Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 8)

Uma Igreja transparente, na busca inquieta de Deus

| 10 Abr 2023

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

 Respostas de uma católica inquieta


Nesta oitava resposta, Teresa Vasconcelos admite a dificuldade de responder a estas perguntas pelo
cepticismo e descrença de que alguma coisa venha a mudar. Apesar disso, propõe uma série de caminhos de renovação inspirados no Concílio Vaticano II.

Abusos

“De momento, se a Igreja quer ser testemunho na sociedade, deve assumir o seu pecado (nomeadamente em relação aos abusos de crianças) e, reconhecendo a culpa, tenha a humildade de pedir perdão, proteger as vítimas e ajudá-las a superar as suas terríveis experiências, numa atitude de contrição, generosidade, justiça e compromisso.” Foto © Kat J / Unsplash

 

1. A Igreja tem de regressar ao compromisso primeiro com o Evangelho despindo-se das cúrias, dos enfeites, de um centralismo patriarcal, com sacerdotes e bispos carreiristas e burocratas… Que a Igreja deixe de ser um reino medieval e se torne “serva e pobre” por parte da hierarquia, dos ministros, dos e das leigas. Todos somos sacerdotes pelo batismo. A Igreja tem de aprender a funcionar “de baixo para cima”, na certeza de que não sei bem o que significa este “para cima”. Estamos todos uns ao lado dos outros nesta busca inquieta de Deus.

De momento, se a Igreja quer ser testemunho na sociedade, deve assumir o seu pecado (nomeadamente em relação aos abusos de crianças) e, reconhecendo a culpa, tenha a humildade de pedir perdão, proteger as vítimas e ajudá-las a superar as suas terríveis experiências, numa atitude de contrição, generosidade, justiça e compromisso.

Muito se tem dito sobre as mulheres e a Igreja. É preciso que elas estejam em paridade com os homens, ultrapassando a misoginia de que têm sido vítimas. Todos – homens e mulheres – devem aprender uma visão verdadeiramente antropológica e não idealizada da mulher. Acesso ao sacerdócio? Sim, desde que o sacerdócio seja radicalmente diferente, que aprenda com a forma de ser e estar das mulheres e que estas não se deixem tentar por valores tradicionalmente “masculinos” (poder, dinheiro, burocracia, domínio), que sejam profundamente livres e não hierárquicas, verdadeiramente “servas e pobres”.  Que sejam muitos os homens a aprender a ser assim – que já os há, graças a Deus! Nesta paridade – que deverá ser literalmente também em número de homens e mulheres e não em meras “amostras” – a Igreja poderá centrar-se em valores do cuidado, da escuta, indo à raiz do que é ser discípulo ou discípula de Cristo.

Finalmente, é urgente uma renovação completa dos seminários. Que neles se faça uma formação no mundo e para o mundo. Em coeducação. Com mulheres como professoras. Que deixe de haver seminários “menores” num tempo em que os jovens ainda são atravessados por uma adolescência frequentemente problemática. Que os candidatos ao sacerdócio vivam a sua juventude cá fora, no mundo, entre raparigas e rapazes, que estudem, que riam e chorem, que sejam acompanhados psicológica e espiritualmente nas suas dúvidas e escolhas, numa revisão de vida e num caminho de discernimento. Que o fantasma da sexualidade não resolvida não os atormente, numa “des-sexualização da moral católica” para todos (consagrados e leigos). Como temos vindo a insistir, que o celibato sacerdotal seja opcional e não imposto.

2. Sim, é óbvio. Somos todos batizados, somos todos sacerdotes. O caminho sinodal tem sido exemplo disso. Mas que este caminho sinodal não termine com a assembleia final dos bispos (2024), que não deixe de ser sempre caminho, diálogo, serviço aos pobres e “descartados”, simplicidade de vida, solidariedade profunda (Fratelli Tutti). Que seja contrapoder, escuta atenta e profunda, ousando tomar a palavra para denunciar toda e qualquer injustiça. Um grito colectivo e não de apenas de alguns “iluminados”. Que seja poder com: um grito do povo de Deus nos seus diferentes contextos que seja escutado por quem assumiu responsabilidades eclesiásticas e se queira tornar verdadeiramente pastor. Que seja transparente. Pondo fim ao clericalismo e à exclusão de muitos. Que haja muitos grupos com afinidades diversificadas e não apenas paróquias, que haja um verdadeiro catecumenato, que se estude a Bíblia em lectio divina, que se preparem liturgias de forma colectiva, jorrando criatividade, alegria e estética. Que tudo isto se passe numa “dolorosa presença ao mundo”.

3. Porque é que me terá custado tanto escrever este texto? Porque há em mim um movimento de cepticismo e descrença de que alguma coisa venha a mudar. As forças e as dinâmicas dentro da Igreja são poderosas e contraditórias. Tenho feito tanta coisa, tenho estado presente em tantos lugares, espaços, movimentos… e o desejo de dar o meu contributo cansa-se.

Na minha juventude abandonei a Igreja Católica porque, depois da primavera que foi o Vaticano II, senti como uma bofetada a encíclica Humane Vitae. Bati com a porta. A descoberta do Movimento do Graal ajudou-me a experimentar o que é ser Igreja de uma forma nova, mais perto das raízes de um cristianismo inscrito na sociedade em que vivemos… e regressei. Mas também porque experimentei que Jesus Cristo não quis desistir de mim.

Mas se o meu cepticismo permanecer, já será tarde para abandonar tudo novamente. Dedicar-me-ei então a uma oração atenta, silenciosa e transformadora. Com e em Cristo Jesus no profundo desejo de mergulhar em Deus. Um Deus “caminhando na brisa da tarde”. Esse o meu anseio mais profundo.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participante do Movimento do Graal. Foi membro da Comissão Nacional Justiça e Paz.

 

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