O ano social em que nos encontramos vai estar cheio do 25 de Abril, em virtude dos 50 anos que vamos ter de assinalar. Muito vai ser dito e discutido, mas para se perceber o que foi e é ainda hoje o 25 de Abril, convém lembrar o que era o tempo social anterior.
O livro Dona Zezinha: A Vida Singular de Uma Professora, de Altina Ribeiro (Alma Letra, 2023) é uma obra exemplar para esse efeito. Sem pretensões literárias, em linguagem acessível, traz-nos esse tempo e esse mundo que hoje temos muita dificuldade em reconstruir.
Dona Zezinha foi professora primária, ou do primeiro ciclo em linguagem de hoje. Foi uma senhora exemplar, no duplo sentido de um caso entre outros e no de modelo do que devia ser alguém como ela: esposa, mãe, cidadã, professora. O livro não faz teoria, apenas nos conta a história de uma pessoa e, ao contá-la, mostra-nos o mundo no qual vive Dona Zezinha e que faz com que ela seja aquilo que é, até aos limites do que ela pensa e sente que deve ser. Um mundo a descobrir antes de se pensar sobre ele. Um duplo mundo, o de Portugal do interior e o da imigração para França e em Paris.
Neste ano, muito do que se dirá sobre o 25 de Abril terá sobretudo a ver com as dores do presente e alguma perda de memória. Pensamos de modo natural que a memória é a conservação em nós da realidade tal como aconteceu, mas estamos muito enganados. A memória é uma função vital que tem tanto de recuperação como de ficção do que aconteceu, ao serviço do que queremos que aconteça.
Neste momento, recordo a minha sogra, uma mulher de trabalho, analfabeta e rural, depois algum tempo operária. Também ela com queixas contra o seu presente e a conclusão habitual de que “no tempo do Salazar é que era bom”. E eu, procurando ser sensato, concordava: “Vivia bem naquele tempo, não vivia?” Ela de imediato saltava do seu sossego: “Eu, não é!? Passei pouca fome passei!…” E começava a contar episódios da sua vida, como daquela vez em que ia, ainda criança, atrás da carroça de um “rico” a apanhar as cascas da maçã que ele ia a comer. E as dores daquele tempo voltavam a dominar a sua apreciação dos vários tempos da sua vida.
O livro aqui em apreço traz-nos esse tempo, com algumas personagens muito vivas, servidas por um poder narrativo que procura ser documentado. Quer apenas contar a história de uma pessoa e, ao fazê-lo, traz-nos o mundo-da-vida das várias personagens. É uma obra que se lê com proveito e muito apropriado para oferecer àquelas pessoas que insistem em afirmar que “naquele tempo é que era bom”. O melhor mesmo é ler a vida de quem viveu nesse tempo e complementar com ouvir de viva voz os poucos, cada vez menos, que de então chegaram até hoje.
Dona Zezinha: A vida singular de uma professora, de Altina Ribeiro
Ed. Alma Letra, 2023, 160 págs., 14€
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com










