Sim, todos sabemos que Leão XIV esteve em França. Apesar de a sua viagem não ter tido honras de manchete de jornal ou de abertura de noticiários em Portugal, os média generalistas lá foram dando conta, com maior ou menor — geralmente menor — desenvolvimento, daquela que foi a primeira visita apostólica de um Papa ao país em 18 anos.
O que sobressaiu, nos média generalistas ou naqueles que acompanham mais de perto a atualidade religiosa (como é o caso do 7MARGENS), foi o mar de gente que esperava Leão XIV por onde quer que ele passasse, os fortes alertas que lançou nos seus principais discursos e homilias, as respostas frontais às perguntas dos jornalistas e o encontro em privado que manteve com vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero francês.
E justifica-se que isso tenha sobressaído: esgotar os 80.000 lugares do Stade de France em apenas 25 minutos e levar quase um milhão de pessoas aos Campos Elíseos tem de ser notícia; apelar aos líderes políticos para que nunca se resignem à guerra, alertá-los para os riscos de um “paraíso das máquinas” ou afirmar de forma clara e assertiva que a instrumentalização da fé por movimentos de extrema-direita “não é uma expressão autêntica do cristianismo” também. E o encontro com as vítimas de abusos, em Lourdes, dificilmente poderia passar despercebido: ao contrário de outros encontros coletivos rápidos, Leão XIV reuniu-se de forma individual e privada com cada uma das sete vítimas (quatro homens e três mulheres). O encontro estendeu-se por cerca de duas horas e um dos maiores destaques partilhados pelas próprias vítimas após a audiência foi o facto de o Papa ter reconhecido abertamente o “caráter sistémico” das violências sofridas no seio da Igreja Católica.
Mas, sem querer retirar importância a tudo isso, tomo a liberdade de chamar a atenção para dois detalhes desta viagem que me parecem particularmente reveladores. E pode parecer estranho, ou até um pouco absurdo, que no meio de uma visita papal com esta dimensão eu escolha apontar, nada mais nada menos, do que para duas peças de mobiliário. Mas é mesmo disso que se trata: uma cadeira e um altar. Objetos quase invisíveis perante as milhares de objetivas apontadas ao Papa que os usou, vale a pena determo-nos sobre eles.
Comecemos pela cadeira: aquela em que Leão XIV esteve sentado durante a vigília com os 80 mil jovens que esgotaram o estádio em Saint-Denis, nos arredores de Paris. A maior parte deles não sabe, nem desconfia, que essa cadeira foi construída por cinco jovens como eles.
Ou talvez não sejam assim tão semelhantes: já não é propriamente comum encontrar jovens que saibam trabalhar a madeira. Mas os construtores da cadeira, Jean-Marie, Roxane, Tom, De Hayn e Alexandre, com idades entre os 17 e os 20 anos, estão a aprender o ofício de marceneiro no liceu profissional Saint-Jean, que pertence à fundação Apprentis d’Auteuil, em Sannois, nos arredores de Paris.
Foi no final de julho, quando já estavam de férias da escola, que lhes chegou uma encomenda inesperada: a equipa responsável pela organização da celebração queria saber se seria possível construírem a cadeira em que o Papa iria sentar-se durante a vigília no Stade de France. Ficaram surpreendidos, entre a alegria e o receio de não estarem à altura da tarefa que lhes era proposta. Mas depressa perceberam que, apesar de o prazo ser apertado, o que o Vaticano queria era de uma sobriedade desarmante: uma cadeira em madeira de carvalho, sem pintura nem decoração, sem ouro ou pedras preciosas. Simples, tal como o Papa.
Os cinco jovens interromperam as férias e trabalharam cerca de 20 horas na sua construção, acompanhados pelos professores. Mediram, calcularam a inclinação, cortaram, uniram, lixaram a madeira e corrigiram o que não estava bem. Fizeram, afinal, aquilo que estão a aprender a fazer: trabalhar a madeira e procurar que, no fim, uma coisa feita pelas suas mãos cumpra exatamente a função para que foi pensada.
O objeto, no fim, é quase austero e (quase) ninguém reparou nele, no meio do colorido cenário, do jogo de luzes, da música e do fogo de artifício preparados para embelezar a celebração.

O Papa sentado na cadeira construída pelos jovens aprendizes de marcenaria. Foto © Vatican Media
Mas, para aqueles cinco jovens, que carregam consigo percursos pessoais difíceis, e provavelmente para toda a comunidade escolar, aquela cadeira significou muito mais do que uma simples peça de mobiliário. “É o auge do orgulho e isso motiva-me para o futuro”, disse De Hayn à emissora católica KTO, que soube do desafio lançado aos alunos e decidiu levar uma equipa de reportagem à escola. O jovem explicou que receber uma responsabilidade daquele género, ainda durante a formação, lhe permitia ganhar confiança e aprender a assumir outras responsabilidades. “Vou marcar um pouco o meu nome na História”, afirmou, consciente de que aquele objeto ficaria associado a uma memória que ultrapassa largamente o momento em que foi feito e utilizado.
Outro dos jovens entrevistados admitiu que, no início, nem conseguia bem perceber a dimensão do que lhes tinha sido pedido. Mas depois veio a consciência de que era para o Papa. E com ela, naturalmente, mais pressão e uma responsabilidade maior. “Mas, honestamente, é uma honra”, resumiu.
A reportagem não conta se aqueles cinco jovens são católicos ou sequer acreditam em Deus, se foram à vigília com o Papa ou fizeram questão de pelo menos acompanhar a celebração nas redes sociais, enquanto diziam aos amigos “fui eu que fiz aquela cadeira onde o Papa está sentado”. Mas deixa-nos com a esperança – diria quase uma certeza – de que a vida deles mudou para melhor. E quando alguém pergunta “porque é que o Papa viaja tanto?” ou “o que é que fica, depois de ele ir embora?”, esta simples cadeira pode ser uma boa resposta.
Mas se a cadeira nos fala de futuro, o altar obriga-nos a olhar para trás.
Um altar que, tal como a cadeira, não terá chamado a atenção de (quase) ninguém. Até porque, no local onde se encontra – a catedral de Santo Estêvão de Metz – é difícil competir com os cerca de 6.500 m² de vitrais que adornam as paredes e são responsáveis pelo facto de o templo ser conhecido como a “Lanterna do Bom Deus”.
Além disso, o altar não é particularmente exuberante. O que o torna extraordinário está em algo que muito poucos sabem (segundo o jornal Le Monde, nem mesmo o Papa sabia!): o bronze de que é feito veio dos canos de antigos canhões, oferecidos a França pela Alemanha como reparação de guerra e fundidos para dar origem ao altar. Foi Philippe Hiegel, presidente da associação responsável pela renovação da catedral, quem revelou o detalhe àquele diário francês. “E João Paulo II também não sabia disso quando veio a Metz, em 1988”, acrescentou.

Vista da catedral de Metz, com o altar de bronze ao centro. Foto © Vatican Media
Metz é uma cidade fronteiriça marcada pelos conflitos entre França e Alemanha. Conheceu duas guerras e duas anexações, mas acabou por ser ali que Robert Schuman, declarado venerável pelo Papa Francisco em 2021, ajudou a idealizar uma nova concepção da Europa. A escolha da cidade para a última etapa da viagem teve, por isso, um significado particular: ali, a procura de caminhos de paz e unidade não é apenas matéria de livros e discursos, está inscrita nas pedras, nas fronteiras e nas memórias.
E também naquele altar, perante o qual Leão XIV afirmou que a paz é dom de Deus, mas requer também um verdadeiro “trabalho de construção”, feito de partilha, encorajamento e perdão. Sem que o Papa soubesse, o altar ilustrava silenciosamente as suas palavras: o metal de armas de guerra, transformado num lugar onde se celebra o amor.
A cadeira e o altar: uma, feita por cinco jovens que estão a começar a construir o seu futuro; o outro, trazendo consigo uma história que pertence às gerações anteriores, mas que não podemos esquecer e com a qual temos tanto a aprender. Os dois passaram abaixo dos radares de quase todos os média. Mas pareceu-me que tinham lugar aqui — ou não se chamasse esta rubrica “À Margem” — porque, de vez em quando, é precisamente ao olharmos para aquilo que ficou fora do enquadramento que conseguimos compreender verdadeiramente o que aconteceu diante das câmaras.










