É no “abalo, que se intersecta”, “na fenda” que se “infiltra invisivelmente e refaz o traçado de uma diferença” (LS), na “dilaceração que se desloca / por zonas visíveis e inescrutáveis” (WTM), que nasce a poesia, palavra em que “a vida mantém a sua condição de sulco [,…] não deixa de ser descontínua” (OR). A poesia não recapitula, não unifica, não totaliza, não procura a plenitude e a correspondência: ela é voz da incompletude e da margem, da “falha” aberta na “indiferença da carne” por cada rosto, voz em que “este rosto” é posto a falar “por imagens estridentes /só possíveis em sonhos / ou pela ferida nele escavada como um fosso” (CM).
No rosto, o corpo manifesta-se como uma não-coincidência consigo, uma diferença que torna toda a representação, toda a “imagem” “estridente”, discordante da realidade, uma oscilação de estado que escapa a toda a inerência, mas também a toda a polaridade, a toda a dicotomia, porque os corpos, os seres vivos “se existem têm início num aquém ou num além / sem lhes pertencer inteiramente” (OS). Nem inteiramente aquém nem inteiramente além, o corpo diz “em cada rosto” essa indecidibilidade, a inalcançabilidade do ser a partir de si mesmo, e o poema acolhe essa palavra – que é ferida e clivagem – para pronunciar a não pertença que é o ser no mundo como condição do sempre de novo, sempre noutro lugar, para “nomear” essa “coisa não terrestre” que é a vida terrena:
A alma é a maior das nossas vértebras
uma coisa vinda da noite e do frio
uma coisa não terrestre, deambulando descalça
uma coisa multiforme e inalcançável
desesperadamente ressoante quando se toca
uma ferrugem que emerge de qualquer parte
e nos deixa perplexos como principiantes
(TdD)
“Forma de nomear um possível recomeço, em outras paragens” (OS), nomeação não do aqui e agora, mas de novo noutro lugar, a poesia, como o sonho, não pretende, portanto, representar a realidade, refleti-la numa nomenclatura de “equivalências” semânticas, porque o seu dizer é precisamente, pelo contrário, dar corpo à “relação com aquilo que não tem equivalente”, subtrair-se ao “significado que se fixa” e entregar-se ao “movimento desapropriador / [à] passagem” (ONI). Irredutível a uma forma de descrição e de conhecimento, de reconstrução do que é dado, a poesia é uma expressão do cessar “que não coincide com a extinção apenas” (OS), porque é o dar lugar à alteridade, é essa interrupção da duração que é a própria forma do acontecer. “Aparecimento do … nome ilimitado que se desprende” (ONI), poesia é “esgravatar imagens que rugem / e se aplicam a esvaziar-se a si mesmas” (GR). É na deslocação e na distância, na “interposição” oblíqua de um “vidro fosco” de separação, que o encontro com o “mundo verdadeiro” (lema central destes poemas, que volta em OS e em CdA) faz o seu caminho: não a evidência externa do que é, não o estado de coisas confirmado pelo “regime diurno, com o confisco que faz da eternidade”, mas o “conhecimento / do qual a história jamais falou / e chega até nós com o barulho da criação / mantendo intacto um poder / de metamorfosear” (GR).

Capa do livro Centro da Terra, de Tolentino Mendonça
Não descrever, registar, mas metamorfosear: transformar o que é, quem o é. Ao desprender-se do dado, do já certificado (do “relatado pela nossa certidão”, GR), a poesia procura e gera o novo, abraça o futuro de uma “direção não subjugada” que cortou a “ligação com o mundo provável” (LS), não para o condenar, mas para o resgatar com a piedade que só sabe “falar com o mundo que virá” (OM), “o mundo verdadeiro” em que nos alcançará “o que falta”. Cheia daquela compaixão que ama sem pedir “motivos precisos para o fazer”, que “vê sem olhar” (C), a poesia, como as mães e o desejo, “atravessa o nosso sofrimento / sem o julgar” (D), “ ajoelha-se a nosso lado”, “continua junto de nós / continua o ato vivo / a sua reassimilação misteriosa” em que todos nós, “seres nunca completamente nascidos, nunca bem soltados, tão duros de gerar, asfixiados e grotescos” (GR) somos sempre de novo paridos, dados à luz, recomeçados, reinstaurados numa “infância que continua a crescer depois da morte” (OR).
É nesta potência essencial de “braço capaz de abrir /algo realmente miraculoso” (D), de fazer levantar a vida depois de toda a morte (OR) e reassimilar misteriosamente o que foi como aquilo que será, que o desejo, a poesia e a maternidade se encontram, nesta última recolha de poemas de José Tolentino Mendonça (O Centro da Terra, Assírio e Alvim, Lisboa 2024), como rostos diferentes daquela dimensão ancestral do ser em que tudo começa, fonte “auroral” não do imutável, do mesmo, mas do devir, em que o cessar se desvenda como princípio, em que o depois cresce como antes, num “jogo que vai além das regras”, “pois entre a aurora e o desejo /semeamos a cena do mundo /como possibilidade de irradiação”, como brilho que “ilumina a noite reticente / a duração e o corte em que tudo se consuma /deixando-nos a perguntar / «como é que isso se dá?»” (LS).
«Como é que isso se dá?». Na “ferrugem abrasiva [desta] pergunta brusca” (OS) “esconde-se um recurso / uma dilaceração que se desloca / por zonas visíveis e inescrutáveis” (WTM). A pergunta com que a poesia se desloca na superfície do visível para abrir a ferida do mistério que ele constitui é inquietação dolorosa (“ferrugem abrasiva”, dilacerante), mas, ao mesmo tempo, é “um recurso”: ela regenera o visível como “lugar potencial da vida” (ONI), potência originária, materna, de recomeço, de irradiação do novo que não se deixa governar, calcular, saber, porque é precisamente a “relação com aquilo que não tem equivalente”, com o “impossível de avaliar” (WTM), com “a beleza imprevisível do desconhecido” (OS). Dar vida, fazer nascer o novo, fazer acontecer, são percebidos pela poesia não como uma lei mas como um milagre (“prodígio”) e é por isso que a palavra poética habita o corpo, não se alheia dele, reduzindo-o a um objeto, mas reconhece-se como a forma da sua potência: “e em todos os corpos / irresistivelmente /pulsa esse nome /que crê no prodígio e o procura”.

Athanasius Kircher. Imagem: Cornelis Bloemaert, Public domain, via Wikimedia Commons.
A pergunta poética não quer saber mas quer fazer acontecer, procura o milagre do vir à luz, do novo que brota imprevisível e indescritível do ainda não: “desconhecido que se põe a cantar / imponderável, em frente do negro circundante” (GR) e atravessa a experiência como a “fissura pré-histórica que nos leva ao centro /onde o amor e o medo espreitam /com milhares de olhos” (F). É o novo que nos “leva ao centro”, no coração do amor e do medo, no coração do corpo sem o qual não somos vida, mas que não coincide consigo mesmo, e nos diz que é aí, no “centro da terra”, que nos reconhecemos como “coisa não terrestre”, que entramos em diálogo com “o mundo que há de vir”, o único “mundo verdadeiro”. Não é fácil, porém, pôr-se a escutar o “desconhecido que se põe a cantar”, fazer ressoar a pergunta, fazer pulsar o nome que acredita no milagre da vida e no seu poder de novidade. Em relação à poesia, observa o poeta, estamos sempre atrasados: “Ainda não colocamos o ouvido na pedra /ainda não começamos a escavar uma abertura” (OP).
O que nos falta, diz o autor desta escrita assumida, programaticamente telúrica, que se desdobra oniricamente nas visões vulcânicas de Athanasius Kircher, é a coragem de Empédocles de se deixar cair na voragem aberta pelas vozes ainda capazes de se “aliar a um perigo totalmente puro”, capazes de sair “como fugitivas para cheirar o infinito / até sufocar ou enlouquecer”. É preciso, é urgente, escutar as vozes “que a desoras se apoderam de imagens / para consumar qualquer coisa de essencial / proveniente do próprio peso / da carne desgastada, dos pensamentos / ilegalizados como se fossem crimes” e “que são a única explicação / do mundo antigo que se mantém de pé” (CdA). É preciso sair do “regime diurno” de uma sociedade que se despiu da “responsabilidade de existir” para a passar “toda para o peito” das vozes marginalizadas e ilegalizadas dos pobres, dos poetas, dos desejantes (os que ainda conhecem a diferencia intransponível entre desejo e consumo, entre sentido e dinheiro, entre criação e produção, entre dar a vida e usá-la) e abraçar “a noite onde se forja o choro e o mundo” (CM), depositaria daquela revelação (CdA) que não é um saber mas puro acontecer, experiência de transformação: para quem se deixa conduzir longe por estas vozes, “nas fronteiras da nossa espécie / em regiões afastadas onde raramente / os comerciantes penetram”, “algo de sobrenatural se prepara / tudo o que é humano e tudo o que é divino / estendem o braço sobre o fumo / por cima das casas adormecidas / de uma margem a outra do amor” (V). Poesia e mística estendem aqui o braço sobre a existência, por cima do nosso ver, de uma margem a outra do aquém.
Poemas citados
O Sonho (OS); Desejantes (D); Lírios Selvagens (LS); O Resto Que Pode Levantar-se (OR); What Time Is Now On The Moon? (WTM); O Nome Ilimitado (ONI); Compaixão (C); O Mundo Que Virá (OM); Teoria de Deus (TdD); Carta de Amor aos Sem-Abrigo da Praça (CdA); Visitação (V); O Choro e o Mundo (CM); O Ouvido na Pedra (OP); Fissura (F); À Beira do Grande Rio (GR).
Foto de destaque: José Tolentino Mendonça. Foto: Direitos reservados.
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