influência do maio de 1968, em Paris, onde na altura se encontrava o Padre Felicidade.
Este livro tem a virtude de captar a realidade em mudança ao longo do século XX. A realidade de um padre muito inteligente – um homem de fé que a certa altura se ligou ao Partido Comunista – e a realidade de uma parte dos católicos, que se foram demarcando do regime ditatorial.
Muitos católicos portugueses e a própria Igreja apoiaram em 1926 a ditadura porque, com alguma razão, se sentiam mal tratados pelos republicanos. Mas quando, quase meio século depois, o 25 de abril restituiu a liberdade aos portugueses, já numerosos católicos se tinham afastado do regime ditatorial. O Padre Felicidade terá sido, porventura, o mais destacado personagem que ilustra essa viragem, como o livro de Ana R. Gomes mostra.
Fruto de uma vasta investigação, este livro de mais de 200 páginas não recua perante as mudanças no pensamento e nas afirmações do ex-pároco de Belém. Ana R. Gomes analisa, com profundidade, essas aparentes contradições. E, por vezes, até nos relata pormenores curiosos e pouco conhecidos.
É o caso, por exemplo, do Padre Felicidade ter uma imagem não inteiramente negativa de Salazar. Enquanto o ditador português foi chefe do Governo, a PIDE não incomodou o ex-pároco de Belém. Depois, o Padre Felicidade foi intensamente vigiado, foi preso, etc.
No essencial, este livro conta-nos como nasceu e evoluiu a “questão de Belém”. O 25 de abril de 1974 alterou radicalmente os termos do conflito político do P. Felicidade com o poder governamental português. Creio que este livro lucraria em clareza para os seus leitores se marcasse uma distinção nítida entre as iniciativas, os protestos, etc., anteriores ao 25 de abril e as iniciativas posteriores – por exemplo, abrindo nessa altura um novo capítulo. Não é que a autora confunda as coisas, mas facilitaria a leitura. É uma sugestão para futuras reedições.
Durante décadas, o Padre Felicidade foi muito acarinhado pela hierarquia da Igreja, sobretudo pelo cardeal-patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira. Foi com manifesta relutância que este o suspendeu da condição de padre. Era fortíssima a pressão do Governo de então e de muitos católicos conservadores para afastar da Igreja este contestatário.
A inteligência e a capacidade de trabalho do Padre Felicidade levaram-no a fazer da paróquia de Belém um caso exemplar. Eu era paroquiano e posso confirmar que nunca vi uma paróquia funcionar tão bem e tão atenta às necessidades dos mais desfavorecidos. Só que Belém também era a paróquia de altos dirigentes do regime – tornava-se inevitável um violento embate com as posições do pároco, tanto mais que este frequentemente se apoiava nas novidades do Concílio Vaticano II.
Mas o Padre Felicidade não era apenas um grande organizador. Ele era sobretudo um Pastor, animado por um enorme apego ao Evangelho de Cristo. O que o levava, por um lado, a aprofundar a sua cultura teológica, e, por outro lado, a transmitir com muita força as exigências decorrentes da fé, nomeadamente no plano político.
Aqui se coloca o problema, que Ana R. Gomes não evita: será que o P. Felicidade, que em 1978 aderiu ao Partido Comunista, manteve a fé até à sua morte, vinte anos depois? Ele próprio em certo momento se confessou ateu, corrigindo depois para agnóstico.
As pessoas que trabalharam de perto com ele asseguram que foi um homem de fé toda a vida. Ele entrou no plano político impulsionado pela sua fé religiosa. E foi com satisfação que o P. Felicidade aceitou ser reintegrado na Igreja, pela mão do então novo cardeal-patriarca, José Policarpo.
O Padre Felicidade morreu em 1998. Na missa de corpo presente celebrada na ocasião o caixão foi colocado sob o altar, com o corpo voltado para a frente, como determinava o rito católico para os padres. E sobre o caixão foi colocada a bandeira do PCP, como estipulava o testamento do falecido.
Pessoalmente, intriga-me esta ligação ao Partido Comunista. Naquela altura estava em curso o colapso do comunismo soviético, cujo prestígio no mundo e na esquerda caíra verticalmente. Sabe-se como o PCP estava muito ligado à União Soviética.
Talvez fosse uma homenagem ao pai do P. Felicidade, que ele suspeitava ter pertencido ao PCP. Tudo isto, e muito mais, está abundantemente documentado no livro de Ana R. Gomes, cuja leitura se recomenda.
Padre Felicidade, o Oposicionista Praticante
Ana R. Gomes
Ed. Tinta-da-China
240 pp., 17,90€
Francisco Sarsfield Cabral é jornalista.










