Uma epifania de Páscoa com Tintoretto

| 20 Abr 20

Tintoretto, San Roque cura[ndo] as vítimas da peste (1559). Pintura na Igreja do mesmo orago, em Veneza.

 

Passou a Páscoa. Este ano sob o sobressalto inimaginável de uma penitência literal. Na verdade, fomos todos chamados (os que são cristãos), mais ou menos involuntariamente, a defrontarmo-nos com uma inegável coincidência. A da redenção dos homens pela paixão de Cristo, com a dos padecimentos pela pandemia. Ambos só admissíveis sob a esperançosa ideia de superação da morte.

Na Europa do final da Idade Média, apesar da medicina embrionária já reconhecer a possibilidade da debelação da “peste”, para a generalidade das almas a enfermidade indiscriminada era tida como um castigo de Deus. Um modo indomável de se impor a expiação dos pecados do mundo. Hoje a ciência encarregou-se de excluir essa crença, mas os tempos que vivemos vieram novamente reclamar a imponência, do desconhecido. Ainda que, para incompreensão de muitos, pela vitalidade do medo. Redescobrimos a fragilidade humana e o caráter precário das nossas existências. Quão inabalável se tem demonstrado por estes dias a diferença abissal que vai do estar individualmente doente, ao significado genuíno de uma pandemia. Nunca antes, como nos tempos próximos e lugares conhecidos, houvera algo de mais inequívoco que nos envolvesse a todos!

Sem qualquer vontade para enviar ovos de páscoa, embora na compulsão da partilha dos afetos e, porque não, de aliviar o tédio do acantonamento, na busca de algo melhor que elucidasse os tempos, tropeço em Tintoretto (1518/19-1594). Mais precisamente, estacando perante o deslumbramento pictórico dessa expressão sublime da compaixão humana que, com uma atualidade certeira, testemunha San Roque cura[ndo] as vítimas da peste (1559), na Igreja do mesmo Orago, em Veneza!

Tintoretto, San Roque cura[ndo] as vítimas da peste (pormenor).

Uma epifania de Páscoa. Mais do que a genialidade plástica da obra, o milagre da condição humana. Tintoretto, em toda a sua amplitude cénica, resgata a dignidade das vítimas da peste, em que mergulhou Veneza no último quartel do séc. XVI. No antro obscuro do lazareto, São Roque presta auxílio aos enfermos, arrastando consigo um manto de intensa luz que revela o sofrimento humano em toda a sua crueza dramática. Com o rigor descritivo de um tratado de anatomia, e animação fílmica reconhecida por Jean-Paul Sartre na obra do artista, os doentes contorcem-se de dores – chagados de furúnculos, que os obrigam a desnudar-se para não macerar as feridas – sob o olhar piedoso, sobretudo, daquelas poucas pessoas, impotentes, que prestam os últimos alentos.

E, porém, os olhares suplicantes têm por ponto de fuga uma personagem central, dinâmica, que contrasta com as trevas do fundo. É São Roque, peregrino, despojado de protagonismo, diminuído até na compleição da sua insignificância, compenetrado, de costas voltadas para a plateia, mas firme na subtil torção, oferecendo, sem receio, o doce toque miraculoso que resgata o enfermo ao infausto destino. No segundo plano domina o desconhecido. As trevas abraçam a morte que se adivinha, no lugar onde, ainda assim, rompe uma réstia de luz, que só pode ser de Fé e Esperança, num claro sentido da vida.

Miguel Sopas de Melo Bandeira é professor e vereador da Câmara Municipal de Braga 

Artigos relacionados

Pin It on Pinterest

Share This