Para ver em Coimbra

Uma exposição que é prova do poder dos Museus

| 10 Jun 2022

exposicao museu machado de castro resgatar a ordem foto arlindo homem

O que podemos observar na sala de exposições temporárias do MNMC é fruto do resgate de 70 peças (escultura e pintura), realizado nas próprias reservas do Museu. Foto © Arlindo Homem, cedida pelo autor.

 

A exposição Resgatar a Ordemiconografias [s]em reserva[s], patente no Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC), em Coimbra, até ao próximo dia 19, é motivo mais do que suficiente para uma visita àquele espaço museológico e à cidade do Mondego, num destes dois fins de semana, ainda por cima prolongados.

Desde logo, o título carrega um programa ancorado nas “funções fundamentais dos museus”[1], como sejam a preservação do património, a investigação/estudo dos acervos, a comunicação (interpretação e disseminação ativa do conhecimento sobre as coleções) e a educação.

O que podemos observar na sala de exposições temporárias do MNMC é fruto do resgate de 70 peças (escultura e pintura), realizado nas próprias reservas do Museu; o tratamento de conservação preventiva restituiu às peças a clareza que permite o novo olhar que a exposição nos traz.

O rigoroso estudo a que foram submetidas, depois, daria relevo aos processos de incorporação que estiveram na génese da constituição de muitos dos museus em Portugal, há cerca de 100 anos. Em declarações à TSF, Sandra Costa Saldanha (comissária científica; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), afirma que a investigação realizada “permitiu identificar temáticas (algumas que nem eram conhecidas), cruzar estes objetos com os seus locais de origem, compreender programas iconográficos, devolver novo sentido a estas peças que pairavam nas reservas do Museu”[2]; a este propósito, no mesmo programa, também Maria de Lurdes Craveiro (diretora do MNMC), havia de referir que, se até aqui muitas destas peças se encontravam nas reservas do museu, inertes e descontextualizadas, agora o referido estudo devolveu a muitas delas a inteligibilidade possível: conhecendo-lhes a proveniência, passamos a compreender bastante melhor cada uma das peças[3]. Sabemos, hoje, que este conjunto de peças provém de diversas instituições religiosas (conventos, mosteiros, igrejas,…) da cidade e região de Coimbra, daí resultando a variedade temática, de programas catequéticos e as diferenças plásticas que as peças apresentam.

Dos trabalhos que aqui mostramos, sublinho as duas representações de “Maria Madalena”, cada uma retratando o aspeto da vida da santa que mais importa a quem a encomendou e/ou a fez (a penitente, num caso; a mulher serena e feliz por se sentir redimida, no outro)[4], a surpresa de “O regresso do Egipto”, as belas quanto enigmáticas tábuas representando “Santa Bárbara”, “São Bartolomeu” e “Santa Catarina” (de que se desconhecem, ainda, a proveniência e a função, não permitindo uma clara leitura das obras), o “São João Batista” de proveniência (ainda) desconhecida, o incrédulo “São Tomé” e a “Coroação da Virgem”, trabalho atribuído a Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão (a quem se atribui, também, uma “Maria Madalena” eremita).

A exposição que daí resultou adaptou-se de forma interessante ao espaço preexistente da sala, organizando-se em quatro núcleos: 1. Ordens Religiosas – agentes de renovação; 2. Santos e Heróis – modelos de vida cristã; 3. Maria – a exaltação divina da Mãe de Deus; 4. Cristo – a natureza humana do Redentor.

Para mais, e voltamos às palavras de Maria de Lurdes Craveiro, todo este processo desencadeou uma série de ações que estão ainda em curso[5] e que se prolongarão no tempo, acrescentarei: trata-se, nomeadamente, da campanha de restauro que foi montada de modo a acudir a 14 destas obras (sendo uma delas uma “Sagrada Família”), todas de escultura, com o apoio da Liga de Amigos do Museu Nacional de Machado de Castro, seguindo um modelo já utilizado noutras instituições museológicas (e, provavelmente, não tão utilizado quanto poderia); em desdobrável próprio, retrata-se, ainda que sumariamente, o estado de conservação destas 14 obras, indicando-se o valor do respetivo restauro e aceitando todas as contribuições. Poderá obter todas as informações sobre esta campanha clicando aqui.

exposicao museu machado de castro resgatar a ordem foto Sandra Costa Saldanha, cedida pela autora

Pormenores de algumas das peças que podem ser vistas nesta exposição. Fotos © Sandra Costa Saldanha, cedidas pela autora.

 

Do meu ponto de vista, fará falta o catálogo desta mostra para uma resposta mais cabal à função da “comunicação”, que com a “preservação do património” e a “investigação/estudo dos acervos” (três das quatro “funções fundamentais dos museus” acima referidas), me parecem estar já bem evidenciadas.

Resta-me falar do último: a educação. “Os museus atuam na educação formal e informal e na aprendizagem ao longo da vida, através do desenvolvimento e da transmissão do conhecimento, de programas educativos e pedagógicos, em parceria com outras instituições, especialmente as escolas. Os programas educativos nos museus contribuem fundamentalmente para educar os diversos públicos acerca dos temas das suas coleções e sobre a cidadania, bem como ajudam a consciencializar sobre a importância de se preservar o património e impulsionam a criatividade.”[6] Se as visitas guiadas à exposição são, já, uma estratégia comummente utilizada, as pequenas fichas de cada uma das 70 peças, publicadas ou a publicar na página de Facebook do MNMC (como as que se podem ver acima, relativas às peças que destaco), parecem-me um instrumento simples, eficaz e guardável que Comissária e equipa do Museu prepararam, numa linguagem acessível a todos os públicos.

Se, como afirmava, a exposição Resgatar a Ordemiconografias [s]em reserva[s] está ancorada nas “funções fundamentais dos museus”, ela sublinhou de modo bem evidente, a meu ver, a reflexão que este ano nos foi proposta para as comemorações do Dia Internacional dos Museus, celebrado sempre a 18 de maio: O Poder dos Museus – Reciclar o Passado. O Museu Nacional de Machado de Castro usou esse poder e convida-nos a saborear o resultado até 19 de junho.

 

Notas
[1] UNESCO. Recomendação relativa à proteção e promoção dos museus e das coleções, da sua diversidade e do seu papel na sociedade. Paris, 20 de novembro de 2015. (tradução não oficial da Recomendação da UNESCO, realizada pelo Instituto Brasileiro de Museus e revista pelo ICOM Portugal.) consultado em linha a 6 de junho de 2022, em https://icom-portugal.org/multimedia/documentos/UNESCO_PMC.pdf
[2] Encontros com o PatrimónioResgatar a Ordem (conduzido por Manuel Vilas-Boas), 22 de maio de 2022; pode ouvir-se o programa em https://www.tsf.pt/programa/encontros-com-o-patrimonio.html
[3] idem
[4] «Esta exposição assenta em dois objetivos fundamentais: a transparência das ações de conservação preventiva que ocorrem nos acervos de pintura e escultura […] que se encontram nas reservas do MNMC; o investimento numa abordagem que identifica as proveniências das peças (revertendo o sentido de aceitação quanto à fórmula “proveniência desconhecida”), dá outro enquadramento cultural e artístico e, ao mesmo tempo, confere outra inteligibilidade às opções iconográficas das ordens religiosas.». Comissária Sandra Costa Saldanha (sublinhado meu): texto publicado em linha em http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/agenda/exhibitions/resgatar-ordem-iconografias-sem-reservas, consultado a 6 de junho de 2022.
[5] idem
[6] UNESCO. Recomendação relativa à proteção e promoção dos museus e das coleções, da sua diversidade e do seu papel na sociedade. (supra cit.)

 

Resgatar a Ordemiconografias [s]em reserva[s]

Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra
De terça a domingo, das 10h00 às 18h00
Até 19 de Junho

 

Silêncio: a luz adentra no corpo

Pré-publicação 7M

Silêncio: a luz adentra no corpo novidade

A linguagem não é só palavra, é também gesto, silêncio, ritmo, movimento. Uma maior atenção a estas realidades manifesta uma maior consciência na resposta e, na liturgia, uma qualidade na participação: positiva, plena, ativa e piedosa. Esta é uma das ideias do livro Mistagogia Poética do Silêncio na Liturgia, de Rafael Gonçalves. Pré-publicação do prefácio.

pode o desejo

pode o desejo novidade

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo I do Advento A. Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Novembro de 2022.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Manhã desta quinta-feira, 24

“As piores formas de trabalho infantil” em conferência

Uma conferência sobre “As piores formas de trabalho infantil” decorre na manhã desta quinta-feira, 24 de Novembro (entre as 9h30-13h), no auditório da Polícia Judiciária (Rua Gomes Freire 174, na zona das Picoas, em Lisboa), podendo assistir-se também por videoconferência. Iniciativa da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil (CNASTI), em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), a conferência pretende “ter uma noção do que acontece não só em Portugal, mas também no mundo acerca deste tipo de exploração de crianças”.

Porque não somos insignificantes neste universo infinito

Porque não somos insignificantes neste universo infinito novidade

Muitas pessoas, entre as quais renomados cientistas, assumem frequentemente que o ser humano é um ser bastante insignificante, senão mesmo desprezível, no contexto da infinitude do universo. Baseiam-se sobretudo na nossa extrema pequenez relativa, considerando que o nosso pequeno planeta não passa de um “ponto azul” situado num vasto sistema solar.

Mais do que A Voz da Fátima

Pré-publicação

Mais do que A Voz da Fátima

Que fosse pedido a um incréu um texto de prefácio para um livro sobre A Voz da Fátima, criou-me alguma perplexidade e, ao mesmo tempo, uma vontade imediata de aceitar. Ainda bem, porque o livro tem imenso mérito do ponto de vista histórico, com o conjunto de estudos que contém sobre o jornal centenário, mas também sobre o impacto na sociedade portuguesa e na Igreja, das aparições e da constituição de Fátima e do seu Santuário como o centro religioso mais importante de Portugal. Dizer isto basta para se perceber que não é possível entender, no sentido weberiano, Portugal sem Fátima e, consequentemente, sem o seu jornal.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This