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Uma câmara obscena? Temos de falar sobre o corpo de Carlo Acutis

| 25/09/2025

Vi-o pela primeira vez há precisamente três anos. Tinha ido a Assis (Itália) para fazer a cobertura jornalística do encontro internacional do movimento Economia de Francisco e não fazia ideia de que ele lá estava. O sol já se punha sobre a pequena cidade empoleirada na colina ocidental do Monte Subasio e eu descia apressadamente uma das suas ruelas, juntamente com duas jovens participantes no encontro, atrasadas que estávamos para ir assistir à última palestra do dia. De repente, uma delas parou e apontou na direção de uma pequena igreja à esquerda. “Olhem! Não é ali que está o Carlo Acutis?”, perguntou, sem esconder a excitação. Limitei-me a assumir a minha ignorância e fiz menção de prosseguir caminho, mas ela não deixou. “Venham, rápido, temos de ir ver!”, insistiu.

Segundos depois ali estava eu, no Santuário do Despojamento, diante do corpo inanimado de um adolescente envergando casaco de fato de treino, calças de ganga, ténis de marca e terço nas mãos. E se fiquei perplexa com a exposição do corpo de um menor num caixão com uma vitrine de vidro transparente para veneração dos fiéis, mais perplexa fiquei ao perceber que, para muitas das dezenas de pessoas que se iam acotovelando junto ao túmulo, “veneração” incluía filmar, tirar selfies e fazer diretos nas redes sociais, procurando o seu melhor ângulo para aparecer ao lado do defunto (e ignorando ostensivamente a placa que dizia “No photos”).

Saí o mais depressa que pude, entre a perturbação de ter assistido ao que me pareceu um espetáculo macabro e a ânsia de ainda chegar a tempo à conferência com o jesuíta e economista francês Gaël Giraud sobre como concretizar a transição energética. Mas aquela imagem do corpo do então beato Carlo Acutis, rodeado de pessoas envergando os seus smartphones, assombrou-me por alguns dias.

Podia tê-la reavivado neste verão, quando regressei a Assis – desta vez em férias – mas por opção própria não repeti a (traumatizante, devo admitir) experiência. Eis senão quando, já de volta a Portugal e a propósito de uma pesquisa para uma notícia sobre a canonização que se aproximava (e que aconteceu no passado dia 7 de setembro), dou novamente de caras com o sinistro espetáculo: há uma estação televisiva que tem uma câmara apontada ao túmulo e que transmite em direto, 24 sobre 24 horas, o que ali se passa.

Além de nos possibilitar estar o dia inteiro na “companhia” de Carlo, o sítio online do canal internacional em causa convida quem vê a confiar as suas intenções ao novo santo, através do preenchimento de um formulário (e garante que estas serão depois lidas durante a veneração de quarta-feira, às 19 horas, também ao vivo, está claro), além de apelar a que se faça um donativo para “manter o sinal de Carlo Acutis ativo”. Esta mesma transmissão está disponível no sítio oficial carloacutis.com, que convida a “visitar o túmulo do santo” através da “webcam ao vivo“.

 

É possível ver o túmulo de Carlo Acutis 24 sobre 24 horas, na internet. Foto Direitos reservados

É possível ver o túmulo de Carlo Acutis 24 sobre 24 horas, na internet. Foto Direitos reservados

Bem sei que Carlo Acutis é o primeiro santo millenial (morreu em 2006, com apenas 15 anos), e que era fã de novas tecnologias, tendo criado ele próprio um sítio online dedicado aos milagres eucarísticos. Muitos chamam-lhe o apóstolo da Internet, mas ainda assim questiono: usar essa mesma Internet para expor assim o seu corpo não será demais?

Também compreendo que a recordação dos defuntos, em particular quando se trata de mártires e santos, sempre teve especial relevo nas comunidades cristãs. Como bem explica o padre e teólogo espanhol José Aldazábal (falecido no mesmo ano que Acutis) no seu Dicionário elementar de liturgia, “depressa se estabeleceu a relação da morte dos mártires com a de Cristo, e com a Eucaristia, sacramento desta morte. Portanto, quando se construía uma igreja, já no século IV, se procurou ou construir o altar sobre a túmulo do mártir ou, pelo menos, sobre alguma das suas relíquias [partes do seu corpo, objetos que lhe pertencessem ou que tenham estado em contacto com ele]”. E sei que a tradição de colocar relíquias de mártires e santos sob o altar das igrejas católicas ainda hoje se mantém.

Já eu mantenho a minha pergunta: será que o que estão a fazer com o corpo de Carlo não vai muito além disso, misturando-se com estratégias de marketing e alimentando um certo voyeurismo?

Acrescente-se que certamente contribui para o multiplicar de falsas teorias sobre a incorruptibilidade do seu corpo – apontada por muitos como um sinal de santidade –, o que obrigou o bispo de Assis, Domenico Sorrentino, a esclarecer por diversas vezes que esse mesmo corpo foi exumado e tratado para que pudesse manter-se preservado tendo em vista a exibição pública, e que o rosto do jovem foi reconstruído com recurso a uma máscara de silicone.

Quanto às suas relíquias, rapidamente se espalharam por todo o mundo, incluindo Portugal – e também nesta corrida aos “restos” do ciberapóstolo o bispo Sorrentino se viu obrigado a intervir, tendo denunciado em março que um vendedor anónimo estava a leiloar online algumas mechas do cabelo de Acutis, supostamente autenticadas pela Igreja, por mais de 2.000 euros. Terá sido o prelado a pedir às autoridades que confiscassem os itens, alertando que tal ato constituía uma “grave ofensa à crença religiosa”. Já agora: quem quiser obter uma relíquia de Carlo por “vias lícitas”, também tem uma ligação para isso em carloacutis.com.

Mas voltando à pergunta e arriscando explicações possíveis para aquele que julgo ser um abuso da imagem (e da pessoa) de Carlo Acutis: considerará a Igreja Católica que a “nova evangelização” a isto obriga e que este é um bom exemplo de uma “Igreja em saída”? Achará que esta é uma forma de reforçar a ideia de que Carlo é um “santo da porta ao lado”, na expressão tão querida do Papa Francisco? Ou de honrar o legado do jovem santo como apóstolo da Internet? Ou ainda de alimentar a petição (sim, há uma petição) para que Carlo Acutis se torne oficialmente o “padroeiro dos internautas”?

O teólogo italiano Andrea Grillo, especialista em liturgia e pastoral, defendia, num artigo publicado logo após a canonização, que “embora seja óbvio que a ‘visita ao túmulo’ faz parte da tradição mais antiga do cristianismo e que os mártires dos primeiros séculos são o berço sobre o qual igrejas e cidades foram construídas, é igualmente verdade que a versão da visita com ‘webcam ao vivo’, diante do corpo embalsamado do santo, não tem nenhuma possibilidade de ser posta em continuidade com a prática tradicional”.

No seu texto, Grillo lança um apelo direto à Cúria de Assis para que solicite formalmente ao sítio oficial carloacutis.com “a remoção da opção de conexão via webcam apontada para os restos mortais do santo”, pois, na sua pespetiva, “um elemento obsceno é incompatível com a canonização e o culto aprovado”. E conclui expondo o irónico paradoxo: “O santo padroeiro da Internet não pode ser vítima de abuso na internet”. Até porque “nem a eucaristia nem o corpo dos santos são feitos para serem exibidos, exceto com a discrição do segredo e do mistério”.

Passaram quase três semanas desde a sua interpelação… e o abuso continua.

Já em junho, o vaticanista Robert Mickens havia alertado para a reação de um “advogado internacional de direitos humanos, que é um católico praticante sério” ao confrontar-se com a exposição do corpo de Carlo Acutis em Assis. “Quando a minha esposa e eu entrámos na igreja, fiquei horrorizado ao encontrar o corpo de uma criança. Freiras estavam ajoelhadas ali a rezar e, depois de algum tempo, grupos de estudantes apareceram. Eu não sabia nada sobre a história de Carlo naquele momento, mas fiquei horrorizado com a criança na redoma de vidro, deitada ali, morta”, relatou o advogado.

Esta foi a sua análise, algum tempo mais tarde: “O que está em jogo, e o que me assombra desde então, é que este é mais um caso grotesco de abuso infantil católico, mas desta vez exposto publicamente. Carlo era, sem dúvida, um bom miúdo. A sua morte foi certamente trágica. Mas agora ele está a ser explorado pela hierarquia católica de Assis e de outros lugares para os seus próprios propósitos gratuitos. Explorado para promover a sua relevância para os jovens. Explorado para atrair mais crianças”. E a conclusão: “É um abuso infantil institucional e eclesiástico grosseiro. Ninguém se importa com a pobre criança. Tudo se resume ao uso que se pode fazer do seu corpo infantil. É grosseiro, grotesco e abominável”.

Numa das inúmeras entrevistas que tem dado, a mãe de Carlo Acutis. Antonia Salzato, explicava que, numa sociedade complexa, na qual a tecnologia parece absorver tudo e prender os jovens, Carlo é um sinal de esperança. “Mostrou que devemos dominar essas ferramentas e que elas podem ser usadas para fazer o bem”, disse ela. Mas parece que, nesse campo, todos nós – e a Igreja Católica não é exceção – temos ainda muito a aprender.

 

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