Irmã Maria do Céu

Uma mulher que irradiou o Reino de Deus

| 13 Fev 2024

Irmã Maria do Céu Brojo da Silva

Irmã Maria do Céu Brojo da Silva. Foto: Direitos reservados.

A principal missão da Igreja é anunciar o Reino de Deus. Não apenas e só como realidade que nos espera após a morte, mas que, apesar de não ser um reino deste mundo (cfr. Jo 18, 36), já se vive e difunde a partir do contexto da vida terrena de cada um, não o impondo, mas testemunhando-o com pequenos gestos do quotidiano ou falando dele com a simplicidade das palavras mais apropriadas em cada momento. Foi assim que Jesus procedeu, fazendo comparações com factos reais com que as pessoas conviviam tais como um “tesouro escondido” (cfr Mt 13, 44-46), uma “rede de pesca” (cfr. Mt 13, 47-51), um “grão de mostarda” (cfr. Mt 13, 31-58)… Nunca escondeu que a sua missão era a de anunciar esse Reino (cfr Lc 8, 1) e quem o quisesse seguir teria a mesma responsabilidade (cfr. Lc 9, 2). 

Assim, a cada batizado o que se pede, fundamentalmente, é que seja testemunha credível do Reino de Deus e, seguindo as indicações do Evangelho, ajude a todos a conquistá-lo nas alegrias e tristezas, nas desilusões e esperanças de todos os dias. Reafirmo que é também essa a fundamental missão da Igreja. É que ela gasta boa parte do seu tempo com preocupações que em nada se assemelham às características do Reino, descritas no Evangelho, como até são sinais contraditórios delas. Sei que é assim, porque eu também sou Igreja e são mais as vezes que me deixo levar pelos critérios e ideais deste mundo do que por aqueles que assumi, ao decidir aceitar o convite de Jesus de anunciar este Reino, seguindo o seu exemplo, cujo programa de vida o deu a conhecer na sinagoga de Nazaré ao afirmar que se tinha cumprido em Si mesmo a profecia de Isaías (cfr Is 61, 1-2) que diz ter vindo anunciar a Boa Nova aos pobres… 

Vem isto a propósito da entrada no Reino de Deus da Irmã Maria do Céu Brojo da Silva, pela confiança que tenho na infinita misericórdia de Deus e pelo testemunho de vida dado por esta Irmã, natural da linda cidade de Gouveia, e que pertenceu à Congregação do Sagrado Coração de Maria, tendo, nos princípios dos anos oitenta, optado pela Congregação das Irmãs Auxiliadoras da Caridade, fundada pelo padre Jean Émile Anizan e pela Irmã Therese Joly.

Conforme as necessidades, as responsáveis pela congregação, em Portugal, foram transferindo a comunidade para outras dioceses, tendo a Irmã Maria do Céu integrado todas elas, ou seja, a de Setúbal, a de Vila Nova de Famalicão, a de Essonne (na região de Paris), a de Aveiro, regressando a Setúbal no ano de 2013. No seu regresso a Setúbal, o anúncio do Reino passou pela oração, meditação e conversas muito profundas que tinha com quem a visitava no Lar D. José Patrocínio Dias, em Beja, onde, dadas as suas evidentes e graves debilidades físicas, lá passou a última etapa da sua vida terrena, que terminou no dia 4 de fevereiro. Estas meditações estavam enraizadas na espiritualidade carmelita, identidade da própria Congregação, que convida à contemplação no meio da vida ativa, a exemplo de S. Teresa de Ávila.

Conheci-a em Setúbal. Durante alguns anos à distância, porque as minhas dimensões do Reino divino não se alinhavam com as dela e as da Congregação a que pertencia. Depois fomos obrigados a conviver, quando passei a exercer funções na Cáritas Diocesana de Setúbal. Ela era uma das irmãs que animavam o designado “Centro de Cabo-Verdianos”, uma das valências sociais da Cáritas, e aí faziam o seu apostolado junto das pessoas e famílias, maioritariamente de Cabo Verde, com metodologias que não se coadunavam com a minha forma de entender a ação e a promoção sociais. 

A tensão entre os dois durou algum tempo. Porém, fui eu que tive de mudar de itinerário, quando reconheci que ambos trilhávamos o mesmo caminho, mas o percurso dela estava traçado por uma linha mais reta do que o meu, na busca do Reino celeste. A Irmã Céu era uma apaixonada por Deus e, como consequência disso, também o era pelos mais pobres e excluídos. Adotou como lema para doar a sua vida: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (cf. Jo 10,10). Isto diz tudo. Tinha esta afirmação de Jesus bem enraizada na sua mente e no mais íntimo de si mesma, o que a fazia ter um olhar diferente sobre as realidades terrestres, a vida concreta de cada pessoa e as situações ásperas que elas viviam. A sua compaixão pelos “últimos” estava imbuída de Evangelho e, pela mesma razão, reconhecia-se que amava a vida, na sua contagiante alegria, que transparecia num sorriso aberto e no seu olhar profundo. Ela via essas periferias territoriais e existenciais e não passava ao lado (cfr Lc 10, 31-32).

Ela ajudou-me a perceber que esta vida em abundância evangélica se destina a toda a gente e passa pelo respeito e defesa da dignidade humana. Por isso, optou por levar esta Boa Nova de Jesus ao mundo do trabalho, assumindo ela própria a condição de trabalhadora assalariada e sindicalista, sempre orientada pelos princípios da proximidade e da solidariedade. Tinha uma vocação inaudita pelas crianças. Era professora de profissão, mas também animava grupos de crianças noutros contextos, a avaliar pelos testemunhos que, nos últimos anos, fui ouvindo de homens e de mulheres que pertenceram ao Movimento que ela ajudou a criar, o MAAC – Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças. A Irmã Céu tinha carisma para educadora, pois era capaz de estimular a reflexão, de modo a ajudar a criação de consciências críticas, com pensamentos próprios, e livres de amarras, sempre tendo em vista o compromisso de levar a ações transformadoras das realidades terrestes e das situações de vida de cada pessoa. 

A propósito do seu passamento, o padre Constantino Alves, membro do ramo masculino da Congregação a que pertencia a irmã Maria do Céu, e com quem trabalhou na pastoral vocacional, deixou o seu testemunho nas redes sociais que sintetiza bem tudo o que acabei de referir: “A sua vida consagrada a Deus, aos pobres e operários, nos cerca de 20 anos vividos na diocese de Setúbal e particularmente na década de [19]80, no trabalho assalariado, nos Movimentos da Ação Católica e nos Movimentos operários, tornaram-na numa testemunha ‘gigante’ do Evangelho nas periferias, no seio dos pobres e trabalhadores cujas realidades problemáticas e desafios à sua evangelização específica continuam em premente atualidade. Que o seu testemunho na radicalidade do Evangelho alimente a paixão por Jesus Cristo e pelos pobres em cada um de nós.”  

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Irritações e sol na cara

Irritações e sol na cara novidade

“Todos os dias têm muito para correr mal, sim. Mas pode-se passar pela vida irritado? Apitos e palavras desagradáveis, respirações impacientes, sempre com o “não posso mais” na boca.” – A crónica de Inês Patrício, a partir de Berlim

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This