AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. Foto Clara Raimundo
"Que o clero tome consciência da sua missão como serviço e não como poder", escreveu um dos respondentes. Foto © Clara Raimundo

Inquérito 7MARGENS

Uma Igreja Católica menos clerical, mais participada e transparente e mais próxima dos excluídos

e | 17/06/2026

O clericalismo e a participação dos fieis leigos constituem os dois polos de problemáticas mais destacados pelos 629 respondentes ao inquérito sobre perceções acerca da sinodalidade, realizado pelo 7MARGENS entre os seus leitores, na única pergunta de resposta aberta que inquiria: “Para que a Igreja Católica seja mais sinodal que seria prioritário fazer?”.

Essas duas matérias surgem com relevância “muito elevada”, numa listagem decrescente de valorização, que é seguida, num segundo patamar de relevância “elevada”, pelo papel das mulheres na vida da Igreja e pela formação do clero e dos leigos; e, com uma relevância “moderada”, as estruturas e governação; o acolhimento e inclusão; e a própria sinodalidade (cf. tabela abaixo).

Estas conclusões destacam-se de uma análise qualitativa de teor interpretativo realizado com recurso às potencialidades da aplicação de inteligência artificial Claude. Para tal, os conteúdos relativos à pergunta referida foram reunidos sequencialmente num único documento de 796 parágrafos. Dada a natureza da pergunta e da análise feita, não é possível relacionar cada resposta com variáveis sociodemográficas que o questionário original contemplava.

O relatório da análise automática desenvolve, depois, cada uma das sete – assim chamadas – “constelações temáticas”, dando achegas, relativamente a cada uma, sobre os “padrões de sentido”, ou seja, para onde apontam as sugestões e propostas feitas em torno do tema; as “tensões centrais” e eventuais “contradições internas” que se revelam nos discursos.

 

Clericalismo, poder e serviço

Assim, o tema do clericalismo e da sua desejável superação – que se apresenta como “o mais saturado do corpus”, dada a frequência e a diversidade de modos de o enunciar, “surge não apenas como prática criticada, mas como categoria analítica nativa”. O facto de os próprios respondentes utilizarem o termo com frequência e precisão (…) indicia uma consciência crítica significativa sobre as dinâmicas de poder intraeclesial”, segundo o relatório.

Pode dizer-se que discurso sobre esse tema é “anticlericalista”, mas “não é anticatólico”, já que revela “uma fidelidade profunda à eclesiologia do Concílio Vaticano II e ao projeto pastoral do Papa Francisco, reclamando a sua efetiva implementação”. Nesta linha, a crítica dirige-se não à Igreja como instituição, mas ao seu funcionamento como campo de poder”, no qual o clero detém a última palavra.

Citando alguns exemplos de entre as respostas:

“O clero deve mentalizar-se que não são [sic] o centro da igreja.”

“Que o clero tome consciência da sua missão como serviço e não como poder, e perca o medo de deixar espaço aos leigos para assumir cargos de responsabilidade.”

“Diminuir o clericalismo e aumentar a formação e participação dos leigos”

“A resistência começa por dentro.”

“Apesar de existirem exemplos de esperança por parte de algum clero, para a maioria, a sinodalidade não passa de uma palavra e uma moda que, esperam passe rápido, sem agitar a dinâmica atual.”

 

A análise permite dar conta de uma tensão entre duas visões da autoridade religiosa: “uma visão hierárquico-sacramental, em que a ordenação confere uma posição de superioridade ontológica”, que continua a ser predominante, e uma visão de “serviço-batismal, em que todos os batizados são portadores de igual dignidade e corresponsabilidade”.

Na medida em que a sinodalidade surge como um projeto de redefinição dessa ‘cultura’ muito enraizada, isso explicaria pelo menos parcialmente a resistência de “quem mais tem a perder com essa redefinição”.

Alguns respondentes acabam, entretanto, por cair em contradição, quando sugerem ou propõem que se procure conseguir primeiro a adesão à sinodalidade por parte do clero, para mobilizar depois os leigos.

 

Os leigos em rutura com modelo “cosmético”

A participação dos leigos na vida das comunidades e estruturas eclesiais emerge como o segundo grande tema, nas sugestões de linhas ou medidas para uma Igreja mais sinodal. As respostas recebidas manifestam, porém, uma diferença fundamental “entre ser consultado e ter poder de decisão”.

O atual modelo de participação é considerado pelos respondentes como “essencialmente cosmético”: deseja-se que os fieis leigos participem com as suas opiniões, mas as decisões continuam a ser tomadas unilateralmente pelo clero.

Este diagnóstico produz um sentimento generalizado de frustração e desconfiança, que pode conduzir ao afastamento ou à apatia.

“Participação dos leigos nas decisões — não apenas consultiva.”

“Aceitar maior participação laical. E os leigos tenham voto deliberativo não apenas consultivo.”

“Fazer com que os leigos acreditem que são a Igreja. Acreditar que o clero só existe em função dos leigos e não o contrário.”

O corpus mostra que os respondentes “tendem a reclamar um modelo híbrido — mantendo a especificidade dos ministérios ordenados, mas alargando substantivamente a margem de ação laical”. Além disso alguns consideram existir passividade e falta de preparação de muitos membros da Igreja, defendendo uns que é necessário investir na formação para a participação, enquanto outros consideram que a participação já é, por si mesma, caminho formativo. “A ‘menoridade laical’ (expressão usada no corpus) é simultaneamente produto de um sistema clerical e condição da sua reprodução”, observa a análise realizada.

 

Mulheres na Igreja: querem-se mudanças reais

No que respeita ao papel das mulheres na Igreja, ainda que o tema não seja o mais enfatizado, é dos mais carregados simbolicamente no conjunto das respostas. “Surge de forma transversal e reiterada, muitas vezes em formulações curtas e assertivas que revelam a intensidade emocional da posição”, refere o relatório.

O tom reivindicativo é notório, pedindo-se “mudanças reais, não apenas maior visibilidade simbólica”, nomeadamente ao referir-se explicita e frequentemente o acesso ao diaconato e ao presbiterado, dando a perceber que este é “um ponto de rutura significativa entre as expectativas de parte dos respondentes e a posição institucional da Igreja”.

Vejam-se algumas das respostas:

“Acabar com a discriminação das mulheres no acesso a todas as posições hoje ocupadas por homens (de diácono a papa); mudar radicalmente a estrutura clericalista em que assenta.”

“Faço muitas vezes o exercício de imaginar uma greve das mulheres na Igreja…”

“A misoginia da Igreja sufoca a sua evolução e o próprio testemunho.”

A tensão que as respostas enunciam coloca em oposição um argumento de igualdade em dignidade e competência e um argumento de tradição associado ao sacerdócio masculino.

Ainda que o relatório de Claude estabeleça uma associação entre a questão das mulheres e a do celibato obrigatório, como se se tratasse de duas faces de um mesmo problema, uma análise específica pessoal leva a concluir mais por um somatório de problemas do que por uma relação entre os dois aspetos. Acresce que a incidência da referência às mulheres e à urgente valorização do seu lugar é muitíssimo mais forte do que ao celibato dos padres.

 

Formação: dimensões cognitiva e experiencial

O tema da formação recebe uma significativa relevância no conjunto das respostas – sendo requerida quer para os leigos quer para o clero. Quando, porém, os respondentes pedem “mais formação”, referem-se a coisas diferentes: uns apontam para a formação teológica e bíblica dos leigos; outros para a sinodalidade e o discernimento comunitário; outros para a renovação da formação nos seminários ou em competências humanas, emocionais e comunicativas para o clero, ou formação pastoral para ambos. São, pois, múltiplas as frentes e as soluções.

“Capacitar e formar os leigos para a realidade de 2026 do mundo e do papel da Igreja neste mundo, com a consequente formação teológica.”

“Ajudava que a formação de padres fosse mais próxima da vida real. As homilias são longas e muito desenraizadas da vida real.”

“Repensar a formação dos seminaristas que, gradualmente, se mostram mais clericais.”

“Revolucionar a formação ministrada nos seminários.”

“Que todos os sacerdotes sejam encorajados a viverem um percurso pessoal de autoconhecimento sobretudo na área emocional/Psicologia.”

É interessante anotar aqui uma tensão identificada pela análise, entre uma conceção cognitivo-doutrinal de formação (transmissão de conteúdos) e uma conceção experiencial-transformadora (mudança de atitudes e práticas relacionais). “Os respondentes tendem a privilegiar a segunda, mas reconhecem a necessidade de ambas”, refere a análise.

 

Governo da Igreja, inclusão e sinodalidade

Inquerito sinodalidade nuvem palavras

O relatório salienta que o corpo de respostas reunido revela “uma comunidade crente que não é passiva nem indiferente, mas profundamente envolvida”. 

Nos temas de relevância moderada, que aqui tratamos de forma sintética, começaremos pelas estruturas e governança da Igreja. Neste ponto, são muitos os apelos a que existam efetivamente órgãos de participação (conselhos paroquiais e diocesanos, assembleias, etc.) e que eles funcionem de facto. Vários respondentes vão mais longe, reivindicando não apenas poderes consultivos, mas também deliberativos. No funcionamento desses órgãos são requeridos mecanismos de prestação de contas e práticas de transparência, nomeadamente quanto a contas. Há quem sugira mesmo a criação de “observatórios da sinodalidade”.

Algumas respostas reconhecem, porém, que não bastam estruturas que garantam a sinodalidade, já que, por si só, elas não produzem comunhão. É também necessário valorizar a conversão interior, a mudança de mentalidade, o regresso ao Evangelho.

Quanto ao tema do acolhimento e da inclusão, frequentemente ligado ao “todos, todos, todos” do Papa Francisco, as situações mais referidas são os setores mais pobres e descartados da sociedade, os divorciados recasados, os homossexuais, os imigrantes e os “afastados” da prática religiosa. Para alguns respondentes, não basta acolher. É preciso rever as normas e situações que produzem a exclusão. A questão pode não ser abolir as normas, mas questionar quais merecem o peso que lhes é dado. Outros questionam a “doentia preocupação com questões de sexualidade”.

No que se refere à sinodalidade, a análise que foi feita das respostas coloca este tema “entre a esperança e o desencanto”. A narrativa e a gramática da “igreja sinodal” é claramente dominante, mas é também real o surgimento de vozes céticas ou mesmo claramente negativas em relação à sinodalidade.

As duas ou três vozes opositoras temem “uma cedência à ‘mundanidade’, uma ameaça à identidade doutrinária da Igreja, ou uma imposição de uma minoria ativista sobre a maioria silenciosa”. Quanto aos céticos, emerge “o desencanto de quem esperava mais”, lamentando a sua redução a uma cosmética, a um mero discurso, a uma nova burocracia ou até a uma “captura pelas estruturas que deveria transformar”.

O relatório analítico das respostas conclui este ponto observando que “a sinodalidade é, simultaneamente, demasiado pouca para uns e demasiada para outros”. Esta polarização interna, “mais do que uma contradição a resolver, é uma tensão constitutiva que qualquer processo de reforma terá de enfrentar”.

O trabalho realizado pela aplicação de inteligência artificial dedica a parte final do relatório a aspetos transversais, de que se destacam os seguintes:

  • A distância assinalada por bastantes respondentes entre o que a Igreja diz e o que faz. Eles reconhecem o discurso sinodal das lideranças, mas reclamam correspondência prática (“Falar menos em sinodalidade e ter práticas a nível da comunidade local (paróquia).”
  • É sugerida uma pluralidade de sujeitos da mudança (os bispos, os padres, os leigos, a Igreja…), o que pode indiciar uma falta de atribuição de responsabilidades.
  • A fronteira entre o campo religioso e o secular aparece bastante fluida, parecendo que se recorre a categorias do campo secular para a reforma da Igreja.

Em síntese interpretativa final, o relatório salienta que o corpo de respostas reunido revela “uma comunidade crente que não é passiva nem indiferente, mas profundamente envolvida — precisamente porque está descontente com a distância entre o ideal e o real. Os respondentes partilham, na sua maioria, um projeto de Igreja: mais participativa, menos clerical, mais próxima dos marginalizados, mais transparente, mais fiel ao Evangelho do que às suas próprias estruturas de poder”.

—

Nota metodológica – As respostas à pergunta aberta [Para que a Igreja Católica seja mais sinodal que seria prioritário fazer?] foram reunidas sequencialmente num único documento em formato Word com 10.854 palavras e 796 parágrafos (algumas respostas estenderam-se por mais de um parágrafo, apesar de se ter pedido respostas muito breves). De seguida solicitou-se à aplicação de IA Claude uma análise qualitativa desse corpus. No diálogo com a aplicação, foi decidido proceder a uma “Análise interpretativa aprofundada”, com base numa “Perspetiva sociológica da religião”. O resultado obtido foi um relatório de dez páginas, do qual este artigo é uma síntese, elaborada segundo critérios jornalísticos comuns.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This