[Segunda leitura]

Uma greve de mulheres que fez esgotar as salsichas…

| 26 Nov 2023

“E quando decidiram parar os braços por um dia, querendo chamar as atenções para a situação de desigualdade em que viviam por comparação com os homens, acabaram por obrigar a que estes – os homens – fossem para a cozinha. Sim, que era preciso comer, alimentar a família, dar almoço e jantar às crianças.”  Foto: Biblioteca Nacional e Universitária da Islândia. Arquivos de História das Mulheres.

 

Há perto de 50 anos, num dia do mês de outubro, as salsichas esgotaram em todas as lojas e supermercados da Islândia… Coisa estranha, não? E fica ainda mais estranha quando se sabe o motivo deste bizarro acontecimento: uma greve de mulheres.  Uma greve a TODO o trabalho que lhes competia, fosse o do emprego, fosse o de casa. Sim, que trabalho doméstico também é trabalho. E quando decidiram parar os braços por um dia, querendo chamar as atenções para a situação de desigualdade em que viviam por comparação com os homens, acabaram por obrigar a que estes – os homens – fossem para a cozinha. Sim, que era preciso comer, alimentar a família, dar almoço e jantar às crianças. Vai daí, o que cozinharam praticamente todos eles? A única coisa de que se sentiam capazes: salsichas… E foi assim que as salsichas esgotaram em tudo quanto era loja ou supermercado, de modo a que os homens, por uma vez na vida, conseguissem preparar as refeições para a família. Ou seja, fazer, por uma vez na vida, aquilo que as mulheres faziam, sozinhas, todas as vezes. Todos os dias.

Atenção que isto não foi na pré-história. Foi há perto de 50 anos, mais concretamente no dia 24 de outubro de 1975. E não foi em Portugal, país com muita tradição de mulheres fazendo o trabalho de casa e homens pouco ou nada nesse departamento. Foi na Islândia, de onde costumam chegar-nos boas notícias sobre a situação das mulheres na sociedade. Mas em 1975 era muito assim. E, de facto, será difícil encontrar exemplo mais eloquente da desigual distribuição do trabalho de casa entre mulheres e homens do que a história das salsichas. Salsichas é aquilo que as nossas crianças arranjam quando querem iniciar-se nas artes culinárias. Salsichas é aquilo que os nossos adolescentes cozinham nas primeiras férias em que saem para acampar com amigos. Salsichas é aquilo que consegue cozinhar um homem que nunca cozinhou nada na vida, embora tenha comido em casa todos os dias. Não é difícil: compra-se, abre-se a lata e já está. Quando muito, passa-se por água quente (sabiam?…) ou dá-se uma breve fritura na frigideira. Pode comer-se no prato ou meter-se no pão. Acompanha com batatas fritas. De pacote, como é óbvio!

Esta greve, que mobilizou as islandesas de um modo massivo (estimou-se uma adesão de 90 por cento das mulheres do país!…), teve decerto as suas consequências. Logo cinco anos depois, em 1980, foi eleita para presidente da República uma mulher – mulher divorciada e mãe, de seu nome Vigdis Finnbogadottir. Foi “só” a primeira mulher presidente em toda a Europa. Mais: foi a primeira mulher em todo o mundo a ser eleita democraticamente para chefia do Estado. E ficou no cargo durante 16 anos, contribuindo para que, a pouco e pouco, a Islândia passasse a ser (re)conhecida como “o país mais feminista do mundo” diz o site da BBC.

As coisas não ficaram por aqui. Em 2010, também a chefia do Governo islandês passou para as mãos de uma mulher, chamada Johanna Sigurdardottir. Além do mais, foi a primeira mulher assumidamente “gay” a assumir o cargo de primeira-ministra em todo o mundo. E não foi uma raridade. Em 2017, o Governo voltou a ficar a cargo de uma mulher – Katrín Jakobsdóttir, 41 anos, mãe de três filhos. E hoje, neste ano da graça de 2023, a primeira-ministra da Islândia continua a ser uma mulher – precisamente a mesma Katrín Jakobsdóttir. Já voltaremos a ela.

Também ao nível do Parlamento as coisas mudaram muito desde aquele momento seminal da greve de 1975 – um dia que ficou conhecido como o “Dia de Folga das Mulheres” (“Women’s Day Off”) ou, alternativamente, “A Longa Sexta-feira” (The Long Friday”), uma suave variante de “O Dia Mais Longo” (longo para os homens, presumivelmente…). Em 1975, apenas havia três mulheres no Parlamento islandês, o que correspondia a 5 % dos deputados (eram 63 no total). Hoje, quase 50 anos volvidos, as mulheres com assento no Parlamento são quase metade – 44% do total. E algumas eleitas em listas exclusivamente de mulheres, como se vê já desde 1983.

Foi muito caminho percorrido até hoje. E podíamos pensar: pronto, já se conseguiu uma razoável igualdade, está o trabalho terminado. Está? Não… Há coisa de um mês, as mulheres islandesas voltaram a convocar uma greve de um dia, cansadas que estão de ganhar menos do que os homens, mesmo quando fazem trabalho igual. Numa quantidade de profissões, os ordenados das mulheres são, em média, 21 % mais baixos do que os dos homens. Para chamar a atenção para esta injustiça (e, já agora, também para alertar para a quantidade incrivelmente alta de queixas de assédio ou violência sexual), as mulheres voltaram a convocar uma greve nacional. E à frente delas esteve nem mais nem menos do que a primeira-ministra, Katrín Jakobsdóttir, que também faltou ao trabalho nesse dia 24 de outubro de 2023. E, segundo os relatos da imprensa, a mobilização foi enorme, juntando mais de 100 mil mulheres neste protesto.  Ou seja, um quarto da população daquele pequeno país. Na ocasião, a primeira-ministra disse qual era o seu sonho: que em 2030 se tenha atingido o fim da discriminação e a igualdade plena a nível de género.

Passa-se tudo isto num país que frequentemente apontamos como dos mais avançados neste domínio, quase um exemplo para os demais. E mesmo assim…

Nem de propósito, por estes dias saiu nos jornais cá da terra uma notícia com este título: “Mulheres têm pensões 43% mais baixas do que os homens, diferença agravou-se numa década. De acordo com o Relatório sobre a Sustentabilidade Financeira da Segurança Social, este é o resultado de muitas desigualdades acumuladas ao longo de décadas em Portugal. Mas o mais grave é que a desigualdade não só não tem diminuído como, pelo contrário, se vem agravando: em 2012, as pensões das mulheres eram 42,8% inferiores às dos homens e, passada uma década, essa diferença aumentou para 43,2%. A andar para trás… O que revela, afinal, que há ainda muitos caminhos para fazer caminhando, em busca de um equilíbrio e de uma paridade que o peso de séculos não se cansou de agravar. Se até na Islândia, com aquela força toda que as mulheres puseram na rua…
Este pequeno vídeo  resume bem estas histórias e vale a pena espreitar.

 

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