A propósito da apresentação do livro Padres do Deserto – Palavras do Silêncio (ed. UCEditora), que decorre na Universidade Católica, em Lisboa, nesta terça-feira, dia 9, às 18h30, o seu autor, frei Isidro Lamelas, escreve no 7MARGENS sobre o cristianismo como uma fé nas margens, evocando os místicos e eremitas cristãos dos primeiros séculos da história cristã.  

 

O cristianismo é uma fé de fronteira que condiz melhor com as periferias do que com os centros urbanos. Nasceu na periferia e não na capital do império nem em nenhuma outra metrópole candidata a “umbigo do mundo” – na Palestina, terra periférica, tanto no plano político, como económico e cultural. A importância da terra de Jesus e dos Apóstolos era, no contexto do grande império romano, insignificante. Geograficamente demarcada por desertos, a Palestina é, ela própria, uma fronteira natural e terra de trânsito desprezada pelos centros de poder do Império.

Também no contexto do judaísmo, uma religião forte e espalhada por todas as grandes cidades do Império, a fé nascida de Jesus era um “grão de mostarda” insignificante. Jesus de Nazaré e os seus discípulos eram membros de um povo dominado e explorado pela máquina colonial e militar romana, que sonhavam, a partir desta realidade, um mundo e sociedade bem diferentes da que predominava em todo o Império. Por isso mesmo, a mensagem que a partir de Jesus foi proclamada apareceu como séria ameaça para a cidade e o status quo político e social.

Por isso o cristianismo nunca se identificou nem com a polis/civitas nem com qualquer populus, raça ou cultura; mesmo quando reutiliza as mesmas designações das instituições politicas, a mundividência é outra: a ekklesia cristã, por exemplo, embora assumindo o nome da velha ekklesia greco-romana, nunca se identificou com o seu modelo político:

«Os cristãos moram em sua pátria, mas como estrangeiros residentes (p£roikoi).

Participam de todos os deveres, Como cidadãos (pol‹tai),

e tudo suportam como estrangeiros (xšnoi).

Toda a terra é para eles uma pátria e toda a pátria é terra estrangeira» (A Diogneto V).

Um leigo do século II, de nome Hermas, descreve nestes termos a cidadania paradoxal de que fala o anónimo A Diogneto:

«Vós os [cristãos] sabeis que habitais em terra estrangeira, pois a vossa cidade está muito longe desta. Se, por conseguinte, tendes conhecimento da vossa cidade em que ides habitar, porque preparais aqui campos, grandes prédios, edifícios e habitações supérfluas? Realmente quem prepara estas coisas nesta cidade, não espera voltar à sua cidade. Ó homem insensato, cético e miserável! Não vês que todas estas coisas são de país estranho e propriedade de outrem? […] Considera que, habitando em terra estrangeira, nada mais prepares para ti, senão quanto te baste e prepara-te, para que, quando o Senhor desta cidade te quiser expulsar, por não cumprires a sua lei, saias da sua cidade e te dirijas à tua e, com alegria e sem afronta, cumpras a tua lei.» (Hermas,O Pastor, 50)

Esta “distância” voluntária da cidade habitada e governada pelos poderes mundanos; esta separação das águas em que tudo se joga precisamente na linha do confim, sofreu o primeiro grande revés com a “conversão” de Constantino (312). E, não por acaso, é precisamente neste momento revolucionário e crítico da história da Igreja que emerge com toda a força a experiência monástica no seio do cristianismo. De novo Jesus diante de Pilatos, um “Pilatos” que, entretanto, ganhou lugar no Credo católico.

A proposta de Jesus, a que desde cedo se chamou cristianismo, veio da fronteira e é ela mesma uma mensagem de fronteira: na sua crítica social, política e religiosa. Não admira, por isso, que o “lugar” de onde partiu a mensagem deva ser revisitado constantemente. Não espanta, por isso, o lugar que teve o deserto e continua a ter na espiritualidade cristã. Não porque o deserto seja o lugar ideal ou alternativo à cidade, mas porque o Evangelho de Cristo é a verdadeira alternativa.

Santo Antão, pai do monaquismo, chegou a ser repreendido pelo demónio porque, com a sua presença no deserto, ameaçava transformar este em cidade (Vita Antonii, 8,1). Esta é, de facto, a finalidade dos que se retiram para o deserto: transformar toda a terra desabitada em “cidade de Deus”. Porque onde houver homens de Deus, acontece a cidade, a verdadeira sociedade.

As Tentações de Santo Antão (1495-1500), de Hieronymus Bosch, pintura no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa: “Santo Antão, pai do monaquismo, chegou a ser repreendido pelo demónio porque, com a sua presença no deserto, ameaçava transformar este em cidade.”

 
“O princípio de todos os males é a desatenção”

É neste contexto que se entende a fuga mundi proposta pelos “Pais do deserto”:

O Pai Poemen disse ainda:

“A primeira vez, foge; a segunda, foge; a terceira, torna-te uma espada”. (CA, Poemen 140).

No mundo dos homens que tendem a levar demasiado a sério seus planos e “projetos urbanos”, o monge aparece como um aviso profético que aconselha ao distanciamento e a não levar demasiado a sério senão o que é realmente sério: 

Um ancião disse:

“Ou foges realmente dos homens ou, então, faz-te louco, jogando com os homens e com o mundo”. (Guy VIII,31; SC 387, 421. 420).

O pai Or disse:

“Ou foges dos homens ou, então, faz dos homens e do mundo um jogo, fazendo-te passar por louco em muitas coisas”. (CA, Or 14).

Mas, atenção, porque não é o deserto que faz o monge, como bem sabem estes mestres do discernimento e da atenção a si:

O pai Poemen dizia:

“O princípio de todos os males é a desatenção” (Guy II,24; SC 387, 138).

A mãe Sinclética disse:

“Há muitos que vivem no deserto, mas comportam-se como se estivessem na cidade; eles estão a perder o seu tempo. É possível estar a sós na própria mente, mesmo no meio de uma multidão e é possível que um solitário viva entre a multidão de seus próprios pensamentos”. (Guy II,27; SC 387, 138).

A solitudo do deserto não é, por isso, um fim em si mesmo, mas um caminho para a universitas, bem representada pela Igreja sem fronteiras.

“O monge é aquele que está separado de todos e unido a todos. É monge aquele que se considera um com todos, pois tem o hábito de se ver em todos”. (Evágrio, Pequena Filocalia, 124-125).

O deserto torna-se assim condição de hospitalidade e de relações sanadas:

A madre Sara disse:

“Se eu rezar a Deus para que todos estejam contentes comigo, acabarei a fazer penitência à porta de cada um deles. Rezarei antes para que o meu coração seja puro com todos”.(Guy X, 108; SC 474, 86).

É um caminho de sabedoria, também ele quase sempre “marginal” quando os humanos andam demasiados “distraídos” com os “negócios da vida”. Os monges chamavam o seu modo de vida como “filosofia” “amor da sabedoria”, sem mais:

Conta-se que uns filósofos quiseram, um dia, pôr os monges à prova. Perguntaram-lhes:

“Afinal, que fazeis a mais do que nós neste deserto? Vós jejuais, nós também; vós sois continentes, nós também. O que vós fazeis, também nós o fazemos. Que fazeis, pois, a mais, vós que viveis no deserto?”

O ancião respondeu-lhes:

“Esperamos na graça de Deus e vigiamos sobre nós.” (Guy XVI,25; SC 747, 408).

Artigos relacionados

Primeira missa depois do incêndio em Notre-Dame é neste sábado; 7M disponibiliza ligação em vídeo

Primeira missa depois do incêndio em Notre-Dame é neste sábado; 7M disponibiliza ligação em vídeo

Dois meses depois de ter sido muito danificada por um incêndio, a catedral de notre-Dame de Paris abrirá de novo as suas portas este sábado e domingo, para a celebração da missa, informou a diocese de Paris em comunicado. “A primeira missa em Notre-Dame será celebrada no fim-de-semana de 15 e 16 de Junho”, lê-se no texto. A celebração de sábado tem lugar às 17h de Lisboa. 

Apoie o 7 Margens

Breves

Portugal é o terceiro país mais pacífico do Mundo

O Índice Global de Paz de 2019, apresentado em Londres, considera Portugal o terceiro país mais pacifico em todo o Mundo, subindo do quarto lugar em que estava classificado no ano transacto e ficando apenas atrás da Islândia e da Nova Zelândia.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

Nas margens da filosofia – Um Deus que nos desafia

No passado dia 11 de Maio, o 7MARGENS publicou uma entrevista de António Marujo ao cardeal Gianfranco Ravasi. A esta conversa foi dado o título “O problema não é saber se Deus existe: é saber qual Deus”. É um tema que vem de longe e que particularmente nos interpela, não tanto num contexto teológico/metafísico quanto no plano da própria acção humana.

Migração e misericórdia

O 7MARGENS publicou, já lá vão algumas semanas, uma notícia com declarações do cardeal Robert Sarah, que considerava demasiado abstracto e já cansativo o discurso de Francisco sobre estes temas. Várias pessoas, entre muitos apoiantes do Papa, têm levantado a mesma questão. E porque Francisco é exemplo de quem procura sem medo a verdade e tem o dom do diálogo estruturante, devem ser os amigos e apoiantes a escutá-lo criticamente.

A Teologia mata?

A pergunta parecerá eventualmente exagerada mas não deixa de ser pertinente. O que mais não falta por esse desvairado mundo é quem ande a matar o próximo em nome da sua crença religiosa.

Cultura e artes

Frei Agostinho da Cruz, um poeta da liberdade em tempos de Inquisição

“Poeta da liberdade”, que “obriga a pensar o que somos”, viveu em tempos de Inquisição, quando as pessoas com uma visão demasiado autónoma “não eram muito bem vistas”. Uma Antologia Poética de frei Agostinho da Cruz, que morreu há 400 anos, será apresentada esta sexta, 14 de Junho, numa sessão em que Teresa Salgueiro interpretará músicas com poemas do frade arrábido.

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

"Correio a Nossa Senhora" - espólio guardado no Santuário começou a ser agora disponibilizado aos investigadores

Agenda

Jun
18
Ter
Debate sobre “Mulheres, Igreja e Jornalismo”, com Fausta Speranza @ Instituto Italiano de Cultura
Jun 18@18:30_20:00

Fausta Esperanza é jornalista, da redação internacional do L’Osservatore Roman, jornal oficial da Santa Sé; a moderação do debate é de Lurdes Ferreira; a sessão terá tradução simultânea em italiano e português.

Ver todas as datas

Fale connosco