Papa Francisco

Uma Guerra Mundial “em peças soltas” – a oportunidade de um livro

| 2 Set 2022

contra a guerra livro papa francisco

Neste livro, Francisco propõe uma cultura da solicitude, o que implica um trabalho conjunto pela paz, orientando as nossas forças para que se acabe com a fome, com as doenças e com a pobreza, situações em que  muitos povos permanentemente vivem.

A expressão de uma guerra “em peças soltas” é usada pelo Papa Francisco no prefácio do seu recente livro Contra a Guerra.[1] Constituem-no um conjunto de textos provenientes de diferentes acções decorridas no ano de 2022 – bem como em datas anteriores – onde se debruçou criticamente sobre este tema. Em todos esses escritos está presente aquilo a que o Papa designa como “cultura da solicitude,” [2] uma atitude que contrasta com a situação que hoje diariamente vivemos, onde a possibilidade de guerra mundial é uma constante. Essa solicitude é uma inversão das ameaças bélicas, alertando-nos quanto às preocupações que devemos ter para com os outros e para com a Terra, a nossa casa comum da qual urge cuidar. O livro engloba um conjunto de extractos das Encíclicas Fratelli Tuti, Laudato Si, Pacem in Terris, Evangeli Gaudium e Octogesima Adveniens. Escritas em resposta a diferentes situações, todas elas são de grande pertinência para enfrentarmos a situação que presentemente vivemos com a invasão da Ucrânia.

Em contraste com as Guerras Santas em que ao longo da história se envolveram cristãos e não cristãos, digladiando-se em nome do Deus que veneravam, o Papa faz um apelo à paz, falando da guerra como algo “que perverte tudo, é pura loucura.”[3] A ela contrapõe uma cultura da solicitude, o que implica um trabalho conjunto pela paz, orientando as nossas forças para que se acabe com a fome, com as doenças e com a pobreza, situações em que  muitos povos permanentemente vivem. A “cultura da indiferença” adormece-nos e faz-nos esquecer os atentados à dignidade humana a que assistimos todos os dias, quer presencialmente, quer através dos meios de comunicação. A guerra nunca pode constituir uma solução para os problemas vividos pela humanidade. Pelo contrário, ela é sempre uma perversão, um abuso de poder e uma loucura. Lembrando as diferentes pequenas e grandes guerras que têm eclodido nos últimos anos, Francisco desafia-nos para um exercício mental que é “olhar a realidade com os olhos das vítimas,”[4] tocando na carne de quem sofre – os feridos, os mutilados, os desalojados, os que perderam familiares, as suas casas e o chão em que viviam. E propõe que estas ameaças à segurança e à paz mundial sejam julgadas como crimes internacionais de guerra.

Uma sua outra preocupação é o perigo das armas nucleares. Contra elas defende uma ética global que tome consciências desta ameaça e que restabeleça um clima de confiança. Consequentemente, alerta as grandes potências para que reorientem o que gastam neste tipo de armamento, e revertam essas despesas para colmatar a pobreza, para fomentar a educação e para promover o desenvolvimento dos mais carenciados.

As condições para uma paz efectiva exigem justiça, liberdade e respeito pelos direitos humanos. O objectivo é trabalhar para a construção de um mundo sem armas nucleares, o que implica uma inversão das orientações até agora seguidas, onde o poderio das diferentes nações se afirma através do seu potencial bélico. Francisco alerta-nos contra esta ética baseada na “ameaça de uma destruição recíproca”, considerando-a uma fraude.[5]  Para ele, a construção da paz não se baseia no medo mas sim na confiança.  E considera que o dinheiro investido na produção de armas nucleares deveria ser desviado para a promoção do desenvolvimento integral dos países carenciados, bem como para a erradicação da pobreza. Não podemos estabelecer relações baseadas no medo, mas sim no diálogo e na solidariedade. Por isso, convida os poderosos a que eliminem essas armas. Fê-lo muito antes da ameaça nuclear que presentemente vivemos, pois já em conferências realizadas em 2017 falara de um modo premonitório relativamente a este perigo, desafiando-nos a acabar com uma lógica do medo, o que aliás já João XXIII referira anos antes na sua encíclica Pacem in Terris.

Na viagem apostólica ao Japão, em 2019, Francisco criticara a posse de armas nucleares, mesmo quando apenas se pretendia com elas um efeito dissuasor, pois a paz não se constrói na base do medo. E a uma ética de desconfiança mútua contrapõe uma ética de solidariedade, defendendo que os gastos com a corrida ao armamento deveriam ser reorientados para outros fins. Os textos publicados na sequência dessa viagem mantêm toda a actualidade. E em Contra a Guerra, volta a lembrar os mortos de Hiroshima, concluindo que “a verdadeira paz só pode ser uma paz desarmada”[6], considerando que Hiroshima e Nagasaki constituem “uma catequese sobre a crueldade.”[7]

Dois anos mais tarde, numa viagem apostólica ao Iraque, Francisco lembra-nos que nessa zona Abraão ouviu o chamamento de um Deus que é Pai comum de diferentes povos. E exorta os descendentes do Patriarca a “elevarem o olhar e a oração ao Céu” e a amarem o próximo.[8] A violência e o ódio representam uma traição às religiões. Há que preservar os lugares sagrados como ocasião de encontro e de paz, partilhando memórias comuns onde o terrorismo e a morte não tenham a última palavra. Há que cultivar uma cultura da reconciliação, no respeito pelas diferentes tradições religiosas. Tendo-as presentes, bem como aos mártires de outras confissões, reza pela paz, considerando que, com o perdão, a colaboração e o acolhimento recíproco poderemos encontrar caminhos de encontro, sem receio das diferenças. E a vivência desta paz não é um adormecimento pois ela é dinâmica, fecunda e cria comunidade.

O caminho pela paz no mundo implica uma constante colaboração, passando pelo reconhecimento dos direitos e também pelo cultivar dos deveres. Temos de olhar uns para os outros como pessoas que somos, ou seja, como irmãos e filhos de Deus. O que exige a construção de um mundo mais justo, com uma melhor distribuição das riquezas existentes.[9] O que implica também a oração e o diálogo.[10] Somos uma única humanidade e só nos salvaremos juntos. É uma mudança de atitude que exige uma conversão ecológica, ou seja, uma nova relação com a Terra, nossa mãe comum. O exemplo das primeiras comunidades cristãs ajuda-nos a praticar o dom da fraternidade. E a atenção aos pobres é indispensável para descobrir o caminho de salvação a que todos devem aspirar.

O livro termina com um posfácio de Andrea Tornielli. Sem querer diminuir a importância dos textos que o Papa Francisco escreveu contra a guerra, lembra-nos que eles se inserem numa tradição de denúncia que remonta a finais do século XIX. A Primeira Guerra Mundial também levou os diferentes Pontífices a apelarem “à força moral do direito.”[11] Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, Pio XII lançou um apelo à paz, que aliás nenhum país escutou. Em meados do século XX, João XXIII dirigiu-se às grandes potências para que salvassem a paz. E publicou um texto memorável – a encíclica Pacem in Terris – onde pede que sejam banidas as armas nucleares, apelando às Nações Unidas enquanto defensoras dos direitos universais da humanidade, no que foi secundado por Paulo VI. João Paulo II interveio pessoalmente nas diferentes guerras que eclodiram durante o seu pontificado, denunciando os abusos feitos em nome de Deus, que classifica como criminosos. O diálogo é considerado por ele como a única solução para resolver conflitos.

Também a criação de uma sociedade mais solidária e responsável esteve presente na visita do Papa Francisco ao Iraque, onde interpelou diferentes grupos políticos e religiosos a que garantissem uma convivência pacífica, baseada no respeito mútuo, sem deixar de atender às diferenças. Francisco assumiu-se como penitente e pediu perdão pela destruição e crueldade perpetradas neste território. Mais uma vez apelou ao limite do armamento, e convidou os diferentes estados e organizações internacionais ao empenhamento na assistência aos refugiados. Lembrando que o nome de Deus não pode justificar guerras e dissensões, apresentou a imagem de um tapete, comparando o modo como as diferentes Igrejas se deveriam unir, formando um tecido. Tornielli lembra que, em 2001, João Paulo II entrou numa mesquita em Damasco, falando de paz, de justiça e de perdão e denunciou os abusos feitos em nome da fé cristã.

As críticas feitas à violência e injustiça dos agressores não impedem o Papa de censurar a crescente corrida ao armamento, denunciando os seus perigos quanto à própria destruição da humanidade. O risco de uma terceira Guerra Mundial foi profetizado por Francisco. E embora hoje apenas enunciada “em peças soltas”, essa catástrofe é uma ameaça real a que todos assistimos na abertura dos telejornais. Importa tomar a sério estas reflexões e trocar a atitude de meros espectadores, leitores e ouvintes, pela de obreiros que se empenham na construção de uma sociedade mais justa, a primeira conquista a fazer em prol da paz.

Contra a Guerra – A Coragem de Construir a Paz
Autor: Papa Francisco
Edição: Publicações Dom Quixote
184 pág., 14,90 €

Notas:
[1] Papa Francisco, Contra a Guerra. A Coragem de Construir a Paz, tradução Miguel Freitas da Costa, Lisboa, D. Quixote, 2022, p. 9.
[2] Ob. cit, p.20.
[3] Ob. cit, p.11.
[4] Ob. cit, p.47.
[5] Ob. cit, p.56.
[6] Ob. cit, p. 75.
[7] Ob. cit, p. 78.
[8] Ob. cit, p.93.
[9] Ob. cit, p. 133.
[10] Ob. cit, p. 140.
[11] Ob. cit. p. 165.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

 

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