Uma exposição imaginada

| 13 Abr 2022

Foto de exposição imaginada. Foto © Francisca Gigante.

“Uma montanha, a lembrar o Evereste, de almofadas brancas.” Foto © Francisca Gigante.

 

Abrimos às seis da tarde com mais ou menos cinco ou dez minutos de atraso, já que a antecedência não costuma ser usual neste tipo de eventos. A antecipação da inauguração para esta tarde foi pensada com a expectativa de entrar na galeria e descobrir novos livros nas estantes da livraria, a poucos passos da entrada. Lá fora caem pingos de chuva, já não tão carregados pelos tempos de Primavera que começa a despontar.

Apresenta-se a obra Mi cama era un océano, un cielo, un bosque y la noche, de Mikha-ez, artista espanhol a viver em Gijón: uma montanha, a lembrar o Evereste, de almofadas brancas. Aproximamo-nos desta cama imaginária com escritos em cada uma das fronhas. Recordamos os momentos de criança de Enrique Vila-Matas, Gabriela Giménez de La Riva e Ernesto Neto. Mas também momentos de criança de outras personalidades, agentes culturais, curadores e referências no mundo da arte que passamos a conhecer tão intimamente. Damos voltas pelos seus sonhos, rebolamos nos pensamentos e refletimos sobre o papel da cama na infância como uma espécie de limiar ativado pela fantasia que nos transporta para um outro mundo. É um jogo que se ativa com a memória e é fantasia pura, daquela que existe nas festas de aniversário dos mais pequenos.

Os nossos olhos recaem sobre a simplicidade nas doze obras da série Invisible Drawings de Carolina Serrano, artista portuguesa a viver em Colónia, na Alemanha. As doze esculturas em parafina tingida de preto revelam – como se de um segredo se tratasse – desenhos nítidos de formas ardentes. Voltamos dois passos para trás para poder olhar de novo, memorizamos as dimensões que vão variando, os sinais que nos fazem estas formas tão familiares. A luz incide sobretudo nas fissuras, algo que a artista explora. Relembramos a dualidade entre interior e exterior e entre espaço cheio e vazio. Os lugares restritos lembram-nos as portas fechadas no interior da casa dos pais, dos armários que se cerravam, do escuro quando as lâmpadas se apagavam. E dos momentos em que as luzes apagadas deixaram de nos assustar.

Há formas, como o círculo, que convocam um espaço de recreio, brincando ao “pescador deitou a rede ao mar”, à “apanhada”, à “mamã dá licença, quantos passos”. Vemos de frente doze telas que compõem a obra Hold your hands and dance in circles de Madalena Corrêa Mendes, artista portuguesa a viver em Veneza. As telas quadradas em linho mostram fios de algodão saídos de cor vermelha, preta, bege, e tinta acrílica. Subtilmente testemunham um encadeamento de mãos em abraço. Sem ordem aparente a olho nu, o entrelaçar do gesto de dar as mãos, às vezes em duo, muitas vezes em grupo, lida com as suturas que cosem pessoas. Duas pessoas, três pessoas, quatro pessoas, cinco pessoas – as pessoas da artista.

A acompanhar este andamento, do lado direito da sala que alberga a exposição, encontramos pequenos pedaços de poesia da obra Se Ícaro Voasse de Noite, de José Bernardo da Fonseca, autor português nascido em Lisboa com traços da Covilhã. “Escutem almofadas / E não se vão embora / Que já não posso com as pedradas / Sem vós já fui a água de uma picota ou de uma nora / De noite ou pela aurora / Condenado pela demora / A saltar, rodar e regar tudo que me rodeava” (P. 35, 2018) Um encadeamento que vive sobre a imagética do voo da mítica figura de Ícaro. Não sonhamos todos poder voar como pássaros? Recordamos a sensação de tocar na cera das velas de casa, nos dias em que havia festa, de apagar chamas com um dedinho só. E de poder revisitar os desejos de meninos de voar próximo das estrelas.

Continuando com o caminho literário, encontramos o conto em tríptico Épico Jazzístico dos Sonhos Perdidos, do autor português nascido na Batalha, atualmente em Lisboa, Francisco Teles da Gama. Vem dar um fôlego a esta pausa, como se de uma pequena fonte ao meio do recreio se tratasse. A forma graciosa como o autor retrata a vida noturna artística no centro de Lisboa revela o imaginário literário do autor. Lemos: “Alcancei a Basílica da Estrela, quando ouvi o som dos sinos a repique, numa musicalidade tão familiar. A meia-noite havia chegado e convidou-me a sentar nos degraus do templo” (2020). Criando uma relação especial, espiritual – atrevemo-nos a constatar – consigo mesmo e com estoutro que se revela e as vozes de autores-exemplo que ousaram sonhar.

A subtil obra Localização – Casa sem porta de Maria Luísa Ramires ou Zizi, como a conhecemos, que começa os seus passos em Coimbra e cedo é reconhecida nas ruas de Lisboa, revela um pedaço de têxtil bege com a forma de uma casa em serigrafia. Dá-se o nome de quadricromia à técnica utilizada pela artista para albergar esta habitação no algodão. Esta é uma morada com localizações da artista, que podemos associar aos tempos íntimos de introspeção ou de constante algazarra entre amigos e família, onde a porta não está sempre aberta ou fechada; onde a porta não existe; onde a porta é invisível.

Um livro em tamanho A3 está também exposto para consulta dos visitantes. Trata-se de um livro infantil dos anos 1990, Ver por Dentro – As Casas, onde é possível abrir as portas e janelas de cada uma das divisões de casas holandesas, castelos medievais ou armários japoneses. É um livro gasto pelo tempo, gasto pelas horas a fio que se transformaram em autêntica magia. Gastemos também tempo a visitar memórias de criança, dos tempos felizes ao encontro de amigos, das gargalhadas e brincadeiras, para que nos possamos aproximar um pouco mais daqueles que têm tanto a dar a este mundo, daqueles que acreditam que o podem transformar.

 

Nota importante: Esta é uma exposição imaginada, que poderá ou não tornar-se real e concretizada pela curadora com as obras dos artistas descritos de acordo com as circunstâncias do ano presente (2022).

 

Francisca Gigante é fundadora da FITA – Friends In The Arts e doutoranda em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa. Trabalha entre Veneza e Lisboa em instituições culturais sem fins lucrativos. Contacto: franciscagigante@gmail.com.

 

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