No dia 13 de novembro de 2025, Laurie Anderson, uma artista com uma longa carreira e talento assumido, apresentou no Rivoli Teatro Municipal do Porto (TMP) X², o melhor espetáculo que vi em muito tempo. Entre as histórias que foi contando, refere a resposta do Papa Leão XIV à interpretação do amor cristão a partir do Ordo Amoris feita pelo vice-presidente estado-unidense, JD Vance. A resposta de Leão XIV: “We don’t rank love [1]”. O comentário de Laurie: “Can I convert right now?”[2] As palmas entre o público foram escassas. O catolicismo não anda famoso nestes meios, mas na ode ao amor que foi este espetáculo, Laurie Anderson fez mais pelo amor e esperança cristãos do que a maioria dos presbíteros ao domingo. Amen.
6 de dezembro de 2025, acenderam-se as luzes em Belém. O Natal voltou à Palestina. O cessar-fogo oficial justificou a decisão do governo local, mas as opiniões não são unânimes, dado que em Gaza, desde o início do cessar-fogo, foram mortos 379 palestinianos na sequência de ataques israelitas. As luzes de Natal tinham sido acesas pela última vez em 2022. Atualmente os cristãos palestinianos contabilizam apenas dois por cento da população dos territórios de Israel-Palestina, sendo que em Gaza rondam as 640 pessoas. No ocidente, o sionismo cristão é uma força propulsora do sionismo israelita, especialmente evidente nos EUA, mas não só. Amar o próximo.
“Próximo!” Soa a um grito numa repartição da nossa burocracia. Em dezembro de 2025 foi apresentado no Theatro Circo, em Braga, o espetáculo de Marco Martins, Um Inimigo do Povo. E a 19 de dezembro cumpriu-se um ano que a PSP fechou a Rua do Benformoso, no centro de Lisboa, mobilizando mais de cem polícias e de 20 veículos, e obrigando 66 homens e rapazes a permanecer de braços no ar, numa revista de duas horas.

‘“A partir de um grupo de 28 imigrantes (Bangladesh, Nepal, Índia) – alguns residentes na Rua do Benformoso – iniciámos o processo de construção deste espectáculo, ancorado nas biografias pessoais de cada um deles e nas razões que os trouxeram para Portugal”’ Foto © Lais Pereira / Theatro Circo
“A partir de um grupo de 28 imigrantes (Bangladesh, Nepal, Índia) – alguns residentes na Rua do Benformoso – iniciámos o processo de construção deste espectáculo, ancorado nas biografias pessoais de cada um deles e nas razões que os trouxeram para Portugal”, escreve Marco Martins. Em janeiro de 2026, o espetáculo vai passar pelo Rivoli TMP e em março pelo CCB.
Um momento favorito: um intérprete conta que aprendeu a falar francês cantando canções de amor e canta para o público, alegre e sem medo, um êxito pop de há uns anos: “Je te le donne, donne, donne, je te le donne”. Eu dou-te. Um dar sem fim, como o das pessoas imigrantes às economias dos países para onde se deslocam – sobretudo, claro, as que menos têm.
Natal de 2025. Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado. Tantos, tantos nos foram tirados. Começar de novo. Voltar ao olhar da infância, para quem este mundo tem graça.
[1] “Nós não hierarquizamos o amor”. Tradução nossa.
[2] “Posso converter-me já?”. Tradução nossa.
Sara Leão é mediadora escolar.
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