Uma jornada pela paz na Sexta-Feira Santa

| 22 Abr 2022

caminhada pela paz na ucrania, fatima, foto dr

Um longo cordão humano encheu de movimento e de cor os diferentes caminhos do percurso da caminhada. Foto: Direitos reservados.

 

Vindas de todo o país, foram mais de 700 pessoas a tomar parte nesta jornada, dinamizada pelo impulso inquieto e empreendedor do padre Almiro Mendes, pároco de Canidelo e Afurada, na passada Sexta-Feira Santa. Teve o seu início junto do Santuário de Nossa Senhora da Urtiga, num largo emoldurado por cartazes alusivos à paz, com uma intervenção daquele presbítero em que sublinhou a necessidade de «tecer os caminhos novos do Amor, deixando ódios e violências». Estava dado o mote para o cantor Miguel Bandeirinha galvanizar a participação massiva dos caminhantes, executando de forma empolgante o cântico «É preciso renascer, deixai ódios, violências».

Foi assim que se iniciou o momento cultural que precedeu a caminhada, o qual incluiu ainda outras intervenções. A primeira consistiu na leitura de um emocionante texto do padre Almiro, em que se prestava uma sentida homenagem às crianças que já sucumbiram na sinistra guerra da Ucrânia, sem esquecer todas as outras: “Queridas crianças da Ucrânia em conflito e do mundo em guerra, ficai sabendo que morais no melhor lugar do nosso coração e que todos os que aqui estamos sofremos, quando vemos que o nosso nada, até o desta caminhada da paz, é o tudo que temos para vos dar e para atirar à cara dos senhores feios e polutos que fazem a guerra. Só merecem um nome: Herodes!”. Depois dos agradecimentos de Marta Soviak, representante da comunidade ucraniana, foram exibidas aos presentes esculturas em porcelana de vários bustos com braços levantados, representando o clamor de protesto contra a guerra, obra do artista Mário Rocha. Seguiu-se o lançamento de balões com as cores da bandeira da Ucrânia, enquanto um grupo de jovens bailarinas executava um número de ballet. Este momento cultural terminou com Isabel Silvestre a cantar a conhecida «Canção de Emigrante», fazendo uma intencional alteração ao texto de Rosalía de Castro: «Este parte, aquele parte e todos se vão, Ucrânia ficas sem homens que possam cortar teu pão».

Um longo cordão humano encheu de movimento e de cor os diferentes caminhos do percurso da caminhada, sempre orientado por agentes da PSP, disponibilizados pela Câmara Municipal de Ourém. Também a Junta de Freguesia de Fátima deu um precioso apoio aos peregrinos, fornecendo-lhes garrafas de água, ao longo do caminho, e uma empresa comercial cedeu graciosamente os equipamentos de amplificação sonora. Todas estas parcerias foram conseguidas graças ao contributo empenhado da Fátima Trail Team, organização que assegurou o contacto com as referidas instituições civis. Esta prestimosa colaboração contrastou com a fria indiferença e o distante alheamento dos responsáveis do Santuário de Fátima.

Entre os caminhantes seguia também um grupo de ucranianos, que integrava meninas trajadas com roupas tradicionais do seu martirizado país e ataviadas com flores nos cabelos. Na Capelinha das Aparições, tinham à sua espera crianças portuguesas, com a intenção de oferecerem a Nossa Senhora tantas flores quantas as crianças mortas na guerra da Ucrânia, mas este gesto não pôde cumprir-se, por restrições do Santuário.

A caminhada teve duas paragens, permitindo aos peregrinos reunirem-se à volta de uma jovem violinista, que ajudou os presentes à reflexão, com os acordes do «Hino da Alegria» da nona sinfonia de Beethoven, em cujo texto Schiller expressa uma visão da raça humana como uma única fraternidade.

A jornada terminou com uma pequena celebração, que congregou todos os caminhantes à volta da Capelinha das Aparições, onde estavam as referidas crianças portuguesas a empunhar bandeiras da Ucrânia e da Rússia. Na sua intervenção inicial, o padre Almiro lembrou as palavras do Papa Francisco no dia 25 de Março: «Adoecemos de ganância, fechamo-nos em interesses nacionalistas, deixamo-nos ressequir pela indiferença e paralisar pelo egoísmo». Na homilia, acentuou que o sofrimento dos inocentes “é uma voz abafada que deveria ter eco, ao longe e ao perto”, mas que vai sendo estrangulada pela displicência de tantos, que tornam surdos os seus ouvidos e insensíveis os seus corações sem se preocuparem “com o mar de desespero em que tantos naufragam”. Exortou depois os presentes a nunca descerem “ao chão ruim e funesto da indiferença”, lembrando que aquela caminhada pela paz pretendia ser “um grito contra a indiferença”.

A celebração, que começara com Miguel Bandeirinha a cantar um hino a Nossa Senhora Rainha da Paz, terminou com Isabel Silvestre a envolver todos os presentes no conhecido cântico mariano em que se pede a intercessão da «Miraculosa, Rainha do Céu», para que «a guerra se acabe na terra».

Como se sabe, a primeira vez que a pomba aparece na Bíblia é para anunciar o fim do dilúvio (Gen 8, 11). Com o desejo de que possa ser também anunciado em breve o fim da catástrofe da guerra, foi feita uma solta de pombas, à semelhança do que o Papa já fez no Vaticano. Este gesto não ocorreu junto da Capelinha das Aparições, como estava programado, mas no exterior do Santuário, por imposição das autoridades religiosas.

Finda a celebração pelas 13 horas, muitos optaram por um almoço de pão e água, à semelhança do alimento dos pastorinhos. Ficou toda a tarde livre, permitindo assim o regresso atempado daqueles que quiseram participar na liturgia da Morte do Senhor nas suas comunidades cristãs.

 

Manuel António Ribeiro é professor aposentado e faz voluntariado na docência de Português para imigrantes e refugiados. É membro do Metanoia e animador de catecumenado de adultos na Igreja Católica.

 

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