Uma oração possível num tempo (im)possível

| 3 Mai 20

Senhor nosso Deus,
Tu conheces, infinitamente melhor do que nós,
a circunstância que é a nossa.
Não nos cabe, portanto, descrevê-la.
Aliás, como poderíamos nós descrever-te aquilo que nos confina,
que não sabemos o que é.
E além disso, onde há confinamento há esclerose nas palavras e asfixia nas ideias.
E nós estamos a viver essa circunstância.
Daí que a nossa oração seja uma oração de confinados, que sai ferida do mais
profundo do nosso ser.
Valem-nos as palavras do teu apóstolo Paulo quando ele supõe uma circunstância de uma extrema debilidade, na qual nem sabemos o que pedir, e é o Espírito que vem em nosso socorro:
“O Espírito, ele mesmo, intercede por nós com gemidos sem palavras.” (Romanos 8:26)

“Como poderíamos nós descrever-te aquilo que nos confina, que não sabemos o que é…”. Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Desses gemidos não podemos, pois, falar.
A impotência das palavras, neste caso, surge configurada.
São gemidos, os gemidos do Espírito em nós. Imanentes, são também transcendentes.
Transcendentes, são também imanentes. É a força do Espírito em nós que nos abre uma porta. Assim, Senhor, ajuda-nos a não confundir esses gemidos, que são do Espírito, com as palavras que são nossas.
Com as palavras que queremos dizer-te em oração.
Eles, os gemidos, são do domínio do milagre. Elas, as palavras, saem também com a marca da nossa humanidade.
Não queremos, pois, confundir esses gemidos do Espírito com as palavras que aqui te dizemos.
Elas são uma oração-conversa contigo. Eles, sendo do domínio do milagre, ficam contigo. Ao milagre deixamo-lo nas tuas mãos. Às nossas palavras, que podemos nós pedir-te senão que as transformes em vida?

Senhor nosso Deus,
não queremos pedir-te que extirpes de nós o medo que sentimos nas nossas vísceras.
O medo pode ser-nos necessário em determinados momentos. O medo pode, por vezes, ser um sinal de alarme necessário.
O que te pedimos é que nos ajudes a trabalhar o medo.
É que a nossa ignorância do que aí vem amplifica o nosso medo.
Ignoramos quem é o inimigo que nos ameaça.
Chegámos ao ponto em que o medo dos outros nos leva a termos de nos mascarar.

Homens e mulheres mascarados perante outros homens e mulheres também mascarados.
E não se trata de uma dança em que dança a vida.
Trata-se de um baile de mascarados em que se procura esconjurar a morte.

Sim, Senhor, ajuda-nos a trabalhar o medo.
Íamos quase dizer-te: ajuda-nos a declinar o medo.
Com os dois sentidos da palavra declinar:
num desses sentidos: afastá-lo numa direcção salutar,
isto é, não deixarmos o nosso medo cativo do medo;
no outro sentido: conjugá-lo gramaticalmente, verbalmente, eu tenho medo, tu tens medo, ele tem medo, etc., no singular e no plural!
É que o medo atinge-nos existencialmente.
Decliná-lo é conjugá-lo (ai, o verbo con-jugar!) em todas as pessoas, no singular e no plural.
E decliná-lo em todos os casos (não só os gramaticais mas também os outros os existenciais), no singular e no plural, em todas as pessoas,
no mais profundamente íntimo, vivido a sós, e no humano abraço que ainda nos é permitido.
E nós precisamos de abraçar, Senhor!

“Não deixarmos o nosso medo cativo do medo…” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Ajuda-nos, Senhor, a viver o quotidiano,
o dia-a-dia, a hora-a-hora, um pouco assim como o pão essencial do Pai Nosso,
que é para ser saboreado hoje.
Dá-nos, Senhor, o sabor que cada dia de confinamento pode ter,
e que possamos viver o quotidiano.
Ajuda-nos, pois, a dar uma ordem possível ao que pode entrar em desordem,
de modo que consigamos um confinamento feito por um dia-a-dia sem esclerose,
em que o medo do passado não nos oprima
nem o futuro desconhecido nos paralise.
E que na possível luta entre a memória e o esquecimento
nem a memória seja excessiva nem o esquecimento seja fatal.
Ajuda-nos, Senhor, a viver o perdão: tu sabes como ele pode ser libertador.

E quando se trata de tristeza e de alegria
– a tristeza e a alegria de confinados –
ajuda-nos a compreender como, em determinadas circunstâncias,
pode ser mais salutar uma tristeza verdadeira do que uma alegria falsa.

Precisamos, Senhor, ser corajosos e moderados: o que te pedimos é que
nos ensines a ser moderados na coragem e corajosos na moderação;
ajuda-nos a viver a riqueza das nossas raízes
sem cairmos na esclerose de uma doentia nostalgia.
Que na reclusão que é a nossa possamos trabalhá-la:
lendo, pensando, amando, tratando de nós mesmos.
E, sobretudo, Senhor:

que a perplexidade da reclusão necessária não dê lugar ao cinismo
da irresponsabilidade mortal.
Ajuda-nos a suprimir no visível dos nossos rostos e no invisível dos nossos corações
toda a noção de altivez, de profundidade, de amplitude.
Expulsa de nós esses miasmas com os quais muito facilmente nos comprazemos

Ajuda-nos, Senhor, a viver a loucura suficiente para:
perder a cabeça e encontrar o júbilo
dizer asneiras sensatas
contestar uma espiritualidade entrincheirada e acolher uma fé libertadora
esquecer algo de uma identidade rígida para vogar na ternura
dizer não a duas irmãs: à indiferença e à intolerância
não lamentar nem a insuficiência das nossas igrejas nem os desvarios do mundo
não lamentar o que nós mesmos somos mesmo quando falhamos
resistir aos ataques que ferem e acolher as críticas que cicatrizam
sermos, como disse Jesus, “sagazes como as serpentes e cândidos como as pombas”
… enfim…
compreender o teu apóstolo Paulo quando ele, sob o olhar severo dos seus paroquianos de Corinto, lhes diz:
“Oxalá vós me suportásseis um pouco na minha loucura! Sim, suportai-me!” (2 Coríntios 11:1)

“Perder a cabeça e encontrar o júbilo dizer asneiras sensatas…” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Ensina-nos a deixar cada pessoa ser aquilo que parece,
sem a obrigarmos a parecer ser aquilo que não é.
E como a ansiedade nos pode acompanhar em cada dia, concede-nos uma oferta secreta:
que ela, ansiedade, nos torne mais modestos do que medrosos,
mais permeáveis do que acantonados,
mais fortes do que possuídos por uma piedade enganosa.
Que na nossa vulnerabilidade possamos experimentar que a fragilidade também é uma companhia útil quando nos faz descer do pedestal e assumir com os outros a vulnerabilidade comum.
E compreender que a tua humanidade manifestada em Jesus o fez também a ele vulnerável aos acidentes da história.
Temos assim nele alguém que entrou até ao fim no mais profundo do nosso ser.
A sua oração é também a nossa oração.
E é por isso que todas estas coisas que te pedimos, pedimo-las não no nosso nome mas no nome dele.
Ele que até ao fim foi resolutamente solidário de todo o ser humano humilhado e desprezado.
Ele que é o nosso Irmão primogénito ressuscitado de entre os mortos. Ele que já vai à nossa frente.

Dá-nos forças, Senhor.
Aqui confinados, e perante um total desconhecimento do que aí vem,

livra-nos de aspirar a uma libertação enclausurada numa cópia de um passado sem memória e sem criatividade. O que seria uma repetição do mesmo.
Mas será que podemos ter futuro com uma repetição do mesmo?
Tu és o Deus do êxodo, o Deus que já antes tinhas posto Abraão a caminhar em frente.
Sim, Senhor, tu és o Deus da libertação.
Tu chamas as mulheres e os homens para fora de um cativeiro
que encerra a alma na resignação e o corpo no que é pecaminoso.

Cativos de nós mesmos e dos outros
– sim, cativos também de nós mesmos –
pedimos-te que nos abras a brecha necessária para que nos possamos tornar
evadidos libertados e não trânsfugas medrosos.
Aviva, Senhor, a nossa memória para termos presente que a tua Páscoa em Jesus
(vivida liturgicamente este ano nos ecrãs televisivos dos templos desabitados, sem o povo e só o clero)
é uma Páscoa palpitante de vida, uma passagem pessoal e colectiva, do império da necessidade para o país da liberdade e do júbilo…
… e como precisamos nós de júbilo, Senhor!

“Uma pandemia que tem o poder de esvaziar os templos das várias igrejas cristãs…” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Confessamos que temos feito do teu rosto uma caricatura quando te temos confundido a ti
– o Deus vivo e vivificador –
com os deuses mortos e mortíferos guardiães de um moralismo sem moral
e mantenedores de uma ordem que é desordem aos teus olhos.
Temos-te confinado às sinuosas circunvoluções do nosso cérebro,
ele que é uma espantosa oficina onde permanentemente se forjam ídolos.
Agora, aqui confinados, sob a ameaça de uma pandemia que tem o poder de esvaziar os
templos das várias igrejas cristãs, perguntamos a nós mesmos se esta crise não transportará consigo
um enorme desafio ao cristianismo do teu filho Jesus (que transcende as fronteiras institucionais de cada igreja): repensar-se a si mesmo à luz precisamente daquilo que o define: ser de Jesus.
Ele para quem era essencial a pergunta seminal:
“As pessoas dizem que eu sou quem?”
Invade-nos, pois, a convicção: enquanto houver homens e mulheres que se apaixonem
pela pergunta do teu filho, haverá uma igreja (um singular grávido de um plural) na terra.
Que pode até muito bem, em determinadas circunstâncias, ser uma igreja doméstica …
aqui mesmo no confinamento…
Pois não é verdade que nestas semanas que correm, em cada celebração dominical,
as televisões nos dão a ver templos com clero e sem povo?
Senhor: nós cremos que a igreja, como instituição, não só é importante mas é também necessária.
E precisamos que ela continue. Que depois de dois mil anos de erosão da história,
juntamente com muitas interiores infidelidades, ela continue a existir,

parece-nos ser sinal de que ela transporta consigo alguma coisa que é maior do que ela
e que, por conseguinte, a transcende: o Evangelho de Jesus.
Mas, Senhor nosso Deus, a igreja está também, no dizer de Jesus,
“Onde estão dois ou três reunidos no meu nome, ali estou eu no meio deles!”
Que, assim julgamos Senhor,
tanto pode ser uma igreja com clero como uma igreja sem clero.
Ele, o Jesus ressuscitado, no qual cremos que ocorreu uma desfatalização da história,
está lá.
Está lá como o nosso companheiro,
Como aquele que parte e comparte o pão connosco,
a dar sentido às três dimensões das nossas vidas:
– o reconhecimento da memória
– o dilaceramento do luto
– a expectativa da promessa.

Confinados como estamos, caímos no sobressalto de que te temos confinado a ti:
temos feito de ti o Deus de uma única religião,
ou de uma única igreja,
ou de uma única fé,
ou de uma única espiritualidade,
e tu, o Deus cósmico, ficas assim confinado ao espaço de uma única confessionalidade.
Isto é, um Deus confinado às respeitáveis sacristias das nossas igrejas cristãs:
confinado à singularidade exótica de um particular incapaz de se abrir ao universal.

“Temos feito de ti o Deus de uma única religião, ou de uma única igreja, ou de uma única fé…” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Mas, a este respeito, temos de te pedir perdão ainda por uma outra coisa.
Infinitamente melhor do que nós tu sabes que no mundo dos deuses dos antigos gregos,
o grande Zeus, despeitado com Prometeu por este ter usurpado o fogo divino, lhe infligiu
penoso castigo.
Pois bem: nós temos-te confinado às dimensões de um Zeus invejoso de Prometeu
(isto é, de um Adão emancipado do não-conhecimento ao conhecimento,
da não-consciência à consciência, dos olhos fechados aos olhos abertos),
incapazes de compreender que na seminal história do Adão bíblico,
tu assumes as dimensões cósmicas do Iahvé da Bíblia hebraica
e que em Adão tu pronuncias a tua bênção sobre a criação inteira!
Sim, Senhor, o Iahvé da Bíblia hebraica, tu, tem uma paixão:
a liberdade do homem.

Tu, o Deus infinitamente livre, na liberdade que é a tua, és sempre o mesmo Deus libertador,
– quer quando nos chamas à submissão que é serviço e nós entendemos ser resignação
– quer quando nos convocas à obediência que confundimos com subserviência
– quer quando te mostras intransigente e nós não vemos nessa intransigência o factor responsabilidade, sem o qual não passamos de artífices do nada
– quer quando tu nos libertas da opressão do destino, sem nós vermos nisso uma chamada para que nos comprometamos na submissão do amor

 

Tu sabes, Senhor, como somos diferentes uns dos outros.
Há aqueles que temem a noite e aqueles que a adoram para se sentirem eles mesmos;
há aqueles que se sentem melhor entre os desconhecidos do que entre os seus familiares;
há aqueles para quem é suficiente falar-se em família, paróquia, religião para ficarem amofinados, enquanto para outros são palavras de referência essencial para a sua identidade;
há os adolescentes nunca maduros;
e há-os maduros permanentemente adolescentes;
e há-os nem uma coisa nem outra;
há-os cativos do seu tablet e há-os que nem tanto;
há-os simples ao ponto de parecerem superficiais;
e há-os superficiais ao ponto de parecerem simples.

“Há-os simples ao ponto de parecerem superficiais…” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Quão complicados somos todos!
Um é qual criança que experimenta a necessidade de se bambolear no peito da mamã
e de olhar para o pai na ponta do dedinho;
outro, julgando-se emancipado, olha superiormente para essas coisas.
Mas talvez todos, no meio de tudo isso, experimentem,
ainda que de uma maneira diferente uns dos outros, a necessidade da segurança:
um pouco assim como quando se é estranho numa cidade desconhecida,
experimentamos a necessidade de um endereço,
um papel onde o nosso nome esteja inscrito e nos proteja da nossa insignificância,
uma família com quem nos relacionamos, uma igreja ou um clube onde possamos ir.

Senhor,
ao aceitarmos e vivermos o nosso confinamento como uma medida necessária de segurança,
estamos no cerne de um conflito existencial imenso:
será que teremos cada vez mais, nas nossas sociedades, a necessidade de continuar a
sacrificar no altar da segurança a nossa liberdade individual?
Precisamos de muita força para viver
– uns com os outros e individualmente, já agora e também no futuro –
as mais diversas situações de colisão entre essas duas coisas: a liberdade e a segurança.
É que todos nós queremos, ao mesmo tempo, ser livres e estar seguros.

E qual é a segurança que, no meio das nossas diferenças, o confinamento nos pode dar?
Ajuda-nos, Senhor, para que no meio dessa nossa ignorância possamos viver positivamente a reclusão. Que esta não anestesie em nós a esperança de que precisamos.
Deus de todos nós: precisamos de um horizonte de esperança para viver
quando tudo parece conspirar contra isso.
É assim como se a esperança estivesse a pôr em causa a esperança, numa conspiração surda.
Que porta se nos pode abrir?
Oramos pelo mundo da política: sem ela como podíamos viver?
Que ela seja exercida com a nobreza de que se deve revestir.
Oramos por todos os que trabalham como profissionais da saúde: médicos, enfermeiros, etc.
Oramos pelos jornalistas, pelo mundo da informação.
Oramos pelos trabalhadores de todas as áreas.
Oramos pelas escolas, universidades, professores.
Oramos pelas religiões e pelos religiosos.
Que mais pedir, Senhor, tu sabes…
Agonicamente (e tu sabes Senhor o quanto a palavra agónico fala de luta), agonicamente
perguntamos a nós mesmos se se cumprirão mesmo as palavras que se ouviram no
campo da poesia/filosofia há já mais de um século:
“Lá, onde cresce o perigo, também emerge a salvação.”
E também surgem em nós, como um sobressalto, palavras outras de há uns sessenta anos,
numa altura de desconcertante crise, também elas provindas da filosofia:
“Só um Deus nos pode salvar.”
Senhor nosso Deus: na situação em que nos encontramos será que é assim mesmo?
Tu sabes que nós não sabemos, Senhor.
Mas cremos – e queremos crer com todo o nosso coração, e com o que há de mais profundo nas nossas entranhas – que tu sabes. E isso nos basta. Cremos em ti.

Senhor,
nós não te pedimos que nos poupes às canseiras, mas que nos dês as forças para as suportar;
nós não te pedimos que nos livres das inquietações, mas sim que nos salves da nostalgia;
nós não te pedimos que nos retires do mundo – deste mundo que tu amas – mas sim
que não fiquemos cativos do imundo (esse não-mundo) com as suas fatalidades;
nós não te pedimos que tornes tudo claro à nossa volta, mas sim que abafes no mais profundo de nós mesmos as decepções inconfessadas;
nós não te pedimos que mates em nós o desejo (ele é-nos essencial), mas sim que nos dês a
alegria de descobrir na nossa fraqueza a força para amarmos e compreendermos.
Ajuda-nos, pois, Senhor a sobreviver às nossas tribulações, de tal modo que possamos vir a
confessar a sua dolorosa inocência e a jugular a sua tenaz mordedura

“Reanima em nós o gosto da felicidade (…) como se fôssemos crianças elas que (…) celebram uma festa não programada…” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Reanima em nós o gosto da felicidade
de tal modo que um dia cinzento e deprimente não nos impeça de gestos de alegria
como se fossemos crianças
elas que sabem aproveitar as ocasiões e celebram uma festa não programada.
Ajuda-nos a viver o inesperado, celebrando-o como portador de coisas novas,
coisas que podem manifestar-se como desfatalizantes do que julgávamos inevitável.
Coisa difícil te pedimos com esse rogo!
Pois não somos todos nós, de um modo ou outro, seres quezilentos e graves,
egocêntricos e irascíveis, deprimidos e nostálgicos?
Mas não estamos a pedir-te que instiles nos nossos corações
um optimismo feito de leviandade.
Estamos, Senhor, a pedir-te que nos libertes tanto de um optimismo irresponsável,
como de um pessimismo mortal.
É que, perante um inimigo desconhecido, qual o nosso,
e envolvidos numa guerra absurda, qual a nossa,
noções como as de pessimismo e optimismo emergem estilhaçadas.

Senhor, tu sabes infinitamente melhor do que nós, como o dia a dia que estamos a viver
está ferido por uma lógica do absurdo.
Ajuda-nos, Senhor, neste labirinto mortal!
Ajuda-nos a ser felizes com humildade.
Ajuda-nos a compreender que a Páscoa está já na Sexta-feira santa,
e que a Sexta-feira santa está já na Páscoa transfigurada.
Ajuda-nos, Senhor, na transfiguração valorativa do momento!
O Crucificado é o Ressuscitado. O Ressuscitado é o Crucificado.
Tu, Senhor, não és um malabarista da circunstância, nem um demiurgo do nada:
confessamos isto não porque o tenhamos descoberto por nós mesmos,
mas porque foi assim que tu te deste a ver no teu filho Jesus.
Sempre, sempre que era confrontado com perguntas, respondia de um modo onde não havia
respostas directas: o seu desejo era levar os interlocutores a pensarem reorientando o pensamento.
É assim, Senhor, que tu ages.
Tu não queres que fiquemos cativos do fantasmagórico: tu ages por interrogações para nos
conduzir à surpresa da fé.
Se assim não fosse, então facilmente se compreenderia que os descrentes tratassem os
crentes como crédulos e os incrédulos como racionais.
Nele, no Jesus que assumiu a carne da história, tu estavas presente de uma maneira única:
fazendo da nossa história a tua história, e da tua história a nossa história.
Ele que abriu uma brecha no céu das nossas ignorâncias,
e que habitou a terra das nossas histórias.
Assim se manifestou, e manifesta, a tua humanidade.

“para que nos dias cinzentos não vejamos tudo cinzento…” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Senhor,
cada um de nós é o mesmo em cada dia. E, contudo, cada um de nós muda.
Há dias em que vimos a ti felizes:
que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça da não-euforia, para que nos dias cinzentos não vejamos tudo cinzento;
há dias em que vimos a ti crentes:
que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça de não nos julgarmos como detentores de uma fé sem sombra de dúvida, para que nos dias da incredulidade não percamos de vista que a fé também pode lá estar;
há dias em que vimos a ti odientos:

que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça de uma reaprendizagem do amor, de tal modo que o fogo dos nossos rancores deixe de ser alimentado com as nossas achas;
há dias em que vimos a ti invejosos:
que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça de uma ascese capaz de nos libertar
da cobiça que da inveja é mãe;
há dias em que vimos a ti obsessivos:
que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça de um Sol aureolar capaz de espancar
as trevas de que somos cativos;
há dias em que vimos a ti mal dormidos:
que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça de o mal dormido não se converter em mal vivido;
há dias em que vimos a ti piedosos:
que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça de nos dares um abanão para nos lembrar
que há uma piedade enganosa;
há dias em que vimos a ti pessimistas:
que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça de uma tomada de consciência de que
o bem e o bom não emigraram deste mundo e ainda há a quem amar, ainda há sonhos não cumpridos neste mundo em oposição ao imundo (que é o não-mundo);
há dias em que vimos a ti solitários:
que nesses dias, Senhor, nos concedas a graça de não perdermos de vista que este mundo
não deixou de estar habitado por uma pluralidade enriquecedora:
ainda há a política sem a qual uma sociedade não pode viver
ainda há a ética, essa fantástica palavra que fala grego (habitar o mundo e ser-se habitado
pelo mundo) e que surge e ressurge em cada tempo de crise
ainda há igrejas
ainda há religiões
ainda há, Senhor, Jesus Cristo, o grande desfatalizador da história
ainda há ateus, Senhor, e precisamos uns dos outros
ainda há agnósticos a lembrarem-nos a necessidade de termos não apenas convicções,
mas também espírito crítico;
ainda há escolas, universidades, economia, medicina, justiça, mulheres e homens que se
apaixonam.
E, sobretudo, há uma CRIANÇA que nasce.

“há dias em que vimos a ti solitários…” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Senhor: que coisa melhor podemos receber de ti senão a força para,
no meio da diversidade deste mundo que tu amas,
dizermos não ao maniqueísmo e sim ao desafio do que é plural?
Pedimos-te, Senhor, que alargues o espaço das nossas tendas: que a tenda das ideias de cada
um não se contraia num deplorável fanatismo e saiba viver a tolerância.

Ensina-nos, Senhor, a compreender a palavra limites e a palavra fronteiras.
Há os limites que têm a ver particularmente com cada um de nós.
E há as fronteiras que têm a ver também com os outros.
Com efeito, cada um de nós tem uma particularidade:
um país que de um modo especial é seu; uma família a que pertence; um amor que vive; uma fé ou ausência de fé; um nome único; um código genético.
Tu sabes, Senhor, que essas particularidades, e outras mais, podem arrastar consigo limites.
Pedimos-te, pois, que nos ajudes a habitar, a viver e a amar esses limites:
se não os habitamos, nem os vivemos, nem os amamos, como podemos ser
árvores plantadas junto a ribeiros de águas?
Se assim não for, em vez de árvores não seremos senão juncos que, agitados pelos ventos, vão em todos os sentidos.
Mas neste tempo de confinamento também não podemos ficar confinados aos nossos limites.
É que além dos limites há também as fronteiras: as fronteiras em relação aos outros
e as fronteiras na interioridade de cada um de nós.
Há as fronteiras das nações; das culturas; das classes e das raças; da fé e da descrença, essas
duas coabitantes de cada crente.

“Senhor: ajuda-nos a transpor as nossas fronteiras contigo!” Foto © Miguel Beirão da Veiga

 

Ora, Senhor, queremos pedir-te isto: que sem deixarmos os nossos limites
– precisamos deles para sermos quem somos –
sejamos capazes de atravessar as nossas fronteiras no reconhecimento do outro.
Pois não és também tu o Deus surpreendente que rompes o confinamento em que nós
te temos encerrado (Deus de um único povo, Deus de uma única religião, Deus de uma única
igreja) e vais e envias até aos confins da terra, até aos confins da existência de cada
mulher e de cada homem?

Senhor: ajuda-nos a transpor as nossas fronteiras contigo! Sim, contigo!
Ajuda-nos a transpor os confinamentos religiosos que temos fabricado por nós mesmos
e contra ti.
Liberta-nos desta esclerose mortal, num mundo, o nosso, à procura de si mesmo,
no labirinto de um desnorte que, no fundo, vive em registo trágico (miticamente)
a sua sede de sentido!

Carcavelos, abril de 2020

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