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Cataratas do Niagara, Água, Paisagem

Uma linha apenas, invisível

“Cataratas do Niágara. Impressionante. Mesmo ali, à nossa frente. Visível. Tangível. A força bruta – brutal – da natureza.” Foto: Falls (EUA / Canadá)  © Luis Castanheira Pinto

 

Ligo a televisão. Leio o jornal. A notícia parece a mesma. Cada semana. Cada dia. Mas não é. São factos diferentes. Apenas parecidos. Na realidade, iguais. Tristemente idênticos. Os protagonistas são outros. As vítimas acumulam-se de cada vez. Uma destas notícias gravou-se na memória. Podia ser a de hoje, que a houve. Mas não é de agora. Esta falava de 22 mortos. Tiroteio. Homem a monte. De uma penada, rajadas de crueldade pura. Agora num recinto de bowling. Pouco depois num restaurante. Tudo isto no Maine. Estados Unidos da América.

Nessa noite, como nas outras, a abertura dos noticiários servia o aperitivo de uma refeição repetida vezes sem conta neste país. Posse de armas. Legalização. Ou não. Outro tiroteio. Mais outro. Assassínios sumários. Outros orquestrados no silencio cobarde das redes virtuais. O número sem escrúpulos. Estimativa, 15.000 mortos por ano. Por arma de fogo. Não contam suicídios nem rondas policiais.

O Estado do Maine fica lá bem no norte. Mesmo ao pé do Canadá. Fronteira que cruzámos recentemente. Outra viagem de carro. Roadtrip, soa melhor. Primeira paragem, Buffalo. Cataratas do Niágara. Impressionante. Mesmo ali, à nossa frente. Visível. Tangível. A força bruta – brutal – da natureza. Toneladas de volume e forma. Líquida. Algures, no entanto, aquela linha invisível. Intocável. Imaginária. Tão forte e intimidante quanto a primeira. Mesmo ao longo do rio. Separa os EUA do Canadá.

Do lado de cá, o controlo sobranceiro. Do lado de lá, o sorriso de boas-vindas. Os passaportes os mesmos. Os migrantes também. Para lá, a lindíssima Niagara-by-the-Lake, Toronto, Montreal. Quatro dias de encanto fantasiado há anos. Tudo tornado real. Hospitalidade espelhada nos gestos. O frio aconchegante. O idioma outro. Deambulações sem medos.

Depois, o regresso. Fronteira cruzada de novo. O até já a desafiar a comoção. À nossa frente, o rosto cerrado do senhor-agente. Instruções ásperas. Medo induzido. Welcome to America. Cínico. É um cliché, pois claro. Vem mesmo a calhar.

Entrámos em Vermont. Mesmo ao lado do Maine. O Maine, recordemos, faz fronteira com o Canadá. Morreram 22. Tiroteio.

A analogia surge agora nítida. Oportunista. Recordo a entrada na galeria aquecida de Montreal. Artesanato indígena. Peças de arte, umas. Meros recuerdos, outros. As boas-vindas da senhora idosa de pele escura. Olhos negros. Cabelos longos, entrançados. De novo o cliché a suscitar a fantasia de uma descendente indígena. Arte ancestral – diria a minha ingenuidade mal disfarçada. Pouco importa agora. A peça estava agora ali. Na parede. A metáfora escrita em pele de animal. Não sei qual. A estória dos dois lobos dentro de cada um de nós.(*) Rezava assim:

Um velho Cherokee ensina o neto sobre a vida.
“Há uma luta a acontecer dentro de mim”, disse ele ao menino.
“É uma luta terrível e é entre dois lobos. Um é o mal – ele é raiva, inveja, tristeza, arrependimento, ganância, arrogância, egoísmo, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, falso orgulho, superioridade e ego.”
Depois continuou: “O outro é bom – ele é alegria, paz, amor, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé. A mesma luta está a acontecer dentro de ti – e dentro de todas as outras pessoas também.”
O neto pensou por um minuto e depois perguntou ao avô: “Qual lobo vencerá?”
O velho Cherokee simplesmente respondeu: “Aquele que tu alimentares”.

 

(*) Conto atribuído aos povos nativos americanos. Tradução livre.

 

Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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