
“A escrita de Esther Mucznic remete-nos ainda para o conceito de obra aberta de Eco já que contém em si a possibilidade de se abrir a múltiplas interpretações e leituras, recusando a ideia de que existe apenas uma definitiva e verdadeira.” Foto: Esther Mucznik. DR
“Trago assim em mim, esculpida desde a infância, uma espécie de estátua interior que dá continuidade à minha vida e que é a parte mais íntima, o núcleo duro do meu carácter. Essa estátua, toda a vida a modelei. Nunca parei de lhe dar retoques. Aperfeiçoei-a. Poli-a (…)”
Este texto de François Jacob citado na pág. 206 de Uma Família Judaica, para além da beleza das palavras, ilumina a leitura deste livro que nos interroga sobre o lugar em que nos situamos e ao mesmo tempo nos emociona e nos faz refletir sobre como desconhecemos o Outro.
O que é ser judeu e pertencer a uma comunidade cuja história arrasta consigo um enorme sofrimento e a capacidade quase inhumana de resistência; o papel da família na nossa vida e a necessidade de conhecer a sua história; a escrita como partilha e a importância da memória.
Com uma escrita luminosa e ao mesmo tempo serena, a Esther torna nossa a sua própria família e com ela a sua e a nossa história. Leva-nos na sua viagem na procura do caminho que há de seguir e torna-nos participantes em alguns dos grandes acontecimentos do século XX.
Ao ler este livro reli também o livro de Eclesiastes, onde se diz “para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu…” e refleti sobre o momento em que leio a história da família judaica. A diáspora, a partida, a separação são palavras familiares hoje – e permitam-me que cite Eduardo Prado Coelho: “Talvez nada haja de mais agudamente doloroso do que o sentimento que por vezes nos assalta de que aquilo que acontece apenas acontece porque não podia deixar de acontecer, segundo uma regra cuja inexorabilidade escapa à nossa capacidade de entendermos: essa é a experiência do irreversível em que nenhum mal, ou defeito, existe nas coisas senão a evidência impiedosa de elas serem assim.”
A escrita de Esther Mucznic remete-nos ainda para o conceito de obra aberta de Eco já que contém em si a possibilidade de se abrir a múltiplas interpretações e leituras, recusando a ideia de que existe apenas uma definitiva e verdadeira.
No entanto esta é a sua verdade e devemos agradecer a generosidade da partilha que nos ensina que em cada história de vida se tece um pouco da nossa própria história. Poderemos afirmar que existe um devir comum? Talvez… a família, os que nos são próximos ainda que estejamos noutro lado do mundo, são as estacas em que nos apoiamos quando vacilamos.
A liberdade de escolha, a independência, são valores ou conceitos que muito cedo e não sem sofrimento a Esther aprende.
Tem apenas 16 anos quando toma a decisão de partir de Israel e talvez, ainda sem ter disso consciência plena, viver em Portugal, na solidão da vida escolhida, pois como afirma: “Muito cedo percebi que não ficaria a viver no país [Israel].”
Esta escolha vai também determinar a sua vida, errante, plena de experiências e reconhecendo a diferença, a sua diferença. Talvez seja esse saber que a empurra para a atividade política e, mais tarde, na forma como se afirma judia e como pretende mostrar a Comunidade a que pertence a todos e cada um de nós.
Temos a agradecer-lhe o papel fundamental na criação da MemoShoa, que tem feito um trabalho sério no ensino e divulgação da memória do Holocausto, na Comissão que apreciou pedidos de nacionalidade de judeus sefarditas e no projeto de criação de um museu judaico que nos ensinará o que é ser judeu, em que acreditam e como vivem; pois, como nos ensina Derrida, o olhar informado é aquele que é capaz de discernir no que vê, a sua própria existência.
Não posso deixar de sublinhar que neste livro perpassa em cada uma das palavras o amor. Amor pela família, pelas filhas e netos e pelos amigos. A ternura perpassa na forma como descreve cada um deles, e ao lê-la recordei a epístola de S. Paulo aos Coríntios: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tivesse caridade, seria como metal que soa ou como o címbalo que tine.”
Este livro ensinou-me muito e conheci um pouco da pessoa que é Esther Mucznik. O convite para estar aqui comoveu-me, assustou-me e desafiou-me a perceber o que não sabia.
Termino com um poema de Ezra Pound, que lhe poderia ser dedicado:
O que tu amas verdadeiramente permanece.
O resto é apenas lixo.
O que tu amas verdadeiramente nunca te será roubado.
O que tu amas verdadeiramente é a tua verdadeira herança.
Margarida Lages é diretora do Arquivo Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros










