No último verão, a Capela do Rato, em Lisboa, organizou uma peregrinação pelas abadias cistercienses da Borgonha (França), que incluiu um mergulho pelo gótico francês (catedrais de Auxerre, Reims, Saint-Denis e Notre-Dame de Paris). [ver texto de Teresa Vasconcelos no 7MARGENS]
No dia 17 de julho, o grupo celebrou a eucaristia na catedral de Reims. Na homilia, o padre António Martins, responsável da Capela, que acompanhava a viagem, procurou fazer uma síntese da arte gótica, arte que transfigura a matéria pela luz. O 7MARGENS reproduz a seguir o texto.
Estamos a fazer um circuito através de catedrais e abadias góticas: Auxerre, uma das primeiras, agora Reims, uma das mais esplendorosas, depois Saint-Denis, matriz e inspiração das igrejas góticas, e, por fim, Notre-Dame de Paris, devolvida à sua beleza e magnificência, após o restauro. Uma catedral é uma bíblia visual. Mas para chegar a este esplendor arquitetónico e artístico muito caminho foi necessário fazer. O que floresceu na arquitetura e na iconografia góticas foi a maturação de uma epistemologia, digamos assim, uma conjugação de saberes e de experiências: técnicas de construção, técnicas decorativas, exegese bíblica, meditação da Escritura, contemplação da natureza, eclesiologia (conceção de Igreja), filosofia, espiritualidade…
As primitivas comunidades cristãs não se preocuparam em construir edifícios, nem tinham posses para isso. Romperam com o templo de Jerusalém e compreenderam-se a si mesmas como templo santo, vivo, concreto. O culto desloca-se do templo para a existência. Não prescindindo da metáfora da arquitetura, da edificação, as comunidades cristãs nascentes compreenderam-se como realidades existenciais que se vão edificando, na complementaridade entre pessoas, carismas e ministérios. Paulo, no trecho que lemos da Primeira Carta aos Coríntios, oferece-nos significativas grelhas de leitura. Ele próprio se apresenta como «sábio arquiteto» que o foi na fecundidade apostólica e na capacidade de organizar comunidades: «Segundo a graça de Deus que me foi dada, eu, como sábio arquiteto, coloquei o alicerce e outro levanta o edifício».

Uma catedral é uma bíblia visual. Mas para chegar a este esplendor arquitetónico e artístico muito caminho foi necessário fazer. Na imagem, Catedral de Reims, França. Foto © António Martins
A edificação da comunidade cristã não é obra de uma pessoa: há uma evolução, uma dinâmica de relações, de gerações, de uns após outros, etapa a etapa. Uns colocam os alicerces, outros levantam o edifício, outros decoram os interiores, outros restauram e conservam. A Igreja é um projeto sempre em construção, nunca finalizado. E cada pessoa é uma «pedra viva» na construção do templo do Senhor, cuja rocha e alicerce é Cristo. É obra humana, pois depende do compromisso de cada um de nós, mas acima de tudo é obra do Espírito Santo, fonte da fecundidade da vida eclesial: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?» Pergunta provocatória que nos interpela e nos convoca para agirmos em consequência: «Veja cada um como constrói».
Numa complexa evolução semântica, o termo «igreja»/ecclesia vai ser aplicado também ao edifício onde a comunidade cristã se reúne e celebra a eucaristia. À medida que se vai estruturando o projeto unificante de «cristandade», uma unidade de todos os saberes e dimensões da vida inspirados no evangelho e tendo a Igreja como intérprete autorizado, juntamente com o crescimento urbano e o aumento populacional (a partir do séculos XI-XII), os templos vão-se ampliando em volume, altura e profundidade.
A liturgia complexifica-se; é celebração pública e esplendorosa. A Igreja e a sociedade compreendem-se como corpo unitário e hierarquizado, uma unidade na diversidade. O alargamento arquitetónico e a exuberância do programa iconográfico (decorativo) de abadias e catedrais expressa essa eclesiologia: dar corpo e expressão, através da unidade dos materiais, ao corpo que é a Igreja. As catedrais são expressão da autonomia e do poder dos bispos locais, libertos da tutela dos senhores feudais. São também expressão das correntes intelectuais, filosóficas, exegéticas que se maturam nas escolas das catedrais e que vão estar na origem das futuras universidades. A catedral, como edifício público, procura afirmar a Igreja no espaço público: é o centro da cidade e a síntese de todo o saber (filosófico, teológico, exegético, arquitetónico, vidreiros, carpinteiros, mestres de obras, pedreiros…).

Através das suas esculturas, das imagens dos seus vitrais, o programa iconográfico das catedrais é uma catequese bíblica visual. Na imagem, a Catedral de Reims, França. Foto © António Martins
Através das suas esculturas, das imagens dos seus vitrais, o programa iconográfico das catedrais é uma catequese bíblica visual; procura dar a ver a Escritura a uma população maioritariamente analfabeta, fazendo corresponder cenas do Antigo ao Novo Testamento, numa compreensão unitária e cristológica da Escritura: as cenas do AT prefiguram o cumprimento das Escrituras que é Cristo, Verbo encarnado (exegese tipológica). A visão da Cidade Santa, a Jerusalém Celeste do Livro do Apocalipse, inspira a edificação, na horizontalidade e na altitude, do templo físico e a sua decoração: «Tinha o resplendor da glória de Deus: brilhava como pedra preciosa, como pedra de jaspe cristalino; tinha uma grande e alta muralha com doze portas; nas portas havia doze anjos e em cada uma estava gravado o nome de umas das doze tribos de Israel» (Apocalipse 21, 11-12).
A arquitetura traduz a compreensão da Igreja como comunidade que se edifica na articulação das suas partes fazendo um todo, numa harmonia de proporções, como nos declara Paulo na Carta aos Efésios: «sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo Cristo como pedra angular. É nele que toda a construção bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor» (Efésios 2,19-21). Tudo isto podemos nós já ver nas catedrais e abadias românicas (Saint Bénigne de Dijon, Cluny, Vezlay). Mas em que é que o gótico inova?
Vamos ao evangelho hoje [17 de julho] lido. Na dura disputa com os fariseus (grupo judaico profundamente piedoso do seu tempo), Jesus afirma: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (João 8,15). A vida cristã procura ser uma experiência de «iluminação», uma tomada de consciência de Cristo como verdade que ilumina a existência e rasga novas compreensões de Deus, do Homem, da vida, do universo. Cristo, o Filho, é «luz da luz» que é o Pai, fonte de toda a luz. Toda a criação começa pelo aparecimento da luz. Numa filosofia cristã de inspiração platónica, todas as criaturas são compreendidas como centelhas da luz divina, marcadas por uma «iluminação» que lhes vem de Deus. Todo o universo é um facho luminoso. A luz une todas as coisas numa ordem cósmica. A matéria é boa e luminosa; o corpo humano é bom e luminoso, apesar das trevas do pecado. Por isso, a existência é um contínuo combate entre a luz e as trevas.

A arquitetura traduz a compreensão da Igreja como comunidade que se edifica na articulação das suas partes fazendo um todo. Na imagem, Catedral de Reims, França. Foto © António Martins
Cristo ressuscitado cura o Homem com a luz da ressurreição. Por Cristo, pelo qual tudo foi criado na luz, e para Cristo, destino esplendoroso e glorioso de tudo, toda a Humanidade e toda a criação se transfiguram. A luminosidade e a bondade da matéria têm destino eternos. Como afirmou um teólogo medieval do século XII, Hugo, da Abadia de São Vítor de Paris, inspirado num autor místico do século VI, conhecido como Pseudo-Dionísio, o Areopagita: «Deus, o Pai das luzes, é o bem em si mesmo e autor dos bens que dele provêm; estes bens são luzes, e iluminam os seres que podem brilhar e tornar-se brilhantes pelo efeito da luz que os ilumina».

Através da luminosidade das coisas visíveis, o crente ascende à contemplação e ao conhecimento das realidades invisíveis. Na imagem, Catedral de Reims, França. Foto © António Martins
Esta noção de luz é a chave da renovação do projeto arquitetónico e decorativo que o abade Suger empreendeu, entre 1137e 1153, na abadia de Saint-Denis, matriz de toda a arte gótica. A inspirar o gótico há toda uma teologia e uma mística (contemplação) da luz: através da luminosidade das coisas visíveis, o crente ascende à contemplação e ao conhecimento das realidades invisíveis. A luminosidade da pedra, dos vitrais, das janelas, das rosáceas, a altura e o volume das catedrais, a subtileza e a solidez da construção com ogivas cruzadas, com arcos, procura ser uma pedagogia contemplativa, uma transfiguração luminosa da matéria e do Homem, uma orientação de vida, pois o Homem e o universo brotam da luz e à luz se destinam.
Num tempo em que começa a surgir o maniqueísmo dualista cátaro, com a diabolização do corpo e da matéria, as catedrais são a celebração da matéria criada (luminosa) como caminho de contemplação e de acesso à luz divina. A catedral oferece um caminho de luz transfigurada pelas cores dos vitrais. Propõe uma ascensão ao crente, ou a nós que agora nos queremos deixar imergir e inundar por esta luz transfigurada que nos transfigura e ilumina. O espaço interior da catedral, o itinerário visivo (iconográfico) revelam-nos, por imagens, a Palavra de Deus que ilumina os nossos passos e ressuscita em nós a luz original com que fomos criados, à imagem da Luz Divina.
A catedral é uma síntese do universo, um microcosmo. Tem a forma de cruz e do corpo humano, do corpo de Cristo crucificado, Homem Novo. Na arquitetura e iconografia de uma catedral gótica, todo o universo se concentra e se transfigura. Podemos dizer que uma catedral é uma suma teológica em pedra, uma enciclopédia visual, uma bíblia em imagens (os vitrais são iluminuras).
As esculturas celebram, na pedra, a carne, o drama da vida, o Verbo encarnado que assumiu a nossa humanidade carnal e a matéria do universo. Celebra-se, na pedra, a humanidade de Cristo, a vulnerabilidade do Menino que nasce, o corpo ferido do Crucificado. O Cristo do Juízo Final, no pórtico de Saint Denis, está rodeado dos símbolos da sua paixão. O hieratismo do românico dá lugar ao naturalismo do gótico, com traços de doçura. Apetece tocar as imagens, fazer carícias à Nossa Senhora que apresenta o Menino ao colo (Notre-Dame de Paris). Como o vitral, Maria é transparência à Luz que nela encarna. O vitral é símbolo do Homem Novo, transfigurado pela luz que é Cristo.

O visitante é acolhido pelo sorriso do Anjo. Na imagem, Catedral de Reims, França. Foto: Direitos reservados.
Visitando, percorrendo e contemplando a arquitetura e a iconografia das catedrais góticas francesas, somos convidados a fazer uma peregrinação de iluminação interior pela via da beleza. Possivelmente alguma imagem bíblica ficou na nossa memória visual. Fomos acolhidos pelo sorriso do Anjo. Ou na contemplação da coroação de Maria, antevemos a redenção de todo o universo. Abrigados e transfigurados pela beleza das catedrais e das abadias, podemos sair renovados em nossa consciência de sermos «pedras vivas» na construção de uma Igreja que continuamente se reforma, e de uma sociedade que, mais do que nunca, grita por paz e por esperança. Mergulhados de corpo inteiro no espaço, na policromia e na sinfonia visual de uma catedral, somos devolvidos à pergunta de Paulo, com que iniciamos a nossa meditação: «Veja cada um como constrói».



Abrigados e transfigurados pela beleza das catedrais e das abadias, podemos sair renovados em nossa consciência de sermos «pedras vivas» na construção de uma Igreja que continuamente se reforma. Nas imagens, pórticos da Catedral de Reims, França. Foto © António Martins
António Martins é padre, professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica e capelão da Capela do Rato.










