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Uma história do universalismo cristão

| 04/02/2020

Uma história do universalismo cristão

by | 4 Fev 20 | Cristianismo, Cultura e artes - homepage, Ensaio, Últimas

The Devil’s Redemption: A New History and Interpretation of Christian Universalism (Baker Academic, 2018) foi classificado em 2018 pelo The Gospel Coalition, uma organização de Igrejas Evangélicas de tendência Reformada, como o Livro de Teologia do ano. O seu autor, Michael James McClymond é um leigo anglicano e professor de Cristianismo Moderno na Universidade Católica de Saint Louis, Estados Unidos. Nesta gigantesca obra crítica de cerca de 1376 páginas e onde examina mais de 130 pensadores, este professor de teologia propõe-se descrever a história da doutrina do Universalismo desde o surgimento dos movimentos gnósticos nos inícios do segundo século até à mais recente proliferação das ideias universalistas que, segundo McClymond, está ameaçando as igrejas cristãs da atualidade.

O Universalismo, longe de ser uma doutrina uniforme, grosso modo teoriza que todos os seres humanos acabarão por ser salvos por Deus. Algumas vertentes do Universalismo sustentam até que o diabo e todos os seus anjos caídos serão eventualmente reconciliados com Deus. O que distingue muitas dessas doutrinas universalistas é o mecanismo pelo qual Deus restaurará todas as coisas: enquanto uns advogam que todos irão diretamente para o céu após a sua morte (os ultra-universalistas), outros defendem uma espécie de purgatório, por onde terão de atravessar um processo de purificação dos seus pecados antes de poderem ascender ao céu.

A tese desta monumental obra pode ser sintetizada essencialmente em dois pontos. Primeiro, a doutrina do Universalismo não surge fruto da reflexão teológica dos primeiros pais da Igreja nem de qualquer cristão, mas foi importada de ideias heréticas gnósticas e que influenciaram posteriormente o pensamento de Orígenes.

Segundo, o ressurgir das ideias universalistas a partir do século XVII é fortemente influenciado pelas ideias esotéricas do filósofo e místico luterano alemão Jacob Böhme, cuja heterodoxia irá influenciar muitas das correntes modernas do pensamento Universalista.

O que o autor pretenderá demonstrar é que, apesar de muitos pensarem que as doutrinas da salvação universal terem tido a aceitação de muitos dos pais da igreja – ideia que ele próprio refuta – as mesmas são antitéticas ao cristianismo ortodoxo. No fundo, esta doutrina de inclusão universal é apresentada pelo próprio autor no prólogo como um cavalo de Tróia que poderá afetar toda e qualquer doutrina acerca de Deus, da humanidade, de Cristo, do pecado, da graça, da salvação e da própria Igreja.

Após discorrer acerca das raízes do Universalismo, de Orígenes e Origenismo, passando pelos pensadores alemães até chegar ao teólogo russo Sergei Bulgakov no século XIX/XX e que ele acredita ter sido influenciado por Jacob Böhme, entra finalmente no pensamento de alguns teólogos do século XX acerca da eleição universal. Debate amplamente sobre o grande teólogo luterano Karl Barth cuja doutrina da eleição universal, além de ser ambígua, acusa de não ter apoio exegético e de ter sido teologicamente desastrosa para o seu próprio pensamento assim como para o desenvolvimento teológico posterior.

Por último, McClymond aborda os grandes teólogos católicos Karl Rahner e Hans Urs von Balthasar e o modo como eles lidam com a questão do Universalismo dentro da própria Igreja. Começa por referir que a Tradição Católica, desde as suas origens, passando pelos grandes pensadores da Igreja como Agostinho, Anselmo, Boaventura, Tomás de Aquino, Belarmino e Newman, foi sempre consistente ao longo dos séculos, no ensino de que o destino da grande maioria da humanidade é a punição eterna no inferno e conforme expressa no Catecismo da Igreja Católica.

A meio do século XX, refere depois o autor, ocorreu uma quebra dessa mesma tradição precipitada primeiramente com o pensamento de Karl Rahner na década de 1970 e cujas teorias, descritas na sua obra “Cristianismo e Religiões Não-Cristãs”, defendem a tese de que as pessoas que nunca ouviram o evangelho cristão podem ser salvas por meio de Cristo se moralmente corretas. Já depois na década de 1980, Hans Urs von Balthasar na sua obra Inferno ou Paraíso – O que podemos esperar? (Univ. Católica Editora, 2012), sugere a esperança de que todos os homens sejam salvos e reconciliados em Cristo.

Esta obra certamente será daquelas que obrigatoriamente deverá existir em qualquer biblioteca dedicada aos estudos teológicos, ainda que se deva ter em atenção que uma análise mais aprofundada ao tema do Universalismo não se poderá nunca esgotar numa leitura definitiva da mesma.

 

The Devil’s Redemption – a new history and interpretation of Christian Universalism, de Michael James McClymond

Ed. Baker Academic, a division of Baker Publishing Group, Grand Rapids, Michigan, USA; 1376 páginas; 2018

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

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