
“É um desafio a toda a Igreja, convidando-a a sair dos seus próprios limites”. Foto: Sé de Lisboa vazia, em tempo de pandemia. © Vítor Rafael
No seu recente livro O Tempo das Igrejas Vazias (ed. Paulinas), o padre Tomáš Halík interroga-se acerca do cumprimento da visão do Papa Francisco, na qual Cristo (que segundo as palavras da Escritura bate à nossa porta) bate desta vez no lado de dentro da porta da Igreja porque quer ir para fora. “E não deveríamos nós segui-lo para além das fronteiras do nosso entendimento atual da Igreja e do Cristianismo, principalmente até ao mundo dos pobres, necessitados e marginalizados?”.
Este convite para uma “Igreja em saída” não é novo e fora feito pelo Papa na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium em 2013. É um desafio a toda a Igreja, convidando-a a sair dos seus próprios limites e que, ocultamente, se aventure audácia e violentamente nas franjas da sociedade, junto dos marginalizados, dos rejeitados, dos fracos. Não será este o ideário dessa Igreja que o Papa preconiza face aos problemas que a mesma atravessa nestes últimos tempos?
Mas a Igreja já está de saída há muito tempo, embora por outras razões. O fenómeno da desertificação observado em muitas das igrejas aqui no Ocidente não é certamente novo; é transversal a todas as confissões religiosas, especialmente naquelas que são consideradas históricas. Os muitos escândalos decorrentes de práticas abusivas do poder e a rigidez doutrinária de alguns setores religiosos, expõem uma Igreja por vezes parada no tempo, de portas fechadas para uma sociedade cada vez mais complexa, secularizada e individualizada. A própria pandemia, que tem vindo a alterar o tecido social da sociedade, inclusive as relações humanas, está já, igualmente, a mudar muitos dos paradigmas e comportamentos religiosos pré-pandemia.
Assistimos agora a um decréscimo cada vez maior da prática religiosa comunitária em favor de uma de cariz mais individual, mais privada, impulsionada também por essa explosão da digitalização da religião, onde muitos dos serviços religiosos estão agora quase permanentemente acessíveis em qualquer dispositivo móvel, inclusive no conforto dos nossos lares. Penso que muito do cristianismo, pelo menos tal como muitos o têm vindo a conhecer ao longo das suas vidas, já não mais será o mesmo.
Apesar de agora nos confrontarmos parcial ou totalmente com igrejas vazias e observarmos novos paradigmas do religioso, estudos recentes têm apontado para um aumento e despertar dessa sensibilidade inata ao ser humano que é o sentimento religioso, mesmo entre aqueles que se assumem como agnósticos e até ateus.
Um outro estudo divulgado recentemente mostra que em momentos de crise e de catástrofe, as pessoas tendem a socorrer-se do transcendente em busca de respostas e de livramento. No decorrer da pandemia, têm aumentado os pedidos e récitas de oração, inclusive o recurso a espiritualidades mais subjetivas e introspetivas em busca de significado da vida. As gerações mais recentes, nascidas em plena revolução digital, gerem já a sua própria religiosidade, inclusive as suas próprias crenças, filtrando-as até de certas doutrinas e dogmas com os quais já não concordam. Estamos de facto, nestes tempos atuais, na viragem de um novo capítulo da história da Igreja.
Não será este o tempo oportuno de todos os crentes, que por vezes persistimos em estar do lado de dentro da porta, por vezes temerosos perante estes sinais de crise e de incerteza, de sairmos nós também? O tempo quaresmal que se vive no cristianismo confronta a dura realidade dos discípulos temerosos, trancados dentro de casa, com essa outra realidade transformadora do Cristo Ressuscitado que, apresentando-se no meio deles, os impulsiona a sair com coragem, a anunciar o kerigma da Boa Nova (João 20:19). Como diz muito bem Halík, este “é um tempo para uma transformação profunda da religião e um tempo para uma reforma da Igreja. Essa reforma não pode ser apenas uma modernização superficial das estruturas, embora muitas estruturas tenham de ser transformadas, mas deve, acima de tudo, trazer uma mudança de mentalidade, uma viragem para o aprofundamento espiritual”. Como Igreja, teremos de ver nessa “saída” um tempo de oportunidade ao Espírito para que demos lugar a uma comunidade autêntica de verdadeiros discípulos e discípulas comprometidos com Jesus, a qual, tal pequeno fermento, levedará e guiará esta nossa sociedade tão necessitada e fragilizada rumo ao Seu Reino aqui na terra.
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.










