Reflexões da minha cabana

Uma joia da literatura clássica japonesa

| 11 Out 21

Capa do livro Hojoki – Reflexões na Minha Cabana

O ensaio do monge budista e poeta Kamo no Chōmei (1155-1216), denominado Hōjōki, publicado em 1212, pertence aos clássicos japoneses mais apreciados e a sua primeira menção remonta a 1222, aparecendo em Kankyo no tomo, obra constituída por 32 histórias budistas. Seria no período Edo (1603-1868) que receberia atenção escolar e, com mais incidência, durante o período Meiji (1868-1910), continuando, ainda hoje, a fazer parte do currículo escolar do ensino médio e superior. (cf. G.C. Pradhan, “Natsume Sōseki’s English Translation of Hōjōki”, in Japan Review 32 (2019), 69-88.)

Ao lermos este livrinho, sentimo-nos em viagem com o seu autor que, quase sexagenário, deixa a cidade e constrói uma simples cabana “nas profundezas sumptuosas do Monte Hino”. Tradicionalmente, são identificados três temas: a narrativa de desastres naturais, a conceção budista da impermanência de todas as coisas e o conceito de reclusão. Um quarto tema é acrescentado e realçado pelo escritor Natsume Sōseki (1867-1916), aquando da sua tradução de parte da obra para inglês, em 1891.

 

Narrativa de calamidades

A Grande onda de Kanagawa, desenho de Katsushika Hokusai (1760-1849).

 

Hōjōki relata grandes catástrofes, quatro delas testemunhadas pelo próprio autor.

  1. Incêndio de Quioto, em 1177, que se expandia “como um leque aberto”, durante o qual terá ardido grande parte da capital, tendo perecido milhares de homens e mulheres, assim como inúmeros animais. A descrição é de um realismo surpreendente. Uma tragédia que leva Chōmei a concluir, de forma pragmática: “Todas as obras humanas carecem de sentido, mas perder a saúde para construir uma casa numa cidade tão perigosa ultrapassa tudo.”
  2. Tufão ocorrido em 1180, que tudo varreu à sua passagem e que deixou a interrogação se não seria “um aviso, um presságio de uma grande calamidade ainda por vir”.
  3. Segue-se a descrição da fome, que durou dois anos (1181-82), na sequência de seca na primavera e no verão, assim como tufões e inundações no outono e no inverno, em que as pessoas “pareciam peixes agonizantes num lago seco” e se via “cidadãos respeitáveis” a andarem “descalços, mendigando de casa em casa”, até desfalecerem e caírem mortos, juntando-se a todos aqueles corpos que se acumulavam junto às paredes, sem “ninguém que os enterrasse”.
  4. A quarta calamidade testemunhada por Chōmei foi o terramoto de 1185, durante o qual “as montanhas desabaram e encheram os leitos dos rios e o mar submergiu tudo”. São linhas que nos avivam a memória do terramoto de grandes proporções, seguido de tsunami, com danificação da central nuclear de Fukushima, nordeste do Japão, ocorrido a 11 de março de 2011. E o autor prossegue a sua descrição: ao ver o seu filho ficar esmagado, “um austero samurai não sentiu vergonha, naquele momento, de chorar”.

Também o terramoto de 855, que derrubou a cabeça do Grande Buda, no templo Tōdaiji, em Nara, é brevemente mencionado.

 

Budismo e a impermanência de todas as coisas (mujōkan)

Ilustração representando Kamo no Chōmei.

 

As tragédias da época, aliadas a guerras sangrentas que tingiam o chão daquela nação, serviram de inspiração ao autor para impregnar todo o texto da ideia budista fundamental de transitoriedade de todas as coisas (em japonês, mujōkan), que aparece na primeira linha, em que fala de um rio que “corre sem parar, mas a água que corre nunca é a mesma”.

Chōmei encerra o vivo relato dos quatro cataclismos com a reflexão de que “todas as dificuldades da vida surgem dessa natureza evanescente e efémera do homem e da sua morada”. As imagens que exprimem esta impermanência são belíssimas: tudo desaparece, “do mesmo modo que a espuma sobre a água”; os barcos e a comparação da “vida fugaz à espuma branca que deixam no seu rastro”. A página 56 desta edição é de sabor budista e poético de grande densidade, tais como a imagem de Amida, disposta de forma a que a luz do sol nascente brilhe entre as suas sobrancelhas.

 

Literatura de reclusão

Chōmei prossegue o seu ensaio relatando como, aos cinquenta anos de idade, horrorizado com o sofrimento e a angústia que ele mesmo presenciou, deixou a capital e se afastou do mundo, acabando “por passar cinco anos escondido nas brumas do Monte Ohara”. Finalmente, por volta dos sessenta anos, “quando estavam prestes a desaparecer as gotas do orvalho” da sua vida, construiu uma pequena cabana, “uma folha de onde pudessem cair as últimas gotas”, eremitério adequado aos seus próprios limites, onde “está tudo calmo e não há nada a temer”.

A solidão e a paz que ele deseja experimentar, pois assim como não se pode compreender o sentimento de um peixe ou de um pássaro, se não se é peixe ou pássaro, “a mesma coisa se passa com a vida de um eremita: como entendê-la antes de experimentá-la?” Sōseki define-o como misantropo que procura consolação nas qualidades físicas da natureza. (cf. G.C. Pradhan, “Natsume”, 76). Pradhan assegura, contudo, que a reclusão descrita por Chōmei passou a ser considerada um modelo para posteriores gerações, tendo sido elogiada pelos autores de Kanyo no tomo e Hitorigoto, entre outros. (cf. G.C. Pradhan, “Natsume”, 71).

 

Natureza como experiência espiritual 

O Monte Fuji visto do Monte Aino, em 29 de Julho de 1995. Foto © Alpsdake/Wikimedia Commons

 

Na primavera as glicínias enrolam-se como ondas e as suas flores parecem nuvens cor de púrpura, nas quais o Buda Amida vem dar as boas-vindas aos eleitos. No verão ouço o cuco e o seu canto recorda-me que em breve me guiará para além das montanhas da Morte. No outono, à noite, ouço as cigarras estridentes e pergunto-me se elas se lamentam desta vida, vazia como a sua casca murcha. No inverno a neve amontoa-se e derrete-se como se fosse em sinal de expiação» (p. 58).

A poesia e a beleza da mudança das estações. O sentido da natureza como experiência religiosa; as estações do ano e a neve amontoada que derrete “como se fosse em sinal de expiação”. Em contraste com as grandes calamidades descritas na primeira parte do livro, a segunda descreve detalhadamente o grande prazer de diálogo com a natureza na sua nova casa, sem dono, sem limites; o olhar para a lua em noites tranquilas e pensar nos amigos; os pirilampos entre os arbustos, que “parecem as lanternas dos pescadores mar adentro em Mokinoshima”. O atiçar das brasas adormecidas. A coruja e o seu pio a inspirar melancolia. O musgo nas paredes, a lua e as flores como “os melhores amigos”.

Natsume Sōseki (1867-1916), na sua tradução para o inglês, em 1891, quando era ainda um estudante universitário, dá à obra um enfoque diferente da interpretação tradicional dos três temas. Ele lê Hōjōki como um trabalho romântico vitoriano sobre a natureza, estabelecendo uma semelhança com o poeta do romantismo inglês William Wordsworth (1770-1850). Será oportuno realçar que esta foi a primeira tentativa de tradução de Hōjōki para uma língua estrangeira, embora Sōseki não tenha traduzido toda a obra, pois excluiu a descrição dos desastres naturais, que não lhe interessavam. De facto, a alusão a formas de visão vitorianas da natureza e a sua interpretação dos pensamentos de Chōmei constituem a originalidade da sua leitura da obra. Há, contudo, uma força que advém da natureza como experiência espiritual, que Chōmei descreve com verdadeira mestria.

* * *

Chōmei termina o seu poema reconhecendo não ter atingido a iluminação: “Será o meu coração impuro que me impede de atingir a iluminação? Não encontro respostas para estas perguntas.” Este final reflete a característica de circularidade e de incompletude da literatura japonesa.

Passaram oitocentos anos e esta pequenina joia da literatura clássica japonesa adquire uma atualidade desconcertante, tendo em conta a situação pandémica e a instabilidade política. Nos inícios da pandemia, A Peste, de Albert Camus, foi uma das obras mais revisitadas. Também Hōjōki merece ser lido e meditado, pois, como afirma o autor, “podemos compreender o mundo de hoje comparando-o com o do passado”.

 

Hōjōki: reflexões da minha cabana, de Kamo no Chōmei.
Introdução e versão para português de Jorge Sousa Braga, desenhos de Avelino Sá
Assírio & Alvim, Porto 2021, 91 pp.; 8,80 euros.

Adelino Ascenso é padre católico da Sociedade Missionária da Boa Nova e trabalhou no Japão como missionário durante 12 anos. 

 

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