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Uma estranha serenidade…

| 20/05/2024

Imagem do filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders: “Deixar-se fascinar pela sua própria metamorfose e pela transformação dos seres do mundo, é talvez o princípio da materialização frágil do princípio que consiste em «pensar globalmente, agir localmente».”

O que é que nos dará a verdadeira vida em tempos de Terra devastada? Como encontrar a serenidade no turbilhão dos dias quase sempre imperfeitos? O que há de notável, de estranho ou de profundo na imperfeição?

Talvez o leitor já tenha tido a estranha sensação de conversar com um monge e sair dessa conversação cheio de interrogações, mas também de entrar em si com o sentimento de uma estranha serenidade. Uma sensação enigmática que nos desloca da nossa condição habitual e doméstica, para um outro nível de relação com os demais, uma outra maneira de habitar o mundo e de nos sentirmos a nós próprios.

Freud falava dessa estranha sensação ou sentimento de estranheza, mais propriamente de «estranheza inquietante» ou de «familiaridade inquietante» (Unheimliche), que nos assola diante do novo, do inabitual, do não-familiar, um íntimo-estranho que habita subtilmente o nosso eu empírico. Não por acaso o ensaio de Freud, Das Unheimliche («O estranho»), assinala a sua incursão no domínio da estética, não somente como figura primordial do belo, mas essencialmente do sentir em si mesmo, como o que dá a pensar esse íntimo-estranho que nos faz ser ou impede de agir com total soberania.

Se, porventura, o leitor nunca teve essa experiência de escuta monástica, veja, logo que possível, o mais recente poema visual Perfect Days, realizado por Wim Wenders, filmado no formato minimal 1.33, em câmara móvel. Podemos dizer que é uma metáfora contrapontística ao turbilhão polarizador do mundo contemporâneo. A poeta Colette Nys-Mazure diz que é um filme intensamente poético: «Tão poucas palavras, mas as ruas de Tóquio, a paisagem mutável de rostos e folhagens perfuradas pela luz, as suas sombras dançantes». Uma atenção ao indizível no habitual, ao instante silencioso da prosa do mundo que abre à palavra, à dizibilidade do ser, das coisas, de outrem e de si mesmo, sobre as ruínas ou dilacerações em suspenso, as partidas sem retorno ou a iminência da morte por doença. A imagem final é um caminho sublime de abertura para esse novo mundo que vem, esse lugar natal de partida que é também a figura última da nossa morada eterna.

O Japão e a sua cultura ancestral, entre sombras e luzes, o seu ritmo poético, mas em mudança veloz para o que se chamada estilo de vida ocidental, marcado pelo neoliberalismo totalitário que se impõe a todos os âmbitos de vida, fascina e sempre fascinou Wim Wenders, amantes ele também do cinema nipónico, com Yasujiro Ozu à cabeça nas suas preferências. Tal é esse fascínio por Tóquio que o realizador, nos rastos de Ozu, realizou, em 1985, o documentário Tokyo-Ga. Esta cultura sábia, ainda que em rápida transmutação para uma outra realidade, fascina Wenders, como fascina o autor deste artigo, que dela só tem algum conhecimento por ouvir dizer, pela cultura dos livros e do cinema nipónico e de alguns conhecidos regressados após longos anos no Japão.

Certamente como simples palavra, como linguagem apenas, a graça é abordável como qualquer outro tema. Mas na carne da palavra poética ela amplia-se, extravasa os muros do espírito circunscrito, as puras lutas teológicas do passado entre a salvação luterana da solo gratia ou a das boas obras católica, encontrando todos os momentos da existência, o humano, a natureza, Deus, o quotidiano, as artes, os gestos, os encontros e as partilhas. Como escreve Collete Nys-Mazure, no seu escrito La Grâce et la rencontre: «Contágio da beleza que engendra uma sensação de íntima plenitude. A cada momento, um sentimento de infinito reconhecimento submerge-me por esta graça oferecida».

A habitação da graça é esta atitude de viver o espanto; de se deixar capturar pela surpresa do tempo, do espaço, do movimento e do ritmo; de ser acolhido no instante de uma prazenteira presença; de se deixar transformar pela possibilidade da plenitude no oco do instante, de uma folha que o vento leva sem esforço, de um nascimento novo no coração da matéria. Deixar-se fascinar pela sua própria metamorfose e pela transformação dos seres do mundo, das coisas e de outrem é talvez o princípio da mudança universal, a materialização frágil do princípio formulado por Jacques Ellul, que consiste em «pensar globalmente, agir localmente». É a polinização do mundo sob o efeito da graça que trespassa as diferenças, não para as tornar indiferentes no utopismo igualitário, mas nos tornar mais humanos, para ser mais si mesmo na graça do acolhimento e da hospitalidade daquilo ou daqueles que estão mais distantes de nós. «Eu é um outro» (Rimbaud), «Eu é o outro» (Pessoa) dizem os poetas.

A graça não é um belo termo, uma atitude mágica ou estado somente para o tempo favorável, é também para os tempos de desgraça, para a transfiguração do corpo que somos e da matéria pensante que nos constitui inseparavelmente. A graça ou a estranha serenidade do filme de Wenders consiste em olhar para um homem que limpa e cuida das casas de banho públicas de Tóquio, autênticos templos da arquitectura contemporânea e da tecnologia. Na repetição dos gestos quotidianos de Hirayma, entre trabalho e casa, se intercalam pequenos momentos de encontro, de leitura, de música, de fotografia, encontros, suspiros, recordações, confidências, reconciliações do passado… Momentos de dádiva, de graça, de dom, não obstante o que se vive, como se vive e onde se vive; não obstante as dilacerações que nos habitam, pois também, sobretudo nelas e através delas, se abrem aí novos horizontes de mundo, de mundos ou espaços antropológicos inauditos. O olhar e as sombras do corpo de Hirayama, espécie de monge budista urbano, só por si são uma graciosidade, pois elas produzem em nós o efeito de uma «estranha serenidade», sem necessidade de explicação. O filme mostra ou dá a ver o mundo sem o explicar ou demonstrar. Como a poesia, sugere e evoca. É um apelo a «aprender a ver de novo o mistério do mundo e das coisas», diria Merleau-Ponty. Se estamos disponíveis para o acolhimento de outrem, dos fenómenos ou das situações existenciais, a graça transforma a nossa própria visão da realidade (mesmo sem nunca utilizar uma casa de banho pública, o meu olhar sobre este espaço existencial será outro, passa a ser também o olhar de Hirayama, sendo esse novo olhar o que constitui também a nossa carne intersubjectiva, a minha e a de outrem, e nesse quiasma a possibilidade do nascimento de um terceiro género ou modo de ser outro).

Seja Graças a Deus, seja Graças à Vida, possa o leitor, se lhe incitar espanto e curiosidade, embeber-se da antologia de 118 poetas Grâce… : livre des heures poétiques (Éditions Bruno Boucey) que, por estes dias primaveris, como apelo a aprender a ver o mundo, um outro mundo, possível e poético, de graça que irrompe na desgraça do tempo de guerra ou de paz. Poderá acompanhar a leitura poética esse outro livro em destaque que é A Gravidade e a Graça, de Simone Weil, rumo à insustentável leveza dos dias irrisíveis. Habitar poeticamente o mundo…, o protagonista do filme Hirayama abre-nos para esse modo de existência poética que só um certo silêncio pode dar à palavra. Graça para todos os instantes, em particular, para estes apocalipses políticos, climáticos e existenciais extremamente metalizados que parecem sufocar e hipotecar o futuro da humanidade. Em suma, cruzar o presente e habitá-lo é deixá-lo ser o que é, pois, como se diz no filme, «a próxima vez é a próxima vez, e Agora é agora», graças à e por graça de… que sopra onde e quando quer.

Para expressar a ambiguidade dessa estranha ou inquietante serenidade da graça quotidiana, por vezes invisível, que não dissipa a radical finitude do ser no mundo, mas transfigura-a, abrindo novas possibilidades e lugares de realização ao ser situado que somos, ficam-nos os versos do poeta japonês Kobayashi Issa: «Neste mundo/caminhamos sobre o telhado do inferno/ E olhamos as flores». É atravessar a noite sem morrer de medo, a quentura de uma mão gratuita que afaga a desesperança, o pão reencontrado de um rosto anónimo, talvez, um quase-nada que é tudo…

João Paulo Costa é presbítero da Igreja Católica, investigador na área de filosofia e autor de À sombra do invisível (Documenta, 2020)

N.R.: Um outro olhar sobre este mesmo filme, da autoria de Teresa Vasconcelos foi também publicado no 7MARGENS.

 

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