Nos primeiros anos da década de 1970 – vivia-se em sobressalto na vigência do marcelismo – damos pela presença de grupos de empregadas domésticas ligadas à JOC (Juventude Operária Católica) que, um pouco por todo o país, se tinham organizado para debater as dificuldades por que passavam e para encontrar uma saída para os seus problemas de vida, uma vida dura que se iniciava de manhãzinha cedo e entrava pela noite dentro.
Uma delas, a Conceição Ramos, trabalhava em casa de um casal alemão, na linha do Estoril, e destacava-se entre muitas outras que eu conhecia por ser a animadora natural de um grupo ligado à JOC, já com algum caminho feito. Conceição Ramos, nascida em 1941, faleceu em Chaves no dia 20 de abril, conforme noticiou o Público.
Outros grupos da cidade reuniam-se aos domingos à tarde, na Estrela e outros bairros de Lisboa e, a dada altura, passaram a palavra umas às outras: e se nos encontrássemos na sede dos organismos operários JOC e JOC Feminina e LOC (Liga Operária Católica), a sala grande do terceiro andar da Rua da Condessa, ao Carmo?
Era um sítio central que estava à sua disposição, e contavam com o apoio das dirigentes jocistas que as acompanhavam e convidavam a reunir-se. Assim foi.
Quem, numa tarde de domingo entrasse e escutasse um pouco do que se passava, ficava admirado, ao ouvir algo deveras interessante para a época: uns 70 a 80 jovens, de ambos os sexos, empregadas domésticas (vindas das aldeias com 13 e 14 anos, por vezes, com 8 ou 10 anos) e rapazes – marçanos de mercearias, de carvoarias, da construção civil e “magalas”, falavam das suas vidas com à-vontade. Apareciam cheios de alegria e de boa vontade, entravam nos encontros abertos do Grupo do Arco-Íris, um nome que para eles significava muito: demonstrava, sem pensarem muito nisso, a aliança que se ia estabelecendo entre eles, e se confirmava em visitas ao Seminário de Almada (para debates sobre os direitos sindicais), nos passeios ao castelo de Sintra, em peregrinação a Fátima ou integrando-se nas celebrações do 1º de maio. Nem pediam licença para falar, foi preciso tempo para que descobrissem que todos teriam vez para intervir… e assim podiam chegar mais longe.

Teresa Santa Clara Gomes (falecida em 1996), então secretária de Estado adjunta da primeira-ministra do V Governo Constitucional (1979-1980), Maria de Lourdes Pintasilgo, recebendo representantes das empregadas domésticas, já depois da Revolução de 25 de Abril de 1974. Foto: DR
À frente, os trabalhos eram conduzidos pelo João Lourenço e pela Conceição Ramos, os quais foram ganhando experiência e eram aceites.
Nós estávamos atentos – com ouvidos e olhos muito abertos (normalmente era uma sala quase cheia) – e víamos que o que contavam das suas vidas, das dificuldades que passavam, tinha interesse para todos os outros. Por vezes pedíamos: Silêncio! Quando um fala, os outros calam a boca…
Nós íamos orientando com o método ver – julgar – agir que tínhamos aprendido na JOC.
Eram tardes em que vinham ao de cima os casos de vida de cada uma e cada um – o modo como eram tratados/as pelas patroas, as horas imensas de trabalho – o que faziam e padeciam! – tendo por isso que centrarmo-nos nas preocupações do momento: arranjar trabalho porque uma fora despedida sem razão, cuidar de um caso de doença de outra… As pessoas abriam-se, contavam o que se passava no local – o bom e o mau – e entendiam que havia uma exploração que atingia todos e todas. Tudo vinha parar à mesa da conversa e o mais importante foi descobrir que nenhum deles ou delas (salvo uma ou outra exceção!) tinha direitos sociais, nem acesso à saúde ou à reforma, não tinha descontos. Trabalhas e agradas, recebes, muito bem; não trabalhas não serves, vais para a rua…
Assim foi ganhando corpo a ideia de fazer um abaixo-assinado das empregadas domésticas, que teve pés para andar e se concretizar quando foi possível reunir em todo o país umas 180 mil assinaturas, que foram entregues num dos ministérios do governo do Marcelo Caetano.
A partir daí, as empregadas domésticas passaram a descontar uma cota mensal de dois escudos e cinquenta centavos, cabendo aos patrões um contributo mensal de sete escudos e cinquenta. E deste modo, ficaram habilitadas à segurança social, aos serviços de saúde, à reforma na velhice… mesmo gente com idade avançada até aí sem direito a nada.
Temos de reconhecer que havia um grupo forte ligado a outros do país, que levou toda esta luta por diante: a Conceição Ramos (ou São de Carcavelos) a Odete do Estoril, a Teresa de Évora, o João Lourenço, a Ana da Luz da Estrela, outra Conceição, a Angélica (do Porto) e outras, muitas outras – empregadas domésticas dedicadas, batalhadoras, com espírito de serviço, que não podemos esquecer, ainda que os nomes agora escapem.

“Conceição Ramos, que morreu em Chaves, com a sua confiança e segurança, foi sempre reconhecida como uma entre elas.” Foto: DR
Veio depois deste um segundo andamento, quando estava firme um grupo coeso, quando havia contactos com grupos do Porto, da Figueira de Foz, de Setúbal. Era já um grande grupo desperto para a dignidade da pessoa humana, com consciência de classe, com alguma experiência de participação sindical, pronto para estar alerta e exercer alguma reivindicação.
Dá-se então a organização de uma lista com assinaturas, avança-se para encontros com outras organizações sindicais, e assim se foi construindo com mulheres que não sabiam ler nem escrever, a história do Sindicato das Empregadas Domésticas e Mulheres a Dias, até ao momento em que foi criado.
O contacto pessoal e as reuniões mensais foram a base que possibilitaram a todas uma reflexão crítica, de modo a tecer uma vontade comum e a erguer o sindicato.
As mulheres tinham adquirido a consciência de que era possível ultrapassar a sua posição de desvantagem, de que tinham mesmo mudado por dentro e por isso podiam tomar em mãos o leme da mudança de sua vida.
O amanhã já tinha começado a manifestar-se. Podiam ir mais longe. E, de modo apaixonado, partiram para a organização da Cooperativa Cooperserdo [Cooperativa Operária de Prestação de Serviços Domésticos (1976)] , que se repartiu por um refeitório, uma creche (que ainda continua) uma lavandaria, um conjunto de serviços a prestar ao domicílio.
Também no Porto se ergueu uma cooperativa e em Évora, uma creche.
Em todas estas concretizações, esteve um grupo de mulheres firmes que as garantiram: a Conceição Ramos, que morreu em Chaves, com a sua confiança e segurança, foi sempre reconhecida uma entre elas. Empregada doméstica durante 17 anos, dirigente do Sindicato das Empregadas Domésticas e Mulheres a Dias oito anos, responsável da Cooperserdo e de grupos de empregadas domésticas da JOC, é importante lembrá-la e agradecer-lhe nesta hora. São actos de reconhecimento que muitas empregadas domésticas do país testemunham.

Notas pessoais de Conceição Ramos. Foto: DR
Para quem desejar saber mais:
- A Luta das Empregadas Domésticas, de Olegário Paz (Edições BASE, 1980).
- Empregadas Domésticas e Mulheres-a-dias em Portugal, de Lieve Meersschaert (Edição do Centro de Documentação Eduardo Pontes, da Associação Cultural Moinho da Juventude e Lieve Meersschaert)
- Arquivos RTP (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/servir-em-casa-alheia-parte-i/ )
- Jornal Fumaça
Avelino Pinto foi assistente da JOC, onde conheceu Conceição Ramos










