[Os dias da semana]

Uma palavra do ano

| 3 Jan 22

A nossa resiliência foi posta à prova nesta pandemia. Foto © Vladimir Fedotov | Unsplash

 

Escolher a palavra em que melhor se pode encaixar um ano é uma prática comum em diversos países. Em Portugal, tem sido a Porto Editora a dinamizar esse exercício, que possibilitou que, até sexta-feira, 31, se pudesse seleccionar uma de entre dez palavras para definir 2021. A vencedora será anunciada nesta terça-feira, 4, e pode ser que a escolha recaia sobre um termo que a Física ofereceu à Psicologia. A resiliência é, na Física, como indica o Dicionário Houaiss, “a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica” e, portanto, na psicologia, é a capacidade humana de se recompor de um trauma.

Deve-se ao neurologista, psiquiatra e psicanalista francês Boris Cyrulnik a popularidade de que a palavra beneficia. O autor de Resiliência. Essa inaudita capacidade de construção humana, obra editada em Portugal pelo Instituto Piaget, deu este ano uma entrevista à revista XL Semanal, distribuída ao domingo com diversos diários espanhóis, sobre o trauma que tem sido a crise mundial de saúde pública e sobre a maior ou menor dificuldade de, no final, nos reconstruirmos.

A pandemia não nos deveria surpreender, observa Boris Cyrulnik. Trata-se da “história do eterno retorno”. Recorda ele que “a primeira morte por epidemia foi no Neolítico, quando começámos a acumular os excedentes de alimentos da agricultura e aos celeiros chegaram os ratos, cujas pulgas transportavam o bacilo da peste. A peste negra que matou um em cada dois europeus, a partir de 1348, foi produto da velocidade. Encurtou-se a viagem das caravanas da Rota da Seda, levando a carga de barco de Antioquia até Marselha. E os ratos iam nesses barcos”. Hoje, nota Boris Cyrulnik, a gripe é propagada por aves e por porcos criados amontoadamente. “Com a pandemia, percebemos que o homem não está acima da natureza. Somos parte do ecossistema, não os donos.”

Perante esta constatação, explica o entrevistado, há três hipóteses: “Uma é seguir como estávamos. E então, de poucos em poucos anos, aparecerá uma nova combinação de genes que formará um novo vírus. Se continuarmos como até agora, espera-nos um século de epidemias. A segunda é encomendarmos um ditador que nos prometa soluções fáceis. A terceira é fazer mudanças profundas na nossa maneira de viver”.

Para o autor de Resiliência, estamos a viver algo mais profundo do que uma crise, estamos a experimentar “uma catástrofe”. “Mas a palavra ‘catástrofe’ vem do grego. Significa ‘dar a volta’. A sua origem é o teatro. Ao chegar o final da obra, uma reviravolta inesperada surpreende o espectador. O trauma dever-nos-ia incentivar a explorar caminhos surpreendentes”.

Um dos rumos sugeridos, não sendo propriamente surpreendente, é avisado: “Temos a oportunidade de mudar a nossa maneira de consumir. Talvez pudéssemos ter uma pecuária menos extensiva, comer menos carne, fazer com que a economia europeia seja mais local”. De facto, “talvez seja chegado o momento de importar menos da China e fabricar mais na Europa”. Boris Cyrulnik preconiza ainda que se redescubra a lentidão, deplorando que a mudança climática tenha eliminado as estações do ano, que a pressa tenha apagado os rituais e que a urgência sanitária tenha eliminado o luto.

As propostas incluem um ensino menos competitivo. “Em alguns países do norte da Europa já não se dá notas aos alunos antes dos 11 anos”. A ausência de classificações faz com que as crianças ganhem em confiança e auto-estima.

A candidata a palavra do ano foi, obviamente, mencionada na entrevista que Boris Cyrulnik concedeu a Carlos Manuel Sánchez. “A resiliência nunca é individual, é uma habilidade social”. Para o neurologista, não pode haver resiliência na solidão. “A neurociência mostra que o cérebro é moldado pelo ambiente e se perdemos o contacto com o ambiente ou se o ambiente é caótico, o cérebro funciona mal. O confinamento protege-nos contra o vírus, mas é uma agressão psicológica, é inclusivamente uma agressão neurológica pelo isolamento sensorial”.

A conversa sobre resiliência não descurou uma pertinente observação: “Demos o estatuto de heróis àquelas pessoas que cuidam de nós, mas não as protegemos, nem lhes pagamos como merecem. Quando uma sociedade tem necessidade de que os seus cidadãos se convertam em heróis, algo não funciona”.

Bom Ano.

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