Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinalou no último domingo, 29 de Maio, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Catarina Cadavez, jornalista da RTP.

Catarina Cadavez: “Não há razões para o medo de a Igreja de hoje se apresentar ao público tal como é.” Foto: Direitos reservados.
Cheguei à Madeira em janeiro de 2009. Encontrei um arquipélago de profunda devoção, com tradições próprias e únicas no país, com múltiplas celebrações religiosas.
No momento em que iniciei o meu percurso na RTP Madeira, comecei logo a ouvir relatos sobre situações antigas, outras mais recentes, de casos de abuso sexual encobertos durante muitos anos, que culminaram com a deslocação de padres para lugares desconhecidos.
As histórias eram muitas, sobre as vítimas de pedofilia. Por estas viverem numa situação de pobreza extrema, tinham caído num destino impossível de contornar. Nunca percebi que tivesse havido uma confirmação nem um desmentido, um pedido de desculpas ou uma tentativa de esclarecer a verdade. Eram tudo boatos, contados informalmente, quase em surdina porque também a comunidade de crentes sentia vergonha duma Igreja com tais atos que só podiam ser repudiados. Não era essa a Igreja em que acreditavam e alimentava a sua fé.
Durante os quase dez anos em que vivi na Região Autónoma surgiram outros casos, limitados a denúncias; porém, nunca se conheceram conclusões dos factos que soavam. Não ouvi alguma vez uma palavra pública que tranquilizasse as famílias e a população atingida pelos factos. A condenação só existiu na constatação dos males, pelo público.
Pedi transferência para a RTP em Lisboa. Estando na editoria Sociedade, continuei a tratar estes temas e aqui verifiquei a mesma realidade. O conhecimento da verdade é difícil quando as perguntas são incómodas ou as matérias polémicas.
Como jornalistas, constantemente procuramos respostas. A Igreja Católica fala de abertura, mas a sua intenção termina muitas vezes nos documentos oficiais, isto é, na abordagem teórica ao assunto. Dificilmente ouvimos explicações diretas, os telefonemas não são atendidos, os emails ficam por responder.
Questiono: se nada existe para esconder, porque no concreto se reduzem a tamanho silêncio?
Será assim tão estranho para a sociedade atual conhecer a realidade?
Do passado, sabemos que a Igreja foi construída, ao longo de 20 séculos, por homens e mulheres com virtudes e defeitos. Do conjunto resultou para a história um legado imperfeito, mas onde os traços positivos se relevam. Basta pensar no socorro em situações de pobreza, de marginalidade, de ignorância, através da compaixão pessoal e sobretudo através de tantas instituições conduzidas por pessoas abnegadas que colocaram o bem dos outros algumas vezes acima do seu próprio bem.
Não há razões, em meu entender, para o medo de a Igreja de hoje se apresentar ao público tal como é. Os factos isolados, mesmo que cruéis, que nela possam existir, não se redimem escondidos debaixo do tapete, mas sim na atitude humilde e pela reparação das injustiças que possam ter sido infligidas. Senão crescerá desconfiança e desprezo.
Uma Igreja mais colaboradora com o jornalismo poderá tornar mais eficazes os seus ideais de eliminação de desigualdades, justiça, paz e liberdade para o bem-estar social da humanidade.
Não são estas as verdadeiras raízes do cristianismo?
Mais a mais, uma carta pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa reconhece o papel da comunicação social:
“Outro dever da comunicação social é servir o bem comum e o bem das pessoas sobretudo as mais fragilizadas no exercício dos seus direitos, nas suas condições de vida, no seu estado de espírito ou na estima geral, emprestando voz àqueles que não se fazem ouvir.
O mal também pode e muitas vezes deve ser tratado pela comunicação social, mas de forma que surja na mentalidade do público como reprovável e detestado.”
Pergunto: como pode fazê-lo quando se lhe não viabiliza por inteiro o acesso ao conhecimento da realidade?
Lembro a mensagem do Papa Francisco na Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2022, referindo a importância da escuta que deve vir do coração. Neste sentido: porque é que a Igreja Católica só é referenciada nos órgãos de comunicação social quando há um “escândalo”?
Continuando hoje a ser uma instituição tão relevante em todo o mundo, fazendo uma diferença abissal nas vidas de milhões de pessoas, protagonista nos últimos dois mil anos de história, fiel depositária do nosso património e memória com tantos seres humanos que lhe dedicam o tempo e a vida, será que nós, profissionais da comunicação, perdemos também a capacidade de a ouvir e lhe dar o devido destaque?
Para os jornalistas, mas também para a Igreja Católica, poderá ser necessária mais formação, maior sensibilização, menos preconceito.
Jesus Cristo enviou discípulos destemidos pelo mundo para anunciar o Evangelho, o maior exemplo de comunicação da história. Um legado que tem de perdurar.
Muitos de nós precisamos de nos rever à luz daquela mensagem.
Coragem!
Catarina Cadavez é jornalista da RTP, onde tem tratado temas religiosos e sobre o catolicismo.










