Serra do Pilar

Uma experiência comunitária singular

| 5 Abr 2023

O presente texto tem a seguinte história: em outubro de 2022, o padre Arlindo Magalhães tinha preparado, em fase adiantada, um livro sobre a história da Comunidade Cristã da Serra do Pilar. Para acompanhar esse livro pediu-me um prefácio. Conheci o p. Arlindo no contexto da Faculdade de Teologia da UCP, no Porto, tendo mais tarde, entre 2010 e 2012, participado da vida da comunidade da Serra do Pilar, nomeadamente no catecumenato. Estando a minha vida pessoal e profissional estabelecida em Braga, mantive uma relação de amizade com as pessoas da comunidade e com o p. Arlindo, entrecruzando-se com momentos importantes da minha vida (casamento, batismo dos filhos, celebração da fé, colaboração em formações), podendo tal explicar o pedido para este prefácio. A sua morte, ocorrida no dia 18 de janeiro, deixou a publicação deste livro em suspenso, prevendo-se, no entanto, que a Comunidade assegure a concretização do projeto para breve. O 7MARGENS antecipa aqui desde já a publicação deste texto, como forma de assinalar também a reflexão sobre a Páscoa, que os cristãos vivem nesta semana, e que era para o padre Arlindo o centro vital da vida comunitária. 

  

Para uma história da comunidade da Serra do Pilar

Serra do Pilar

Padre Arlindo Magalhães: “Gerou incompreensões, recusas, tabus: quem é que, hoje, na diocese do Porto, fala da pastoral desenvolvida na Serra do Pilar, para dela aprender ou para a refutar? Mas, à parte as vidas das pessoas em situações de divórcio e de novas núpcias, que pastoral ainda se reflete e questiona? A pastoral de JMJ?” Foto: Direitos Reservados

 

A Comunidade Cristã da Serra do Pilar constitui uma história singular no espaço eclesial português: trata-se do ensino da fé, da liturgia preparada e vivida por toda a comunidade celebrante, dos ministérios à acessibilidade dos textos, do serviço da caridade. O singular opõe-se à uniformização por baixo, ao mínimo denominador comum ou à máquina de uniformizar que nivela as diferenças, suspeita as experiências, não estimula ou acolhe as qualidades, desconhece os nomes, histórias e gestos de cada um, tudo passando por uma mesma tábua rasa de sacramentos, cartórios e catequeses infantis.

É também a vida singular de um presbítero, singular porque escolheu ser singular, não porque foi ou é extraordinária, mas porque, em momentos favoráveis, exerceu o seu discernimento e optou por ser pastor e não capelão, pedagogo e não administrador, estudioso (da história, da teologia, do cinema) e não burocrata, pai e mestre e não um escriba. Gerou incompreensões, recusas, tabus: quem é que, hoje, na diocese do Porto, fala da pastoral desenvolvida na Serra do Pilar, para dela aprender ou para a refutar? Mas, à parte as vidas das pessoas em situações de divórcio e de novas núpcias, que pastoral ainda se reflete e questiona? A pastoral de JMJ?

Qual o futuro das comunidades urbanas não-paroquiais, consagradas por Paulo VI? Qual o futuro de existências presbiterais criativas e interrogantes – proféticas, no sentido bíblico? Limitar-se-ão, por um suposto número abaixo das necessidades, a um guião delimitado entre a paroquialidade, a administração sacramental e social, a pastoral de secretariados e de grandes eventos? Ainda haverá fundadores de comunidades?

Entre o anonimato das grandes paróquias e o ambiente fechado de movimentos eclesiais, a Serra do Pilar mantém um equilíbrio de porta aberta e mesa posta, onde não se pedem informações a quem chega sobre o seu passado ou presente nem pedidos de compromisso de futuro. É uma porta aberta para a liturgia, a oração, a catequese ou a caridade, abertura sem anonimato e acolhimento sem contrapartidas. Onde estão as experiências singulares na Igreja em Portugal? As comunidades monásticas, os padres operários, as pequenas assembleias domésticas das missões populares…

A tentação digital individualiza mas não singulariza, isola, não reúne. A suposta escassez de pessoas para os ministérios, tal como o seu envelhecimento, a par da falta de tempo e de recursos, tende a eliminar a diversidade e os pequenos contextos em nome da reunião de forças: fecham-se igrejas, capelas, casas, algumas com uma história centenária, só porque se considera o Senhor presente «onde dois ou três se reunirem em seu nome», desde que um deles seja varão, celibatário e ministro ordenado…

 

A escrita da História

Folha Dominical da Comunidade da Serra do Pilar: publicada semanalmente desde 1975, propunha um diálogo entre a teologia e a vida social e humana. Muitos dos seus textos são oriundos do contexto português, mas conta também com traduções inéditas de artigos estrangeiros. Foto: Direitos reservados.

 

Este livro não é uma história da comunidade cristã da Serra do Pilar. Ainda não é. É um instrumento, uma fonte, um conjunto de elementos ordenados, um registo privilegiado da parte de alguém que foi protagonista e testemunha, desde a primeira hora, desta aventura comunitária. Faltará escrever, um dia, a história da Comunidade Cristã da Serra do Pilar, esperando que seja a história de um determinado período e não a história de uma realidade que terá terminado.

Tal história implicará tecer vários fios interligados: o percurso pelas Folhas da Liturgia e pelas Folhas Dominicais, como registo histórico certamente ímpar no mapa das comunidades eclesiais em Portugal, pela sua continuidade; a conversa com pessoas que construíram, que visitaram, que acompanharam ou que se afastaram da Comunidade, de modo particular as que participaram nos sucessivos grupos catecumenais; as ligações contextuais que importará manter, desde a renovação eclesial desencadeada pelo concílio Vaticano II até à próprio história da diocese do Porto neste período, passando pelo 25 de abril, pela pobreza social e urbana dos anos 80 e as ilusões económicas dos anos 90; pesquisar e consulta o que sobre a Comunidade se foi dizendo em artigos de imprensa, religiosa ou generalista; finalmente, a compreensão que de si mesmo a Comunidade foi tendo ao longo da sua história em discernimento permanente com os textos do Novo Testamento, uma compreensão que se verifica nas sucessivas práticas que foram nascendo, mantendo, renovando ou terminando. Este possível projeto de registo histórico será tão difícil de realizar como indispensável.

Elenquem-se de maneira apenas muito sumárias as várias práticas que constituem a singularidade desta História: a liturgia centrada no Tríduo Pascal e na eucaristia dominical, sem outras missas, festas ou devoções que distraem do essencial; as visitas e passeios da Comunidade a lugares que testemunha a história da Igreja em Portugal, com frequência esquecida em nome das urgências passageiras do presente; a Folha Dominical, publicada ininterruptamente desde 1975 e tratada a partir de 1981 pelo Adelino Rosa, contexto singular de formação teológica animada por e para uma comunidade; o Livro da Vida: os nomes próprios e os traços próprios de quem parte e é recordado; o serviço da Partilha Fraterna, de onde nasceu o Centro de Convívio pensado para os idosos e crianças da escarpa da Serra do Pilar; a experiência da presidência leiga, iniciada em 1992, com o apoio próximo e claro do Bispo Júlio Rebimbas; a presença de presbíteros na história da Serra – p. Leonel, p. Gaspar, p. Serafim – que mostram uma fraternidade presbiteral que nasce de baixo, não imposta de cima ou de uma noção de classe; as homilias preparadas e pronunciadas por leigos, nomeadamente em momentos particulares – Sagrada Família, Imaculada Conceição –, demonstrando uma capacidade que existe e uma possibilidade de reforma eclesial que, como mostrou o Vaticano II, só tem profundidade quando parte de práticas já presentes na realidade, e não de documentos emanados da hierarquia; relacionado com esta características, as anuais férias do presbítero, nas quais têm lugar celebrações da Palavra que têm uma razão muito válida de ser: é o sacramento da Eucaristia que fundamenta o sacramento da Ordem, não o invés. Finalmente, a oração mensal com a comunidade da Igreja do Torne ou a Paróquia de São João Evangelista da Igreja Lusitana, pertencente à Comunhão Anglicana, cuja capela – que serviu simultaneamente como escola e lugar de culto – foi fundada em 1868. A 20 de janeiro de 1980, as duas comunidades reuniram-se para um momento de oração, dinâmica que se manteve, com um ritmo mensal, até à atualidade.

 

O Concílio Vaticano II

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro. “Não é possível compreender a história da comunidade da Serra do Pilar sem compreender algo do Concílio.” Foto: Direitos reservados.

 

Não é possível compreender a história da comunidade da Serra do Pilar sem compreender algo do concílio Vaticano II. E aqui entra uma questão fundamental: o que importa conhecer, os textos ou o “espírito” do concílio, isto é, a sua história, os debates, a luta de ideias, os movimentos que estiveram na origem e os movimentos que se seguiram? Trabalho difícil, mais agora que várias gerações nos separam do evento do concílio (1961-1965). A questão geracional está, aliás, presente na comunidade da Serra do Pilar, que retoma a sua história porque sente que é necessário passar um testemunho. E passar um testemunho significa confiar que o outro será capaz de contar a história transmitida sem que quem transmitiu em primeiro lugar esteja ainda, ou sempre, presente.

O concílio, promovido por João XXIII e levado a cabo pelo episcopado de todo o mundo, percebeu os sinais de necessidade de uma mudança, doutrinal e pastoral, numa realidade eclesial que dispunha ainda de uma ampla força humana em parte sustentada e em parte bloqueada pelo “anterior regime” – juventude, operariado, mulheres, movimentos, obras missionárias, institutos teológicos, presbitérios numerosos… Numa leitura talvez superficial, parece que o concílio promoveu um grande trabalho de discernimento de uma realidade eclesial viva e vibrante, mas que se encontrava já perto do auge: atingindo-se um auge, o passo seguinte é o de declínio, o de “descer a montanha” das transfigurações sublimes, para chegar às duras dificuldades do trabalho quotidiano…

Mas, sem o concílio, não teríamos agora as ferramentas para o natural declínio eclesial na Europa, tal como os discípulos, sem a subida ao monte da Transfiguração, não teriam as ferramentas para interpretar a Paixão do Senhor. Citemos brevemente algumas das ferramentas herdadas do concílio: uma liturgia que é celebração participada e consciente de todos os batizados do mistério pascal de Cristo; a revelação do mistério de Deus como uma história de salvação, não como um conjunto de verdades teóricas; a inscrição da Escritura no trabalho de leitura de todos os discípulos de Jesus, uma mesa que dá alimento diariamente; o ecumenismo e o diálogo inter-religioso como passos de passagem obrigatória para qualquer prática eclesial; uma Igreja que acompanha, vive e sente, no seu corpo, as dores, sofrimentos e esperanças da humanidade, com todos os seus avanços técnicos e, também, com todas as fomes que iniquamente persistem; finalmente, a Igreja como Povo e Sacramento, sinal de Cristo na história humana. Vale a pena repetir este texto fundante, que está no cerne da identidade da comunidade da Serra do Pilar:

«Um só é, pois, o Povo de Deus: “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4, 5); comum é a dignidade dos membros, pela regeneração em Cristo; comum a graça de filhos, comum a vocação à perfeição; uma só salvação, uma só esperança e uma caridade indivisa. Nenhuma desigualdade, portanto, em Cristo e na Igreja, por motivo de raça ou de nação, de condição social ou de sexo, porque “não há judeu nem grego, escravo nem homem livre, homem nem mulher; com efeito, em Cristo Jesus, todos vós sois um” (Gl 3, 28; Cl 3, 11).

Portanto, ainda que, na Igreja, nem todos sigam pelo mesmo caminho, todos são, contudo, chamados à santidade, e a todos coube a mesma fé pela justiça de Deus (2Pe 1, 1). Ainda que, por vontade de Cristo, alguns são constituídos doutores, dispensadores dos mistérios e pastores em favor dos demais, reina, porém, igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo» (Lumen Gentium 32 ).

Uma tradição apenas se mantém em fidelidade criativa, em permanente trabalho de leitura dos textos e de tradução e recriação nas circunstâncias em que vivemos. A comunidade da Serra do Pilar representa um trabalho de aplicação e receção da Igreja pedida e sonhada pelos textos conciliares. Manter presente a experiência singular que é a comunidade da Serra do Pilar significa manter acreditar nas ferramentas que o concílio nos forneceu para aprendermos a viver como crentes o nosso tempo.

 

O ensino da fé, um paradoxo cristão

A nomeação do padre Arlindo como capelão da Serra do Pilar, em 1975, deu início a uma aventura que se pretendia fiel ao espírito do Concílio: a de pequenas comunidades fraternas, centradas no ensino da Fé e na celebração da Fração do Pão. Foto: Direitos reservados.

Uma leitura atenta dos textos que constituem o Novo Testamento permitirá relevar uma tensão entre as muitas que geram a energia de que o Cristianismo vive. Trata-se do ensino da fé.

Por um lado, os discípulos de Jesus reconhecem que, na sua Páscoa, a economia da Aliança deu um salto qualitativo no conhecimento de Deus. Cumpre-se a profecia de Jeremias 31, 31-34, amplamente citada no Novo Testamento (Hb 8, 8-12; 10, 16-17): «Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Ninguém ensinará mais o seu próximo ou o seu irmão, dizendo: “Aprende a conhecer o Senhor!” Pois todos me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno».

O próprio Paulo fala dos seus irmãos da comunidade de Coríntio como uma realização desta Nova Aliança: «É evidente que sois uma carta de Cristo, confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações» (2Cor 3, 3).

Os Evangelhos apresentam-nos duras críticas de Jesus aos grupos dos fariseus e doutores da lei pelo facto de estes se colocarem num papel de mediadores excludentes entre as multidões e os mandamentos da Aliança. Na nova comunidade dos discípulos, o regime será diferente: «Não vos deixeis tratar por “mestres”, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis “Pai”, porque um só é o vosso “Pai”: aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por “doutores”, porque um só é o vosso “Doutor”: Cristo» (Mt 23, 8-10).

Os exemplos da Escritura poderiam continuar. Se os Profetas sonham com um tempo em que todo o povo de Israel conhece e vive os mandamentos da Aliança, interiorizando-os pelo dom do Espírito de Deus – tal como Moisés havia confiado aos 70 anciãos (Nm 11, 16-30), os discípulos de Jesus proclamam que o Espírito de Deus já foi derramado sobre toda a comunidade no Pentecostes, permitindo a todos conhecer as maravilhas de Deus nas suas próprias línguas (At 2, 1-11).

Por outro lado, o ensino da fé – como introdução às profecias da Escritura e sua leitura à luz da Páscoa de Jesus – é algo constante nas páginas do Novo Testamento. Jesus não deixa de ensinar as multidões em parábolas, ainda que o seu ensino seja, com frequência, revestido de paradoxos difíceis de compreender superficialmente – para que quem escuta não adormeça, como acontece nas nossas celebrações! Há, nas Cartas de Paulo, referências a ministérios, a começar por ele próprio, que desempenham o serviço do ensino, da admoestação, da pregação. Repare-se nesta passagem da Carta aos Efésios:

«Foi Ele que a alguns constituiu como apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, em ordem a preparar os santos para uma atividade de serviço, para a construção do Corpo de Cristo, até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao homem adulto, à medida completa da plenitude de Cristo. Assim, deixaremos de ser crianças, batidos pelas ondas e levados por qualquer vento da doutrina, ao sabor do jogo dos homens, da astúcia que maliciosamente leva ao erro; antes, testemunhando a verdade no amor, cresceremos em tudo para aquele que é a cabeça, Cristo» (Ef 4, 11-15).

Serra do Pilar

Vigília Pascal na Serra do Pilar a vida da comunidade alimenta-se de uma espiritualidade centrada naquela celebração. Símbolo disso é o Círio Pascal, aceso em todas as celebrações dominicais, independentemente do tempo litúrgico. Foto: Direitos reservados.

 

Se a Nova Aliança instaura entre todos os crentes um conhecimento pessoal do Senhor, esse conhecimento só tem lugar no contexto de uma comunidade, de um corpo que está em amadurecimento. Pelo ensino dos ministérios, a comunidade emerge de um estado de ingenuidade infantil, que tanto tem de bom como de frágil, para um conhecimento adulto. Mas só na caridade esses serviços podem ser desempenhados:

«Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse a caridade, seria como bronze que soa ou como címbalo que tine. Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, nada seria» (1Cor 13, 1-2).

Então, em que ficamos? Como resolver este paradoxo entre a economia do novo Povo da Aliança, onde há apenas um Mestre – o Espírito do Senhor Jesus – e, não obstante, continua a existir a necessidade do ensino, do serviço da transmissão da fé? Os paradoxos não se podem eliminar, sob o risco de desligarmos o “motor” que fornece energia ao sistema. Mas a tentação é precisamente essa: resolver o paradoxo, eliminando-o. Ou se elimina o ensino da fé, declarando que todos temos já o conhecimento necessário para a salvação, ou se elimina a plena maturidade dos crentes, declarando que tal é uma utopia reservada para o final dos tempos.

Se o fácil é eliminar o paradoxo, o difícil é caminhar num equilíbrio sempre frágil e sempre em tensão. Sim, a comunidade dos discípulos de Jesus é chamada a partilhar a consciência plena e pessoal da fé, sem qualquer classe que se constitua em mediadora e única porta-voz legítima e autorizada da experiência crente. E sim, a comunidade dos discípulos de Jesus precisa de ministérios, de um ensino, de uma tradição que a liberte do drama excessivamente pesado de começar do zero, de recusar uma herança, de partir para a região longínqua dos nossos egos, onde todas as riquezas se dissipam.

Onde está o epicentro deste paradoxo e deste equilíbrio? No mandamento novo: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. O ensino da fé destina-se a formar adultos, a fornecer uma capacidade crítica de leitura e de consciência da economia da salvação, não a constituir uma classe separada que detenha para si esse tesouro. Amar o próximo é, neste ministério, apresentar-lhe uma história, uma tradição de que ele pode, livremente, fazer parte, é alimentar o seu desejo de palavras, de respostas e de novas perguntas sobre o mistério que o habita, não isoladamente, mas em comunhão com outros peregrinos.

 

O catecumenado, pedagogia paternal

Serra do Pilar

A disposição circular do espaço litúrgico constitui uma característica peculiar da vida da Comunidade, no espírito do Concílio Vaticano II. Ao início, o ambão simboliza a Palavra como porta de entrada na vida cristã. Foto: Direitos reservados.

 

No centro da experiência pastoral da Serra do Pilar está, sem qualquer dúvida, o ensino da fé. Assumiu-se como atual a denúncia apresentada pelo profeta Oseias: «É a ti que Eu censuro, ó sacerdote. Tu hás de tropeçar em pleno dia, contigo tropeçará também o profeta, e de noite farei perecer a tua mãe. O meu povo perde-se por falta de conhecimento; porque rejeitaste a instrução, excluir-te-ei do meu sacerdócio» (Os 4, 4-6).

O exercício da homilia retomou o seu sentido original, o de uma conversação próxima e familiar, na qual se apresenta de modo pausado, sem infantilizações nem lugares-comuns, o que a Escritura nos transmite sobre o mistério de Cristo. Nota-se pelo tom, pelo estilo e pela dedicação que esta exposição homilética da fé é feita no amor, na vontade de ver o outro crescer, numa saborosa prática que recorda a de um professor primário, capaz tanto de ensinar as letras como de contar uma história ou cantar uma cantiga.

Também o catecumenado, instituição antiga da Igreja e vivida de um modo único na Serra do Pilar. Apontemos várias características: o estilo narrativo da sua exposição, quer percorre das Escrituras à história e liturgia da Igreja, abraçando o discípulos numa tradição que é sua e que lhe cabe recriar na sua existência; a profundidade que implica quatro anos de uma lenta caminhada, com a paciência e o desejo que levava os antigos peregrinos de Santiago a dedicar longos meses da sua vida em busca de uma experiência espiritual marcante; a pedagogia do pequeno grupo, não um grupo de eleitos que se julgam superiores, mas de pessoas que partem em busca do seu desejo, com laços de proximidade e cumplicidade que lhes permite expor as suas dúvidas, experiências e histórias; finalmente, e muito importante: o seu términus. O caminho catecumenal tem uma conclusão, algo que não é assim tão comum em movimentos eclesiais e propostas similares. O discípulo é chamado uma hora a deixar as mãos do seu mestre, a estabelecer o seu próprio caminho, em adultez e liberdade, acompanhado pela sua comunidade.

Uma proposta com uma história de 40 anos, tão mais completa na sua identidade, quanto menos foi copiada, imitada, seguida. Arrisco-me a dizer, com tanta coragem que tenho a escrever como a que não tenho a aplicar: no contexto da Igreja em Portugal, esta proposta, com matizes e variantes diferentes consoante os lugares, será no futuro reconhecida como válida e posta em prática por leigos, mais do que por clérigos. Porque, salvo honrosas exceções, é precisa a experiência da maternidade ou paternidade para se saber narrar a história da fé e introduzir o outro nela. Algo, de resto, que a tradição judaica reconhece: Torá, em hebraico, é uma palavra feminina, pois eram as mães quem ensaiavam com os filhos as primeiras palavras da fé.

Ao invés, o clero celibatário sabe organizar conferências e jornadas nas quais um doutor ou mestre, parecidos com os que Jesus critica, toca ao de leve o seu muito saber académico, para uma plateia com dezenas de cadeiras anónimas, ocupadas ou vazias consoante os lugares e as horas. Quando o que continua a ser necessário é nascer de novo (Jo 3, 3), aceitar ser de novo criança e aprender, na casa de família que é a paróquia, essas primeiras palavras da fé.

 

O futuro deste corpo, desta comunidade, pertence ao Senhor da História. Aos discípulos cumpre vigiar a hora presente, a noite, no meio de todas as luzes da cidade que tentam iludir a escuridão. No seio desta noite, uma pequena luz permanece, celebrando no primeiro dia da semana a fé, rezando o pai-nosso, partindo o pão, no alto de uma escarpa. Quem por lá passou, como eu, e um dia partiu, partiu com o sentimento de exílio: são marcas, saudades, experiência de uma diferença e de uma falta, como de uma peculiaridade que nem sempre são evidentes para quem permanece. Melhor testemunho de gratidão não saberei dar.

Padre Serafim Ascensão, o bispo Januário Torgal: Ferreira (com o padre Arlindo atrás), numa das visitas à Comunidade: dois importantes amigos da Comunidade. O padre Serafim Ascensão partilha a sua vida com a Comunidade de Emaús. DR

Termina aqui o texto que foi dado a ler ao p. Arlindo, e que encontrou da sua parte uma reação agradecida. Não teve alterações desde então. No entanto, à luz do acontecimento da sua morte, parece-me oportuno acrescentar o seguinte relato.

Quem contactou com o p. Arlindo e com ele participou de algum tipo de projeto terá mantido um diálogo mais ou menos parecido com o seguinte:

Arlindo: Não é isto, não é isto.
Interlocutor: Então o que é? O que pretende?
Arlindo: Eu não sei. Mas sei que não é isto. É outra coisa.

Este diálogo poderia ocorrer numa variedade de contextos: a preparação de uma celebração litúrgica, uma reunião pastoral, um trabalho académico… Tratava-se, na verdade, de uma comunicação difícil, que deixava o interlocutor perto de um ataque de nervos. Se as relações afetuosas com o p. Arlindo ajudam a explicar a marca que deixou junto de tantas pessoas, já as relações de trabalho poderiam ser bem difíceis. Uma coisa equilibrava a outra.

Hoje, lendo estes episódios, arrisco uma explicação. Quem percorrer os textos de autores místicos encontrará expressões parecidas. Arriscar afirmar uma mística na vida do p. Arlindo não significa, de todo, afirmar um carácter perfeito ou extraordinário: tinha defeitos, cometeu erros (também pastorais) e chorou por eles. Significa afirmar uma vida em busca, uma vida a caminho. Foi esse caminho que o levou dos textos do Vaticano II à busca de novas experiências pastorais na diocese do Porto (sobretudo no Padrão da Légua, com o p. Leonel Oliveira), da história do Cristianismo aos Caminhos de Santiago, do Cinema à Literatura, da Nova Teologia ao doutoramento e à vida académica. E sempre o mesmo sentido: “não é isto, sei que não é isto”. Fosse no que toca à comunidade (40 anos depois, um projeto inacabado segundo as suas palavras), às suas homilias (cada vez menos satisfatórias, também segundo as suas palavras), ou aos seus dias (cada vez menos ativos, pela idade e pela saúde).

Sim, não era ainda aquilo, era sempre algo outro, algo diferente. Vezes houve, poucas, que reconheceu algo bem adquirido, bem situado, mas para, logo a seguir, ter de “descer do monte”. Outras vezes, algumas, foi necessário aceitar, conciliar, negociar compromissos. Mas eram etapas do caminho, de um peregrinar que, embora nunca sozinho, era intrinsecamente pessoal. Por isso era tão difícil de acompanhar.

O Caminhante chegou agora a casa. Já é de noite, e está fatigado. O caminho foi longo, como as páginas da Escritura. Sentou-se à mesa. Foi-lhe dado o Pão partido e abençoado. E os seus olhos abriram-se (Lc 24, 13-35).

 

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