Uma gotinha do Tamisa contra o “Brexit”

29 Mar 19Sete Partidas, Últimas

O padre Tony Neves junto à estátua de Nelson Mandela, em Londres, durante a manifestação contra o Brexit, sábado, dia 23. Foto: Direitos reservados.

Deixei Manchester Picaddilly sexta, 22 de março, ao fim da tarde, naquela hora que aqui vão designando como ‘rush hour’ só para assustar quem tem de se fazer à estrada! Nada de especial e, duas horas depois, já estava a cheirar ares mais quentes deste sul britânico.

Acolheu-me na estação de Euston o padre Daniel Adayi, espiritano nigeriano que é o capelão católico do enormíssimo aeroporto de Heathrow. Já lá iremos! Dali rumámos de ‘underground’ até Hounslow Central, onde os Espiritanos animam um paróquia enorme. Lá me esperavam os padres Augustin (nigeriano) e David Sandambongo, jovem angolano que foi meu aluno no Huambo e que tanto insistiu nesta minha visita à capital britânica.

Sábado, após missa que muito me impressionou (uma igreja enorme à pinha de gente), eu e o padre David fomos fazer aquela visita inicial que se impõe a quem chega a Londres: Abadia de Westminster, Catedral católica, Big Ben, Parlamento, rio Tamisa… não é bem o ‘passeio dos tristes’, mas é a voltinha sem a qual ninguém acredita que estiveste em Londres. Carimbei!

Mas o meu objectivo número um para a visita neste sábado era o de participar na grande e anunciada manifestação contra o Brexit. Quando cheguei junto ao Parlamento já lá estava tudo preparado para as intervenções políticas. Também havia muita gente no local, com dizeres e bandeiras a rondar o tom azul estrelado, como afirmação clara de que não queriam deixar de ser ‘europeus unidos’. A multidão foi-se acumulando, bem como as televisões, todas preparadinhas para directos atrás de directos. Devo confessar que nunca estive em nenhuma manifestação deste tamanho e com tanta civilidade à mistura, até porque também apareceram pessoas a mostrar cartazes a favor do Brexit.

Em suma, fiz um refreshdestes dois meses e meio em Manchester, a ouvir dez vezes ao dia o ‘saio, não saio’ da UE, que as televisões e jornais iam divulgando, sempre com excelentes razões para uma e outra posição assumidas. E, claro, saio de Inglaterra com os ouvidos cheios dos gritos do speakerdo Parlamento: order, order, order!.

As comunidades estrangeiras estão muito preocupadas. Vivi dois meses e meio nas periferias de Manchester, onde a maioria das pessoas da nossa paróquia (Espírito Santo) é de origem estrangeira, sejam africanos, asiáticos ou latino-americanos. Ao chegar a Londres, vivi na Paróquia de S. Miguel e S. Martinho, uma enorme comunidade com mais de quatro mil pessoas a participar nas missas dominicais. Aqui, a maioria dos católicos são de origem indiana (muitos goeses), mas há também outros asiáticos, africanos, latino-americanos e europeus de Leste. As muitas pessoas com quem falei expressaram a angústia do dia seguinte ao Brexit. Têm medo de ser expulsas após o primeiro problema legal que surja, desde a perda de emprego a alguma questão mais de foro jurídico.

Além desta grande paróquia, os Espiritanos asseguram a responsabilidade pastoral do aeroporto de Heathrow onde tive a oportunidade de acompanhar o capelão, celebrar na capela e visitar algumas partes dos cinco grandes terminais. É uma experiência que em Portugal pura e simplesmente não existe, mas ficou-me a convicção de que as pessoas, antes de viajar ou nos intervalos das conexões, podem e devem ser apoiadas espiritualmente. Além de que o aeroporto é uma ‘empresa’ com milhares de funcionários que também podem e devem celebrar a sua fé. E, segundo me confidenciou um dos funcionários presentes na eucaristia, o aeroporto tem milhares de pessoas sempre, dia e noite, e muitas são gente de fé que quer celebrá-la ao domingo.

Saio da Grã-Bretanha sem saber se há Brexitou não. Um confrade meu, escocês, mostrava-se muito agastado com este dossier, pois os escoceses votaram para não sair da UE. Ele está convencido que um eventual Brexitvai levar à independência da Escócia em relação ao Reino Unido. Outro confrade, esse irlandês, estava furioso com o Brexitpois acha que a paz entre as duas Irlandas vai ser posta em xeque com o regresso às velhas e conflituosas fronteiras que foram responsáveis por dezenas e dezenas de mortos num passado não muito antigo.

Esta Grã-Bretanha votou sem perceber o alcance do ‘não’ à UE. Hoje, todos o afirmam, o referendo daria outro resultado. Mas os defensores acérrimos da saída nem quiseram admitir a hipótese de um novo referendo, apelando para a lei que o proíbe. O ‘orgulhosamente sós’ que já fez história noutras terras irá ser favorável aos britânicos?

Tenho muitas dúvidas… mas a história responderá em breve a esta minha pergunta.

Tony Neves é padre católico e responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (espiritanos), de cuja congregação é membro.

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Freira Indiana apela ao Vaticano contra a sua expulsão da ordem

A irmã Lucy Kalappura, da Congregação das Irmãs Clarissas Franciscanas, que protestou contra o bispo Franco Mulakkal devido à suposta acusação de violação de uma freira, apela ao Vaticano que evite a sua expulsão da ordem a que pertence, depois de lhe terem sido instauradas alegadas “ações disciplinares”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

Bicentenário do Báb, “Manifestante de Deus” e fundador da Fé Bahá’í novidade

Uma das particularidades da religião bahá’í é ter na sua origem dois Profetas: o Báb e Bahá’u’lláh. E se na terminologia bahá’í os fundadores das grandes religiões mundiais são referidos como “Manifestantes de Deus” (porque manifestam características divinas), a origem dupla da Fé Bahá’í levou alguns autores a referir os seus fundadores como “Manifestantes Gémeos”.

A crise do capital, uma doença demolidora

Tenho para mim que o problema pode ser mais largo e profundo. Prefiro centrá-lo mais na longa e constante crise da doença destruidora do capitalismo mundial, nas suas mais diversas formas. Um sistema que, verdadeiramente, se encontra doente e não funciona em benefício da maioria da população.

Cultura e artes

Três rostos para a liberdade

De facto, para quem o sabe fazer, o cinema é mesmo uma arte muito simples: basta uma câmara, um ponto de partida e pessoas que se vão cruzando e dialogando. E temos um filme, quase sempre um magnífico filme. Vem isto a propósito do último trabalho do iraniano Jafar Panahi: Três Rostos.

A potência benigna de Dietrich Bonhoeffer

O influente magistério de Dietrich Bonhoeffer, a sua vigorosa resistência ao nazismo e o singular namoro com Maria von Wedemeyer são três momentos da vida do pastor luterano que merecem uma peculiar atenção na biografia Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo, da autoria do historiador italiano Giorgio Cavalleri. A obra, publicada pelas Paulinas em Maio, permite agora que um público mais vasto possa conhecer aquele que é geralmente considerado como um dos mais influentes teólogos do século XX.

Festa de Maria Madalena: um filme para dar lugar às mulheres

A intenção do autor é dar lugar às mulheres. Não restam dúvidas, fazendo uma leitura atenta dos quatro Evangelhos que Jesus lhes dá o primeiro lugar. A elas, anuncia-lhes quem é Ele, verdadeiramente. Companheiras de Cristo, continuarão a sua missão, juntamente com os homens. Anunciando, tal como eles, a Paixão e a Ressurreição de Jesus Cristo; curando, baptizando em nome do Senhor. Tornando-se diáconos. Sabe-se, está escrito. Mas, nos Actos dos Apóstolos, elas desaparecem sem deixar rasto.

Mãos cheias de ouro, um canudo e uma intensa criatividade

Na manhã de 7 de Julho, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) inscreveu o Convento de Mafra, o santuário do Bom Jesus de Braga e o Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, na sua lista de sítios de Património Mundial. Curta viagem escrita e alguns percursos falados, como forma de convite à viagem para conhecer ou redescobrir os três novos lugares portugueses do Património da Humanidade.

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

"Correio a Nossa Senhora" - espólio guardado no Santuário começou a ser agora disponibilizado aos investigadores

Agenda

Parceiros

Fale connosco