Uma narrativa que nos constrói

| 1 Fev 20

Na Carta Apostólica Abriu-lhes o entendimento, o Papa Francisco institui uma nova celebração na liturgia: no terceiro Domingo do Tempo Comum, passa a celebrar-se o Domingo da Palavra de Deus. Apelando assim a que todos os fiéis criem o hábito de ler, refletir e rezar com a Bíblia, indo também ao encontro da prática de outras famílias cristãs como os ortodoxos ou protestantes, num ímpeto ecuménico que vem marcando o seu papado.

As datas festivas servem para nos relembrar os marcos da nossa fé, de modo a que possamos vivê-la de forma mais intensa. Como que recordando aquilo que nos constrói e sustenta no caminho interior. O quotidiano, o rame-rame do dia-a-dia transformam-nos em autómatos. Repetimos sempre as mesmas orações, percorremos os mesmos caminhos, seguimos as mesmas rotinas e, se é verdade que são fundamentais para nos estruturar e estabilizar, também podem absorver-nos levando-nos a viver a vida espiritual como um mero hábito arrumado a um canto e no qual deixámos de pensar.

É necessário festejar os dons que recebemos de modo a recordar a sua importância, repensá-los, fortalecer a relação com eles. Ter uma Bíblia é, na sociedade Ocidental, um dado adquirido, mas, em certos países do mundo, pode ser causa de perseguição e até de condenação a penas de prisão ou de morte. Recordar essa realidade deve servir para nos responsabilizar pelos nossos atos. Não para nos recriminar pela sorte de vivermos em paz, mas para nos impelir a usar essa paz para nos transformarmos nós mesmos em construtores de paz.

A Bíblia católica resulta de uma seleção de livros feita no Concílio de Trento no século XVI, fruto de aprofundada reflexão da Igreja. O denominador comum a todos os livros que compõem a Bíblia e que serviu de critério para a sua escolha é a presença de inspiração divina em quem os escreveu. É muito curioso verificar as múltiplas formas pelas quais Deus procurou falar aos crentes por meio de profetas, reis, apóstolos e evangelistas. Na Bíblia encontramos diversos géneros literários desde os Livros de Sabedoria, à expressão poética do Cântico dos Cânticos, à súplica nos Salmos, a narração da vida de Cristo nos Evangelhos, as Cartas ao Apocalipse. Ao percorrer os diversos géneros literários presentes na Bíblia encontramos várias expressões da vida humana, quer nos exemplos de narrativas de vida do Rei David e Salomão; o sofrimento e perseverança de Job, as orações dos Salmos, as palavras de amor dos enamorados do Cântico dos Cânticos ou um modelo de comunidade cristã descrito nos Atos dos Apóstolos.

Esta multiplicidade vai ao encontro das várias dimensões da vida humana. Na leitura da Bíblia encontramos a Palavra de Deus, mas também, e não menos importante, a narrativa da vida humana na sua beleza e inteireza. A Palavra de Deus proclamada como “Palavra do Senhor” ou “Palavra de Salvação”, constitui um repertório de caminhos de vida e de ensinamentos que nos guiam. Deus fez-Se homem para nos salvar pela sua morte e ressurreição mas também pela palavra que nos deixou. Nos Evangelhos, Cristo indica-nos uma autêntica sabedoria de vida, um caminho para uma vida realizada. Podemos perguntar-nos porque é que a Bíblia não é composta unicamente de livros de sabedoria, leis ou conselhos para a santificação. Se Deus quis deixar a Sua Palavra faria sentido que ela assumisse a forma de mandamento como pediu a Moisés. Contudo, Deus quis falar-nos por meio de homens, falíveis, frágeis, enamorados, ou suplicantes porque todas essas dimensões fazem parte integrante da nossa vida. E é na narração da humanidade que se vislumbra aquilo que é verdadeiramente divino, porque é a mais bela criação de Deus, que gerou o Homem à sua imagem e semelhança. A divindade reflete-se na humanidade.

O maior hino de louvor a Deus é a narração da vida de cada um. Em cada fragmento, está presente o desejo criador de Deus. Na imensidão do Seu amor quis criar um ser semelhante a si com quem pudesse relacionar-se. Uma vida que não é narrada, morre. Temos necessidade de contar a nossa história para nos sentirmos vivos, porque a vida se faz de relação.

A Igreja escolheu esta compilação de livros que formam o grande livro que é a Bíblia para ser o nosso guia espiritual. Na história de vida de outros nos reconhecemos. Caminhamos a seu lado, compreendendo os seus desejos, dores e hesitações e o modo como em todos os momentos Deus esteve próximo. Por vezes, até, no silêncio que nos desconcerta. A vida espiritual precisa de beber em várias fontes.

Cristo encarnou toda a sabedoria e profecia que o precedeu, por isso dizemos que nele se cumpre toda a escritura. Alimentado por essas fontes, viveu de um modo único e mostrou-nos que é esse o caminho para edificar a vida. Não negando nenhuma fragilidade, não fechando nenhuma porta, antes integrando todas as dimensões da vida sem esconder nenhuma, porque é nessa inteireza que encontramos o caminho da paz.

 

Sofia Távora é estudante de Direito e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

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