Que espero do Sínodo católico? (13)

Uma oportunidade crucial para abordar temas controversos

| 9 Out 2023

O 7MARGENS acompanha os trabalhos da assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade publicando a opinião dos seus leitores sobre este importante acontecimento (ver textos já publicados).

O que esperamos do sinodo_7 margens

O Sínodo é uma oportunidade crucial para abordar temas que têm gerado debates e controvérsias nos últimos anos. Entre esses temas, destacam-se o celibato clerical, o papel das mulheres na Igreja e as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Com a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Portugal, o tema sinodal foi abafado. No entanto, espera-se agora dos cristãos oração para que este encontro dê frutos e não provoque uma divisão maior no seio da Igreja. A JMJ fez com que nós, jovens, nos sentíssemos importantes na Igreja e tivéssemos a certeza de que esta não seria a mesma sem nós.  Por isso, também nós, jovens, refletimos sobre todos os temas em cima da mesa neste Sínodo.

 

“A vida sacerdotal tal como é não atrai os mais jovens”

Começando pelo celibato. Bem sabemos, que o celibato clerical é uma tradição que remonta aos primeiros séculos da Igreja Católica. O compromisso de não se casar é visto como um sinal de dedicação total a Deus e à Igreja. Muitos argumentam que a imposição do celibato pode levar a problemas, como a falta de padres, além de dificultar a compreensão das realidades da vida das famílias pelos sacerdotes celibatários. Além disso, a questão da pedofilia e abuso sexual na Igreja trouxe à tona a discussão sobre a relação entre celibato e comportamento sexual inadequado. Por outro lado, defensores do celibato argumentam que ele é uma parte essencial da tradição da Igreja e que a abstinência sexual permite que os padres se dediquem inteiramente ao serviço espiritual. No entanto, muitos acreditam que a Igreja deve considerar abordagens flexíveis, como permitir que padres casados exerçam o sacerdócio em circunstâncias específicas.

O Sínodo pode servir para discutir abertamente essa questão, considerar a experiência de outras igrejas cristãs que permitem o casamento de padres e, possivelmente, explorar maneiras de manter a tradição do celibato, ao mesmo tempo em que se enfrentam os desafios da escassez de vocações e do abuso sexual. A realidade é que as relações interpessoais e afetivas fazem parte da natureza humana. É contra-natura o oposto. A realização afetiva traz alegria e bem estar. Como sabemos, alegria gera alegria e alegria é missionária, como nos recordou o Papa Francisco na JMJ. À parte de conceitos teológicos, como jovens, nós perguntamos: Como é que os padres lidam com a sua sexualidade? Quantos dos nossos padres têm relacionamentos afetivos, mas de forma escondida? Quantos padres estão acomodados à vida sacerdotal porque não se veem a fazer outra coisa? No entanto, têm relacionamentos afetivos que são vistos pela sociedade e pela Igreja como pecaminosos. Quantos padres se sentem profundamente sozinhos? Vejamos a questão do celibato de forma oposta. Não pela falta de vocações, mas pela saúde afetiva e mental dos nossos padres atuais. Como é que o fim do celibato poderia completar e melhorar a vida dos padres atuais? Eliminaria os sentimentos de solidão, frustração, falta de compreensão da sociedade, entre outros problemas? Esta resposta só pode ser dada pelos padres. A vida sacerdotal, sendo atrativa, gera mais vocações. Neste momento, a vida sacerdotal tal como é não atrai os mais jovens, mesmo havendo uma inquietação espiritual. Esta é a realidade. A mudança tem de ser iniciada pelos padres atuais, apontando as carências que vivem para que esta vocação tão bela seja mais vivida pelos nossos jovens.

 

Abrir as portas

Outro tópico importante que o Sínodo irá certamente abordar é o papel das mulheres na Igreja. Atualmente, a Igreja exclui as mulheres do sacerdócio, limitando o seu papel a funções não-sacramentais. Novamente, a natureza fez o homem e a mulher com qualidades e sensibilidades diferentes. Numa hierarquia apenas constituída por homens, as qualidades intrínsecas às mulheres não são aproveitadas. Nas nossas vivências da pastoral juvenil, muitas vezes ouvimos a expressão “família cristã”. Assim, não podemos deixar de associar o termo “família” à sua essência. Ninguém pode negar que a mulher no seio familiar tem um papel fundamental. A mulher sacrifica-se, luta, trabalha, gere e anseia harmonia na sua família. Como jovens, vemos a nossa mãe como um elemento agregador imprescindível sem o qual a unidade familiar não sobreviveria. Os nossos avós chamavam ao padre o pai na fé. Se muitos veem o padre como pai, o que seria se houvesse uma mãe?

Por último, a bênção da Igreja a uniões homossexuais e recasados. Neste ponto, não podemos deixar de lembrar o “todos, todos, todos” deixado pelo Papa Francisco em Lisboa, em que a nossa voz se juntou ao “coro”. E é mesmo a “todos, todos, todos” que queremos que a Igreja abra portas. Se a sociedade em geral tem aberto a mente na aceitação de uniões de pessoas do mesmo sexo, a Igreja também tem de caminhar nesse sentido. É complicado não nos indignarmos quando vemos comportamentos de exclusão para com pessoas com características afetivas das quais não têm culpa. A situação dos recasados vem na mesma vertente. Nas nossas paróquias, o que assistimos é ao afastamento das pessoas da vida paroquial e comunitária porque se divorciaram. Compreendemos que tudo provém de fundamentos teológicos. No entanto, Jesus também disse que não veio chamar o justo, mas sim o pecador. Se alguém pede um sacramento, ainda mais nos dias dia hoje em que a tendência é fugir ao compromisso, mesmo não praticando a lei de Deus na sua vida, é um bom indício de que algo estará a mudar. Pensamos que não deverão ser afastados, mas totalmente o contrário, deve-se tentar despertar nestas pessoas a necessidade da vida espiritual e do contacto com Deus. Não existe nenhuma pastoral que vá ao encontro destes casos. Para já, nada está a ser feito para ir ao encontro das necessidades espirituais destes cristãos e isso tem de mudar.

Independentemente das decisões finais tomadas pelo Sínodo, o processo de discussão e reflexão em si é um sinal de progresso e esperança para a Igreja Católica. Assim, pedimos que o Espírito Santo atue e que possa abrir as portas necessárias para uma Igreja mais à imagem e semelhança de Cristo.

 

Grupo de Jovens Renascer, paróquia de Modelos, vigararia de Paços de Ferreira.

 

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