Uma espiritualidade com ou sem Deus?

| 27 Out 20

“No horizonte da espiritualidade religiosa, seja ela cristã ou enraizada noutras correntes espirituais, está sempre um processo de transformação.” Pormenor de painel de azulejos na Mesquita Central de Lisboa, representando os atributos de Deus. Foto © António Marujo

Falava com alguém sobre meditação. “A meditação que faço não é religiosa”, confidenciava-me; pedi que me esclarecesse então o que buscava nessa meditação a-religiosa; “Procuramos o nosso Deus interior, aquele que existe em mim e que posso ser eu”, respondeu-me. Fiquei confundido só pela terminologia confusa.

Nessa semana entrei na livraria e vi os destaques. Livros sobre aquilo que há poucos anos seria impensável: dietas tendo por base o jejum, sobre a filosofia zen, sobre a aceitação de si mesmo, sobre a escuta da voz interior, mindfulness, inteligência emocional, tarot, propostas para nos reencontrarmos, poder e cura, vida saudável, e mais uns que destoavam no âmbito daqueles destaques.

Vi-me a pensar por onde anda a proposta da espiritualidade cristã e da visão da vida e do mundo. Claro que há dois ou três autores que têm honra desses destaques, pelo que escrevem e pelo marketing das suas editoras. Mas a pergunta fundamental que se me impôs foi outra, talvez mais oportuna: “O que vale uma espiritualidade que coloca o próprio como o centro de si mesmo?”

Num tempo pós-moderno, classificado por Lipovestky como A Era do Vazio, ou por Bauman com o termo “modernidade líquida”, a experiência de vazio, da aceleração do tempo, da fragmentação das relações e das presenças, talvez esta literatura vá ao encontro de uma busca de plenitude e sentido de quem vive esse vazio-de-si-mesmo. Mas este é, ao mesmo tempo, o grande engano que o tempo revelará: as grandes filosofias que quiseram matar Deus, dando origem a ateísmos modernos e existencialismos, também mataram o Homem.

Sempre que o Homem procura ser o centro-de-si-mesmo, o individualismo e o relativismo crescem gerando o autoconsumo de si mesmo. Espiritualmente, há uma espiral autocentrada presente nos livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal, que na bondade da intenção, não têm a capacidade de ajudar a sair de um ciclo vicioso egoísta e possessivo. No vazio cabem sempre muitas coisas, mas nenhuma se encaixa verdadeiramente.

No horizonte da espiritualidade religiosa, seja ela cristã ou enraizada noutras correntes espirituais, está sempre um processo de transformação. O Homem não pode ser o centro-de-si-mesmo, nem mesmo na busca de um tal Deus-em-si, mas encontra esse centro/equilíbrio/harmonia da Transcendência. Esse encontro vital, de energia, foco e ponto de equilíbrio, é aquele a partir do qual a vida de cada um se pode entender como processo, caminho ou itinerário.

A tentativa de uma espiritualidade desprovida da dimensão transcendente ou valorizando a auto-transcendência conta apenas com uma visão que olha para a pessoa como o fim-de-si-mesma e, nela, as forças e capacidades suficientes para se centrar no caminho de uma autotransformação.

Qual a novidade de uma espiritualidade cristã? Talvez passe muito pela aquisição de uma consciência existencial da fé. Esta consciência vai para além de um mero auto-centramento energético, mas como processo, é mais dádiva que receção, é mais oblação que posse, é mais integralidade de vida que reducionismo espiritual.

Parece-me que algumas espiritualidades fecham a pessoa no mero objeto de alcançar uma dita felicidade e paz interior, mas não verdadeiramente em progressos espirituais de alcance existencial que passem por opções morais e atitudes consequentes e comportamentais. Esses são consequências secundárias, e não verdadeira opção transformadora e transformante.

Sou daqueles que não acredita numa espiritualidade sem religião. Ou, pelo menos, não lhe chamemos espiritualidade, mas alguma filosofia de vida. Uma espiritualidade sem religião deixa o Homem só e à sua sorte. A religião, antes de qualquer código, moral ou lei, nasce como resposta do Homem a essa dimensão espiritual da vida. Talvez o tempo que vivemos esteja a exigir que as religiões façam emergir o seu património espiritual, por vezes tão escondido.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

Segunda leitura – Quem dá o pão…

Segunda leitura – Quem dá o pão… novidade

A reportagem era sobre as saudades da escola, sobre a falta que ela fazia. Melhor: sobre a falta que dela se sentia. Que não é exatamente a mesma coisa, mas adiante… Claro que sim, claro que sentiam a falta, meninas e meninos a uma só voz, e de quê?, pois de tudo, de estar com os amigos, de aprender muitas coisas novas, de estar com os amigos, de jogar e brincar no recreio, de estar com os amigos outra vez…

Breves

Peditório digital da Cáritas entre 28 de fevereiro e 7 de março

O peditório nacional da rede Caritas vai pela segunda vez decorrer em formato digital, podendo os donativos ser realizados, durante a próxima semana, de 28 de fevereiro a 7 de março, diretamente no sítio da Cáritas Nacional ou por transferência bancária.

Cardeal Tolentino vence Prémio Universidade de Coimbra

O Prémio Universidade de Coimbra foi atribuído ao cardeal José Tolentino Mendonça, anunciou a instituição nesta quinta-feira, 25. O reitor, Amílcar Falcão, referiu-se ao premiado como “uma figura ímpar, uma pessoa de cultura com uma visão social inclusiva.”

Recolha de bens e fundos para Pemba continua em Braga até 31 de março

O Centro Missionário Arquidiocesano de Braga – CMAB decidiu prolongar até 31 de março a campanha para recolha de bens a enviar para Moçambique, onde serão geridos e distribuídos pela Diocese de Pemba, para apoiar “o meio milhão de pessoas deslocadas que fogem das suas aldeias atacadas por um grupo sem rosto.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

O 7MARGENS em entrevista na Rede Social, da TSF

António Marujo, diretor do 7MARGENS, foi o entrevistado do programa Rede Social, da TSF, que foi para o ar nesta terça-feira, dia 23, conduzido, como habitualmente, pelo jornalista Fernando Alves.

Parlamento palestino vai ter mais dois deputados cristãos

Sete das 132 cadeiras do Conselho Legislativo Palestino (Parlamento) estão reservadas para cidadãos palestinos de fé cristã, determina um decreto presidencial divulgado esta semana. O diploma altera a lei eleitoral recém-aprovada e acrescenta mais dois lugares aos anteriormente reservados a deputados cristãos.

Tribunal timorense inicia julgamento de ex-padre pedófilo

O ex-padre Richard Daschbach, de 84 anos, antigo membro dos missionários da Sociedade do Verbo Divino, começou a ser julgado segunda-feira, 22, em Timor-Leste, acusado de 14 crimes de abuso sexual de adolescentes com menos de 14 anos, de atividades ligadas a pornografia infantil e de violência doméstica.

Prémio para trabalhos académicos sobre templos cristãos

Um prémio no valor de 1.000 euros e uma bolsa de estudo para um estágio de três meses no atelier Meck Architekten (Munique) vai ser atribuído pela Fundação Frate Sole à melhor tese de licenciatura, mestrado ou de doutoramento sobre uma igreja de culto cristão.

Entre margens

A sociedade e os idosos novidade

Ao longo do último ano, tempo em que já dura a dolorosa pandemia que nos tem retido confinados, embora pelos piores motivos muito se tem falado dos que vivem em residências para idosos. Antes da covid-19, pelo que nos é dado agora saber, uma boa parte dos cidadãos e dos políticos parece que pouco ou nada sabiam do que se passava nestas instituições, quer nas clandestinas quer nas comparticipadas pelo Estado.

Servir: lavar as mãos, lavar os pés, lavar o coração

Depois de alguma leitura, aquela conversa não me saía da cabeça. Lembrei-me do ritual do “Lava pés”, que teve lugar na última ceia de Jesus Cristo, na qual Ele ensinou-nos, entre outras coisas, a partilhar o pão e o vinho (a comida) e a servir (lavou os pés aos seus discípulos). Lembrei-me também de uma tradição ocidental, segundo a qual quando alguém vai à casa de outrem pela primeira vez, a dona de casa deve servir ao visitante o “primeiro copo”. Por ser de “bom tom”, é cortês. E é, porque abre o à vontade ao visitante.

Como o “bicho” mexe com a prática religiosa

A verdade é que um de cada três cristãos praticantes americanos parou de frequentar a igreja com a pandemia, apesar da evidência de que a comunidade de fé exerce um efeito integrativo do ponto de vista social, de estabilização emocional e promove o encorajamento e a esperança dos indivíduos. Curiosamente, as gerações mais novas apresentaram mais dificuldades na substituição das celebrações presenciais pelas online, eventualmente devido a uma maior necessidade gregária.

Cultura e artes

Canções para estes tempos de inquietação 

No ano em que Nick Cave se sentou sozinho ao piano, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, o australiano dedicou-se também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

A luta de Abel com o Caim dentro dele

Como escrever sobre um filme que nos parece importante, mas nem sequer foi daqueles que mais nos entusiasmou? E, no entanto, parece “obrigatório” escrever sobre ele, o último filme de Abel Ferrara, com o seu alter-ego e crístico Willem Dafoe: Sibéria.

As ignoradas Mães (Madres) do Deserto

As “Mães” do Deserto foram, de par com os Padres do Deserto, mulheres ascetas cristãs que habitavam os desertos da Palestina, Síria e Egito nos primeiros séculos da era cristã (III, IV e V). Viveram como eremitas tal como muitos padres do deserto e algumas formaram pequenas comunidades monásticas.

Sete Partidas

Vacinas: Criticar sem generalizar

Alguns colegas de coro começaram a falar dos espertinhos – como o político que se ofereceu (juntamente com os seus próximos) para tomar as vacinas que se iam estragar, argumentando que assim davam um bom exemplo aos renitentes. Cada pessoa tinha um caso para contar. E eu ouvia, divertida.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This