Uma fé nas margens

| 8 Abr 19

A propósito da apresentação do livro Padres do Deserto – Palavras do Silêncio (ed. UCEditora), que decorre na Universidade Católica, em Lisboa, nesta terça-feira, dia 9, às 18h30, o seu autor, frei Isidro Lamelas, escreve no 7MARGENS sobre o cristianismo como uma fé nas margens, evocando os místicos e eremitas cristãos dos primeiros séculos da história cristã.  

 

O cristianismo é uma fé de fronteira que condiz melhor com as periferias do que com os centros urbanos. Nasceu na periferia e não na capital do império nem em nenhuma outra metrópole candidata a “umbigo do mundo” – na Palestina, terra periférica, tanto no plano político, como económico e cultural. A importância da terra de Jesus e dos Apóstolos era, no contexto do grande império romano, insignificante. Geograficamente demarcada por desertos, a Palestina é, ela própria, uma fronteira natural e terra de trânsito desprezada pelos centros de poder do Império.

Também no contexto do judaísmo, uma religião forte e espalhada por todas as grandes cidades do Império, a fé nascida de Jesus era um “grão de mostarda” insignificante. Jesus de Nazaré e os seus discípulos eram membros de um povo dominado e explorado pela máquina colonial e militar romana, que sonhavam, a partir desta realidade, um mundo e sociedade bem diferentes da que predominava em todo o Império. Por isso mesmo, a mensagem que a partir de Jesus foi proclamada apareceu como séria ameaça para a cidade e o status quo político e social.

Por isso o cristianismo nunca se identificou nem com a polis/civitas nem com qualquer populus, raça ou cultura; mesmo quando reutiliza as mesmas designações das instituições politicas, a mundividência é outra: a ekklesia cristã, por exemplo, embora assumindo o nome da velha ekklesia greco-romana, nunca se identificou com o seu modelo político:

«Os cristãos moram em sua pátria, mas como estrangeiros residentes (p£roikoi).

Participam de todos os deveres, Como cidadãos (pol‹tai),

e tudo suportam como estrangeiros (xšnoi).

Toda a terra é para eles uma pátria e toda a pátria é terra estrangeira» (A Diogneto V).

Um leigo do século II, de nome Hermas, descreve nestes termos a cidadania paradoxal de que fala o anónimo A Diogneto:

«Vós os [cristãos] sabeis que habitais em terra estrangeira, pois a vossa cidade está muito longe desta. Se, por conseguinte, tendes conhecimento da vossa cidade em que ides habitar, porque preparais aqui campos, grandes prédios, edifícios e habitações supérfluas? Realmente quem prepara estas coisas nesta cidade, não espera voltar à sua cidade. Ó homem insensato, cético e miserável! Não vês que todas estas coisas são de país estranho e propriedade de outrem? […] Considera que, habitando em terra estrangeira, nada mais prepares para ti, senão quanto te baste e prepara-te, para que, quando o Senhor desta cidade te quiser expulsar, por não cumprires a sua lei, saias da sua cidade e te dirijas à tua e, com alegria e sem afronta, cumpras a tua lei.» (Hermas,O Pastor, 50)

Esta “distância” voluntária da cidade habitada e governada pelos poderes mundanos; esta separação das águas em que tudo se joga precisamente na linha do confim, sofreu o primeiro grande revés com a “conversão” de Constantino (312). E, não por acaso, é precisamente neste momento revolucionário e crítico da história da Igreja que emerge com toda a força a experiência monástica no seio do cristianismo. De novo Jesus diante de Pilatos, um “Pilatos” que, entretanto, ganhou lugar no Credo católico.

A proposta de Jesus, a que desde cedo se chamou cristianismo, veio da fronteira e é ela mesma uma mensagem de fronteira: na sua crítica social, política e religiosa. Não admira, por isso, que o “lugar” de onde partiu a mensagem deva ser revisitado constantemente. Não espanta, por isso, o lugar que teve o deserto e continua a ter na espiritualidade cristã. Não porque o deserto seja o lugar ideal ou alternativo à cidade, mas porque o Evangelho de Cristo é a verdadeira alternativa.

Santo Antão, pai do monaquismo, chegou a ser repreendido pelo demónio porque, com a sua presença no deserto, ameaçava transformar este em cidade (Vita Antonii, 8,1). Esta é, de facto, a finalidade dos que se retiram para o deserto: transformar toda a terra desabitada em “cidade de Deus”. Porque onde houver homens de Deus, acontece a cidade, a verdadeira sociedade.

As Tentações de Santo Antão (1495-1500), de Hieronymus Bosch, pintura no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa: “Santo Antão, pai do monaquismo, chegou a ser repreendido pelo demónio porque, com a sua presença no deserto, ameaçava transformar este em cidade.”

 
“O princípio de todos os males é a desatenção”

É neste contexto que se entende a fuga mundi proposta pelos “Pais do deserto”:

O Pai Poemen disse ainda:

“A primeira vez, foge; a segunda, foge; a terceira, torna-te uma espada”. (CA, Poemen 140).

No mundo dos homens que tendem a levar demasiado a sério seus planos e “projetos urbanos”, o monge aparece como um aviso profético que aconselha ao distanciamento e a não levar demasiado a sério senão o que é realmente sério: 

Um ancião disse:

“Ou foges realmente dos homens ou, então, faz-te louco, jogando com os homens e com o mundo”. (Guy VIII,31; SC 387, 421. 420).

O pai Or disse:

“Ou foges dos homens ou, então, faz dos homens e do mundo um jogo, fazendo-te passar por louco em muitas coisas”. (CA, Or 14).

Mas, atenção, porque não é o deserto que faz o monge, como bem sabem estes mestres do discernimento e da atenção a si:

O pai Poemen dizia:

“O princípio de todos os males é a desatenção” (Guy II,24; SC 387, 138).

A mãe Sinclética disse:

“Há muitos que vivem no deserto, mas comportam-se como se estivessem na cidade; eles estão a perder o seu tempo. É possível estar a sós na própria mente, mesmo no meio de uma multidão e é possível que um solitário viva entre a multidão de seus próprios pensamentos”. (Guy II,27; SC 387, 138).

A solitudo do deserto não é, por isso, um fim em si mesmo, mas um caminho para a universitas, bem representada pela Igreja sem fronteiras.

“O monge é aquele que está separado de todos e unido a todos. É monge aquele que se considera um com todos, pois tem o hábito de se ver em todos”. (Evágrio, Pequena Filocalia, 124-125).

O deserto torna-se assim condição de hospitalidade e de relações sanadas:

A madre Sara disse:

“Se eu rezar a Deus para que todos estejam contentes comigo, acabarei a fazer penitência à porta de cada um deles. Rezarei antes para que o meu coração seja puro com todos”.(Guy X, 108; SC 474, 86).

É um caminho de sabedoria, também ele quase sempre “marginal” quando os humanos andam demasiados “distraídos” com os “negócios da vida”. Os monges chamavam o seu modo de vida como “filosofia” “amor da sabedoria”, sem mais:

Conta-se que uns filósofos quiseram, um dia, pôr os monges à prova. Perguntaram-lhes:

“Afinal, que fazeis a mais do que nós neste deserto? Vós jejuais, nós também; vós sois continentes, nós também. O que vós fazeis, também nós o fazemos. Que fazeis, pois, a mais, vós que viveis no deserto?”

O ancião respondeu-lhes:

“Esperamos na graça de Deus e vigiamos sobre nós.” (Guy XVI,25; SC 747, 408).

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