Análise sobre consistório

Uma cimeira dos cardeais decisiva para o futuro da Igreja

| 25 Ago 2022

Papa Francisco

O Papa Francisco em Roma, no Consistório de outubro de 2019. Foto © Arlindo Homem.

 

O consistório extraordinário para instituir 20 novos cardeais, que este sábado, 27, o Papa Francisco convocou para o Vaticano, e o encontro de dois dias que se seguirá revestem-se de vários condimentos que os tornam especiais e sobre eles se concentre o interesse de quem segue de perto a vida e os rumos da Igreja Católica.

Começa por ser rara e atípica a altura do ano. Os consistórios têm habitualmente lugar em junho e também em fevereiro ou novembro. Agosto costumava ser um mês ‘fora do baralho’, no ritmo da Cúria Vaticana e mesmo de Roma. Não com este Papa, como se vê. 

Acresce que Francisco não tem sido pródigo a convocar todos os cardeais para Roma, no sentido de estarem presentes e terem espaço e oportunidade de debater assuntos prementes da vida da Igreja. Não o faz desde fevereiro de 2015. E, desta vez, aproveitou a ocasião para colocar os purpurados diante de uma das grandes reformas do seu pontificado: na próxima segunda e terça-feira, 29 e 30, o centro das atenções vai ser a Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, promulgada em 19 de março deste ano e em vigor desde 5 de junho, festa de Pentecostes. É nada mais nada menos a reforma sobre “a Cúria Romana e o seu serviço à Igreja no mundo” que está em questão, tendo sido um dos principais pontos do “caderno de encargos” que Francisco recebeu dos que o elegeram.

Por fim, com a ajuda dos media, generalizou-se a ideia de que estes eventos – o consistório e o encontro de dois dias que vão permitir que os cardeais se escutem, se conheçam e conversem uns com os outros – tem um ar de pré-conclave. As imagens da cadeira de rodas, reveladoras das dificuldades de locomoção de Bergoglio, que o obrigam a reduzir, em particular, as viagens pastorais pelo mundo, serviram, nomeadamente a quem não o aprecia, ou mesmo o detesta, para bater na tecla de que ele poderia anunciar a sua resignação. Até a viagem que irá fazer no domingo a Aquila para abrir o Perdão Celestino, um ritual que vem de finais do séc. XIII, da autoria do Papa Celestino V, tem servido para a tomar como premonição da resignação, visto que Celestino V tinha sido o último pontífice a resignar, até Bento XVI.  

Uma nova Cúria Romana com sensibilidade pastoral

O ruído da possível resignação, criado à volta dos encontros dos próximos dias, poderão levar a subestimar a importância do encontro com os cardeais da próxima semana. Esse, sim, será certamente um acontecimento daqueles que se elevam acima da espuma dos dias, do ponto de vista da atualidade e futuro da Igreja. 

A Constituição Apostólica Praedicate Evangelium veio procurar arrumar a casa, com soluções que são sempre reformáveis e questionáveis, mas, sobretudo, quis colocar a estrutura, os serviços e as pessoas da Cúria sintonizadas com os caminhos pastorais da Igreja e, nessa linha, prestando serviço ao Papa e os bispos de todo o mundo. A limitação do número de mandatos dos titulares de cargos e a abertura desses cargos a fieis leigos são algumas das inovações, de resto já à vista no terreno.

Não admirará que as soluções encontradas suscitem dúvidas, resistências e perplexidades, a vários níveis. Também não será de estranhar que haja questões de natureza teológico-pastoral que os cardeais entendam por bem debater e esclarecer. Alberto Melloni, historiador italiano, autor e coordenador de uma monumental história do Concílio Vaticano II, por exemplo, escrevia esta quarta-feira, 24, na sua coluna no jornal La Repubblica, sobre as ambiguidades e riscos que podem estar contidas na medida que abre os cargos aos leigos, na medida em que tanto pode expressar uma assunção de responsabilidades a partir de baixo, da condição batismal, como um reforço do poder discricionário do Papa.

Outro aspeto crucial, que se entretece com o papel da Cúria, é, seguramente, o do caminho da sinodalidade presentemente em curso, que tanto o Papa como um significativo número de cardeais não deixarão de trazer para a agenda dos debates. Seria, de resto, incompreensível que, numa oportunidade como a que se vai proporcionar, não se conjuguem os diferentes eixos e frentes que têm pautado o pontificado de Francisco.

Alguns sinais de tensão vieram a lume nas últimas semanas na imprensa italiana, com notícias de que os cardeais seriam apenas informados sobre o caminho feito e sobre os fundamentos das opções assumidas na reforma da Cúria, agora em vigor, sem terem possibilidade de fazer perguntas e debater as suas preocupações. Mas essas informações carecem de fundamento, por aquilo que já se conhece da metodologia de trabalho nos dois dias.

O colégio cardinalício mais diversificado 

Dos 21 cardeais nomeados este ano, um desistiu poucas semanas depois, devido a informações sobre encobrimento de abusos sexuais. Dos restantes 20, quatro já têm mais de 80 anos e 16 serão eleitores do próximo papa. Onze do total provêm de dioceses que não são tradicionalmente sedes cardinalícias e três trabalham em dicastérios da Cúria. Dois – os arcebispos de Marselha e de Brasília – são ordinários de dioceses que nas últimas décadas já tiveram cardeais. Entre os que vêm de dioceses e países improváveis, merece referência o novo cardeal de Timor-Leste (ver outro texto no 7MARGENS).

Nos perto de dez anos de pontificado, Francisco nomeou 94 cardeais; quase metade (48 por cento) foram os primeiros bispos das respetivas dioceses. Estes números, que não encontram paralelo em papados anteriores, assegurará uma diversidade de experiências como nunca houve no Colégio Cardinalício. O outro lado da questão é que é muito mais provável que um grande número deles não se conheçam entre si, até porque as oportunidades de encontro foram diminutas, não apenas devido à pandemia. Uma razão acrescida para tornar este encontro promovido pelo Papa ainda mais relevante.

Um quadro abrangente da evolução do colégio de cardeais desde 1880 até 2020 foi apresentado esta terça-feira pelo site católico The Pillar, com dados pormenorizados por idade, procedência, tipo de sé a que estavam ligados, número de católicos por cardeal, entre outros critérios. É provavelmente o trabalho mais completo e mais atualizado, e relevante para perceber o alcance do próximo conclave.

 

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