Uma estátua tomba e um perigo mais alto se levanta

| 16 Jun 20

No seguimento do assassínio levado a cabo por um agente da lei no passado dia 25 de Maio nos EUA, inúmeras manifestações foram organizadas e ganharam forma, sobretudo em países – a que temos o hábito pouco feliz de chamar – ocidentais. América, Europa, Austrália, entre outros exemplos pontuais.

A violência e a repressão policial, com sórdidas consequências, não são assuntos novos. Nem nos dias de hoje nem nos do passado. No entanto, vários foram os fatores que se conjugaram para que mais um caso – e a perda de uma vida! – tomasse proporções (parcialmente) internacionais: um vídeo que não deixa dúvidas sobre a crueldade atroz exercida, um homem de pele negra como vítima e um episódio decorrido nos EUA, onde seja o que for que aconteça parece sempre, em países como o nosso, ter mais importância do que qualquer outro acontecimento noutra nação do mundo.

Muito haveria a dizer sobre os motivos, o direito, as incongruências ou as reais justificações que os protestos dos últimos dias exprimiram. Não deixa de ser, em última instância, um movimento solidário de milhares de pessoas. Um movimento clamando contra a injustiça personificada na morte de um homem a quem desgraçadamente foi abafada a voz e perdeu, impotente, o fôlego sob as mãos e os joelhos sujos da força legitimada.

No decorrer destas manifestações, um acontecimento, contudo, prendeu-me particularmente a atenção e os pensamentos. Em Bristol, cidade inglesa onde estive há pouco mais de dois meses num tranquilo fim-de-semana prolongado e quase primaveril, a estátua de um homem chamado Edward Colston foi derrubada.

Pedestal vazio da estátua de Edward Colston. Bristol. Black lives matter

Pedestal vazio da estátua de Edward Colston, em Bristol, depois do movimento Black lives matter ter derrunado a estátua. Foto Caitlin Hobbs, 7 Junho 2020

 

Uma figura relativamente desconhecida em Portugal, apesar dos negócios que estabeleceu nas nossas margens, mas central na História desta cidade portuária durante o século XVII e o XVIII. Proveniente de uma família com várias gerações de mercadores proeminentes, é hoje em dia visto por uns como um importante benfeitor da sua cidade natal. Sem herdeiros, decidiu oferecer parte da fortuna e subvencionou hospitais, igrejas, escolas para crianças pobres, levando inclusivamente à abertura de um colégio feminino. Porém, por outros, não é mais do que um traficante de escravos, no início enquanto membro da Companhia Real Africana e, posteriormente, a título privado. Diz-se ter tido um papel ativo no comércio de 84 mil almas africanas (incluindo 12 mil crianças), das quais 19 mil terão morrido durante a travessia atlântica.

São já várias as décadas em que a estátua, esculpida há 125 anos, e outros lugares e instituições que carregam o seu nome animam o debate entre os habitantes locais. Desde a discussão e alteração da placa associada ao monumento de bronze até à principal sala de espetáculos da cidade (Colston Hall) que, apesar de uma petição de quase dez mil assinaturas contra a iniciativa, prometeu alterar o nome deste espaço cultural aquando da sua reabertura em 2020, Edward Colston parece mais vivo e presente do que nunca na cidade de Bristol. E agora pelo mundo fora.

No entanto, talvez mais do que a discussão histórica deste caso concreto, parece-me sobretudo importante refletir sobre a importância moral que este recente facto simbolicamente representa.

A História, por definição, é passado. E ao ser passado podemos dizer que já não muda. Será, porém, errado afirmar exatamente o contrário? O passado, em lugar de ser estático, muda constantemente. E muda em função de quem o olha, de quem o interpreta, de quem o conta. Há, contudo, uma grande e determinante diferença entre reformular a visão dos eventos históricos e querer apagá-los da memória coletiva.

Quando se lançam cordas ao pescoço de um homem, ainda que de bronze, e se o faz rolar com mãos e joelhos sujos atirando-o para o fundo do rio, que significa isso senão um ato da mais pura desumanidade? Não quero de modo nenhum igualar o sofrimento dos últimos momentos de vida de uma pessoa com o barulho metálico de algo inerte a rolar pela estrada. Mas se tentarmos afastar-nos da carga emocional necessariamente presente e olharmos para estas duas lastimosas circunstâncias com o distanciamento que o tempo há-de trazer, entenderemos que ambas são provocadas pela mesma atitude de indiferença e ignorância onde a força se impõe perante o discernimento e a lucidez.

Que imaculado espírito terás tu quando atiras um homem do passado para o fundo do rio de modo a que mais ninguém o veja? É a arrogância de uma moral inquestionável que levou os nazis a queimarem livros, ou o espanhol inquisidor Frei Diego de Landa a destruir a quase totalidade dos códices maias no Iucatão mexicano.

Não pretendo suavizar a atitude de um traficante de escravos responsável por um sofrimento humano que nenhum de nós consegue imaginar. Mas antes de o julgar, pergunto-me: quais serão os olhos que me sentenciarão um dia desde o futuro? Será tão diferente a consciência de um homem setecentista que investe em escravos africanos, preferindo-os por razões de custo aos mais dispendiosos miseráveis europeus, quando comparado com o empresário da multinacional que abre uma nova fábrica na Índia? É verdade que nem todos somos investidores, mas quem entre nós não usufrui desse “mercado barato”? Quantos de nós temos um telemóvel e nunca sequer nos preocupamos em saber com que honestidade esse objeto banal foi feito? Alguma vez nos ocorreu pensar quantos escravos estiveram implicados na exploração dos metais raros essenciais à existência de um qualquer computador que usamos?

Quão inocente (e displicente) é a nossa consciência perante o sofrimento que o nosso dia a dia causa a um lado do mundo que nunca veremos?

A nossa consciência é tão grande que a cada vez que puxamos o autoclismo ou fechamos o saco do lixo pensamos que fizemos uma boa ação e que a partir dali já nada tem a ver connosco.

Não sei se Edward Colston – ou Churchill ou Léopold II também eles atingidos durante a semana, ou Colombo ou até Vieira, vandalizado já depois da versão inicial deste texto – deverá ser venerado. Mas se é de um crime que os acusamos, pois que se use a inteligência e a criatividade para enfrentar o peso do passado e a inércia da mudança. E se já foi feito algo, que durou meses mas não resistiu, pois que se criem novas formas, novas afrontas inovadoras. Algo que não precise de agredir, mas tenha a inteligência de fazer questionar.

Afinal não é Bristol a cidade de Bansky? Onde estão os artistas do mundo inteiro? É deles que precisamos e não de brutos, sejam eles polícias ou gente desarmada.

10/06/2020
Tomás Sopas Bandeira é médico, vive e trabalha em Lausana (Suíça) e é autor de Zahra. 

 

Artigos relacionados

Pin It on Pinterest

Share This