E como se vive o Natal para lá das grades de uma prisão? Sendo um dos universos que a sociedade portuguesa teima em estigmatizar e em não querer ver e conhecer, o 7MARGENS convidou alguns reclusos a testemunhar como é viver o Natal na condição de reclusão. Recorrendo à intermediação de voluntários da pastoral prisional católica, recolhemos cinco curtos testemunhos nos estabelecimentos prisionais de Custóias (Porto) e de Bragança.
Durante esta semana do Natal, publicamos um testemunho por dia, que nos ajuda a perceber que nas prisões moram pessoas e não proscritos, que ali se sofre e se acredita, que ali se vive a gratidão e a reflexão consciente sobre passados de erros e frustrações e sobre futuros que se esperam diferentes – e melhores.
Colocar por escrito a forma como sinto o Natal em reclusão é um exercício duplamente difícil, na justa medida em que, se por um lado controlar o pensamento e as emoções já se revela algo complexo, passar a escrito tais pensamentos e emoções, conferindo-lhes uma forma mais consolidada e perene, é algo mais desafiante.
Mas, sem violentar a minha identidade e com a reserva que entendo por adequada, aceito o convite e nas próximas linhas tentarei ser fiel a algumas das minhas sucessivas reflexões, em particular ao Natal vivido no cárcere (este é o meu segundo e último…).
Vamos então à questão, manuscrita ao correr da pena e ao fluir do pensamento.
Começo por uma breve “manifestação de interesse”, qual seja o facto de este escriba e sua família nuclear (três filhos, seus cônjuges, seis netos – os dois mais novinhos sem permissão de os conhecer a não ser por fotografia – e a minha companheira de vida por mais de quatro décadas) viverem tradicionalmente o Natal com intensidade, na perspetiva familiar, mas tentando manter o distanciamento possível da materialidade da sociedade de consumo, privilegiando a harmonia do convívio, o carinho na confecção da ceia e do almoço natalício e a partilha de conversas entre todos; temos todos presente, enquanto família, que o grande desafio (por vezes falharemos) será o de viver o Natal em cada dia do ano, como quem celebra o dom da vida, independentemente do seu dia de aniversário.
Dito isto, convido quem ler este testemunho a ingressar “comigo” na prisão; sim, meus caros, ingressar na prisão, ser encarcerado, desprovido do próprio nome e apelidos, que passam a inexistir (eu passei a ser o “87”). Mas quando reflito acerca da forma como sinto e vivo o Natal na prisão, ocorre-me uma figura algo “esquizofrénica”, não no sentido patológico ou clínico, mas na forma ou formas como o Natal – se quisermos, a quadra natalícia – é por mim vivida e interiorizada, no contraste entre a dureza da realidade física da infraestrutura, da sua frieza, muito corporizada na insensibilidade e “dureza” do corpo prisional, duma ceia de Natal cujo aspecto distintivo será a toalha nas mesas e um “bacalhauzinho” um nadinha menos transparente e – luxo – duas ou três batatinhas cozidas com azeite diluído em óleo mais um ou outro complemento adocicado. Por contraponto mantenho e posso dar aso à liberdade de pensamento e à capacidade de, ainda que virtualmente, me transpor e imaginar com os meus, no convívio, abraços e miminhos dados e recebidos.
Esta viagem virtual que me alimenta o espírito e me permite, convicto de que estarei igualmente presente na mente dos meus amados, manter, na singular tristeza do cárcere, a luz do amor, dos laços afectivos, ou seja, do Natal.
No entanto, apesar desta “liberdade”, alguns momentos de fraqueza são inevitáveis e acabam por emergir; e aí uma outra luz faz-se anunciar: a Luz da Fé.
No caso deste E.P. de Custóias, sinto-me no dever de testemunhar na primeira pessoa o papel relevante que a acção da pastoral, com a prática e celebração religiosa, plena de dedicação (Natal é todo o ano…), no apoio, e palavra e escuta amiga e permanente incentivo à evolução pessoal enquanto cristão e crente, teve, tem e terá na manutenção do meu equilíbrio pessoal, facto que contribui para que possa ter um melhor Natal.
Concluindo, o Natal no cárcere é deveras duro e difícil, física, mental e espiritualmente, mas vou procurar vivê-lo, junto desta “família provisória” de onze homens, na minha camarata, tentando fazer com que o espírito do Natal, do amor incondicional de Jesus, do amar o próximo como a mim mesmo, possa manifestar-se entre esta “família”, nem que seja por um só dia… E já acontecerá o milagre do Natal!…










