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Uma espiritualidade democrática radical

Uma espiritualidade democrática radical

by | 21 Jul 19 | Entre Margens, Últimas

Espiritualidade em tempo de crise (V)

Não é nenhuma novidade dizer que o modelo de democracia que temos, identificado como democracia representativa e formal (de origem liberal-burguesa) está em crise. Disso, entre outras razões, têm-se aproveitado muito bem os partidos de extrema-direita. Mas não só eles. Surgem também críticas fortes desde a própria sociedade civil a este modelo. As abstenções, ainda que possam ter igualmente outras causas, são indicação deste problema mais fundo no “iceberg político”. Representação? Os partidos políticos representam-nos realmente, mais além da sua propaganda? Ou não será que representam preferentemente os seus próprios interesses partidários-partidistas ou os interesses de grandes grupos atrás deles? Uma dúvida permanente atrás da orelha do cidadão e cidadã comuns.

Ao mesmo tempo proliferam iniciativas mais de base e radicais (de raiz), mais além da crítica surgida pelo outro lado, a já mencionada da extrema-direita. A ascensão da crítica e prática ecológica, do movimento de mulheres e de género, e até de movimentos infantis e juvenis, mostram espaços participativos criativos e de impacto popular relativamente novos. A política tradicional, o bipartidismo, também parece andar em crise em vários países. “Algo se move”, nesta rápida análise de sociologia política.

Há igualmente uma consciência mais ou menos viva de que este é o sistema político que exprime atrás dele o poder dos grandes meios capitalistas, das grandes corporações e meios financeiros (por exemplo, quem financia os partidos? Será que eles vão propor leis contra os seus financiadores?).

 

As nossas vidas nas nossas mãos

Na nossa opinião, há um desafio urgente para a cidadania dos nossos tempos: superar democraticamente este modelo restringido de democracia formal e representativa. O desafio seria ir para modelos mais participativos e diretos do exercício do seu próprio poder político, por parte dos cidadãos e cidadãs deste planeta.

Sem dúvida que a democracia que temos representou um avanço frente aos sistemas autocráticos que vigoraram num passado não muito distante e que ainda perduram em alguns espaços. Mas não dá mais de si! É importante ser conscientes disto e não colocarmos mais expectativas naquilo que tem pouco mais a dar.

Sem dúvida, isto precisaria de ser mais justificado. Mas não há mais tempo a perder. É urgente a mudança de paradigma político!

Parece-nos que a Espiritualidade, tal como a entendemos, pode apoiar um processo de procura de novos modelos mais democráticos, de base e diretos. Como? Mantendo os valores democráticos de tolerância, respeito, poder do povo, informação crítica, livre debate, participação, etc., mas integrados agora num modelo mais amplo onde a cidadania tenha realmente poder de decisão. Porque a palavra democraciasignifica precisamente poder do povo.

E daí surgem perguntas claras:podemos decidir pessoalmente sobre o tipo de economia que queremos, como gerir os nossos assuntos, participar realmente no nosso bairro, na nossa empresa, no nosso lugar de trabalho, até na nossa vida? De facto, não! Porque têm que ser os institutos políticos coletivos, os partidos, os únicos sujeitos e protagonistas políticos que detêm esse poder? Um poder roubado e que só funciona com a negligência da própria cidadania. Como dizia o filósofo Max Stirner, “existem ricos porque os pobres o permitem”.

Um dos aspetos chaves da nova espiritualidade é a gestão do aqui-e-agora em atenção plena, num processo de maior conscientização e auto-realização pessoal e coletiva. Isto é incompatível com um sistema de minoria de idade política, onde os profissionais decidem sobre o que nos convém, mantendo-nos no infantilismo político.

Não estará a chegar então a hora em que a espiritualidade acompanhe este processo de verdadeira “tomada do poder” por parte da sociedade civil frente à sociedade política formal realmente existente? Ou melhor dito, não estaremos a assistir a um processo em que o poder político volte realmente à própria sociedade civil de onde ele emanou?

Isto exigiria uma cidadania crítica, participativa e ativa disposta a tomar o poder de cada dia nas suas próprias mãos. E isto é um processo multifacetado, paciente e permanente.

Mas será que queremos realmente isto?

Ou preferimos seguir no aburguesamento consumista, alienado e cómodo?

Seria triste que a extrema-direita nos ultrapassasse neste processo de crítica radical do sistema político realmente existente, deixando-nos também infantilizados com pseudo-libertações por meio de espetáculos de nacionalismos irracionais (e anti-históricos), contradições permanentes (tipo Trump) e mentiras cada vez maiores, perante uma cidadania indiferente e apática (fomentado astutamente desde há várias décadas para cá).

Acreditemos nisto: as nossas vidas estão agora nas nossas mãos!

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