Isaac Abravanel – Damião de Góis

Uma cátedra para o diálogo científico entre judeus e cristãos

| 28 Mar 2022

Imagem de escritos hebreus e uma vela judaica. Foto © Diana-Polekhina

Universidade Católica Portuguesa quer desenvolver os estudos das escrituras judaicas e cristãs. Foto © Diana-Polekhina | Unsplash

 

Privilegiar o diálogo científico e inter-religioso entre as tradições judaica e cristã, “ainda insuficientemente praticado em Portugal e em muitos sectores de nível internacional” é o objectivo principal da Cátedra de Estudos Bíblicos Judaicos e Cristãos Isaac Abravanel – Damião de Góis, que nesta terça-feira, 29 de Março, será apresentada na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa.

A iniciativa tem início às 17h30 e é promovida pelo CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião), da mesma universidade. Conta com a participação, através de conferências vídeo, de dois investigadores no campo do estudo conjunto das Escrituras judaicas e cristãs: Amy Jill Levine, professora de Novo Testamento e Estudos Judaicos na Universidade Hardtford para a Religião e a Paz (Connecticut, EUA) e Etienne Vetö, director do Centro Cardeal Bea para Estudos Judaicos, da Universidade Pontifícia Gregoriana, Roma. O cardeal português Tolentino Mendonça, arquivista da Santa Sé, deixará também uma mensagem, numa sessão que conta ainda com o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e a reitora da UCP, Isabel Capeloa Gil.

“A Cátedra não é um centro nem um instituto, não tem programas de ensino, é um espaço de reconhecimento e valorização de uma área de estudos em particular”, diz ao 7MARGENS a sua directora, Luísa Almendra, professora da Faculdade de Teologia da UCP e especializada em estudos bíblicos. O que se pretende, acrescenta a responsável, é fazer o “estudo conjunto” das Escrituras hebraicas e cristãs, abrindo os investigadores da faculdade à escuta “de como o judaísmo científico tem trabalhado”.

Concretamente, a Cátedra irá programar escolas de verão, seminários, debates, sessões de estudo ou trabalho de leitura de textos e outras iniciativas para desenvolver os estudos das escrituras judaicas e cristãs.

“Tendo em conta a escassez de biblistas, será muito à base de convites que funcionaremos”, explica a directora. De facto, em poucos anos, a área de estudos bíblicos da Católica esvaziou-se rapidamente: vários especialistas foram nomeados bispos (é o caso de Tolentino Mendonça, e dos bispos António Couto, de Lamego, ou Virgílio Antunes, de Coimbra, por exemplo), outros jubilaram-se (Armindo Vaz, João Lourenço) e houve também mortes recentes, como a do padre Joaquim Carreira das Neves.

Neste momento, são três os biblistas da FT-UCP (além da própria Luísa Almendra, José Carlos Carvalho, no centro do Porto, e João Alberto Sousa, no centro de Braga da UCP) e seis novos doutorandos (três em Lisboa, dois em Braga e um no Porto). Promover a edição de publicações, aulas de hebraico bíblico ou ajudar à revitalização da Associação Bíblica Portuguesa, através do diálogo com esta estrutura, são outras ideias que podem vir a fermentar, admite Luísa Almendra. Com a ideia última de contribuir para a “renovação dos estudos bíblicos” em Portugal.

A sessão desta terça-feira, sobre os “Desafios e oportunidades de uma leitura conjunta das Escrituras”, pretende fazer um ponto de situação dos estudos bíblicos conjuntos e analisar o contributo desses estudos para o incremento das relações judaico-cristãs. Amy Jill Levine, judia, é autora, entre outras obras (muitas delas em colaboração) de um “Novo Testamento com Anotações Judaicas”, que contou com a colaboração de 150 especialistas. Etienne Vetö, por seu lado, integra também a Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, da Santa Sé,

Esta iniciativa, sublinha Luísa Almendra, vem preencher uma lacuna grave: já em 1974, recorda, o Papa Paulo VI falava da necessidade de fazer investigação bíblica conjunta com académicos judeus, dizendo que isso poderia passar pela instituição de cátedras. E no final do Concílio Vaticano II, em 1965, os bispos do mundo inteiro votaram a declaração Nostra Aetate, sobre as religiões não-cristãs, onde já se escrevia:

Sendo (…) tão grande o património espiritual comum aos cristãos e aos judeus, [o] Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos.” Também do lado do judaísmo, já houve vários documentos de académicos a defender a investigação conjunta com especialistas cristãos.

Como inspiradores da Cátedra, os seus responsáveis foram buscar duas figuras contemporâneas, dos séculos XV-XVI. “Fomos buscar um judeu e um cristão, ambos estudiosos das escrituras”, diz Almendra. Abravamel foi rabi em Lisboa acabando por morrer no exílio, depois da expulsão dos judeus portugueses. Damião de Góis, uma das personalidades mais marcantes do humanismo português do século XVI, foi, além de historiador e diplomata, também um investigador e tradutor da Bíblia. Em 1538, publicou, em Veneza, a sua tradução do Livro do Eclesiastes, reeditado pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2002. Os dois sofreram “por causa da fé, do seu amor à Bíblia e da sua paixão pela investigação”.

Esta nova Cátedra, consideram os seus responsáveis, “estimulará um pensamento inovador e uma investigação de vanguarda, que enriquecerá a academia e a sociedade”, lê-se numa nota de imprensa enviada ao 7MARGENS.

A sessão será transmitida através da página da FT na rede social Facebook.

 

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