Uma história simples: os irmãos Ratzinger

| 19 Jun 20

A desconcertante e inesperada notícia da viagem a Munique de Bento XVI [quinta-feira, 18 de junho] para acompanhar os últimos momentos do seu irmão George, na sua premente urgência, é de uma comoção quase épica e, certamente, muito poética.

Recorda-me aquele extraordinário filme de David Lynch, The Strait Story, ou como foi traduzido em português, Uma História Simples, que é um retrato lírico da viagem de um homem através do coração da América, em 1994, ao longo de 260 milhas, quase 400 km, desde Iowa até Wisconsin, para encontrar o seu irmão, a quem não falava e não via há muitos anos, entretanto vítima de um enfarte.

A história é baseada em factos verídicos e conta a odisseia de Alvin que, com a ajuda de um pequeno trator cortador de relva (já não possui licença para conduzir um automóvel), percorre todos aqueles quilómetros para ver o seu irmão. Os encontros que faz durante o longo percurso são inesquecíveis, mas o que faz rebentar o coração e encher os olhos de lágrimas é aquele reencontro com o irmão que, incrédulo e não habituado aos afetos, lhe pergunta somente: “Fizeste todos estes quilómetros com essa coisa para me ver?”, ao que o irmão responde: “Sim, Lyle”. E a câmara de filmar se eleva, e com ela o nosso olhar banhado de emoção, até ao céu imenso carregado de estrelas.

Alguém me contou que também durante a pandemia um avô fez dezenas e dezenas de quilómetros a pé, e em solidão, para olhar pela janela de fora da casa do filho e acenar, contemplando, ao seu mais recente neto…

A história do filme, a história do avô durante a pandemia ou a história de Bento XVI, que desafiam as regras da lógica, da prudência, das reclusões mais ou menos impostas e rigidamente controladas e dos afetos, não representam apenas contos, mas são, essencialmente, um legado de superação.

É a primeira vez que Bento XVI sai do seu refúgio desde que apresentou a renúncia do seu ministério petrino, em fevereiro de 2013. E na temeridade e afoiteza de desafiar todo o “humano bom senso” partindo para estar junto do seu irmão, o assaz vezes apostrofado racional e frio professor alemão passa-nos, uma vez mais, uma rasteira de transcendental significado humano e cristão ao revelar toda a sua liberdade e profundo amor, como se nos indicasse uma estrada: que no centro da vida (e da sua vida) está não a fria razão e o calculismo social e intelectual, mas o sentimento e o amor, como já o dera a entender no seu livro Introdução ao cristianismo, lendo a fé cristã a partir da categoria do amor.

Posso já imaginar as várias interpretações de tal viagem, mas gosto de pensar que esta é apenas mais “uma história simples” entre dois irmãos que se amam. O resto, é conversa, e valerão sempre as palavras de São Paulo: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, ou a espada? Como está escrito: por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Carta aos Romanos 8, 35-39).

Roma, 19 de Junho 2020

Mário Rui de Oliveira é padre, autor de O Livro da Consolação, e trabalha em Roma

 

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