Uma Páscoa judaico-cristã em Castelo de Vide

| 16 Abr 19

Comprados pela manhã, os cordeiros são, de imediato, mortos às portas de casa. O sangue é benzido em forma de cruz, sendo as peles e as vísceras menos nobres dos animais remetidos para a cozinha, para acudirem ao sarapatel, a iguaria que os castelvidenses mais apreciam nesta Festa das Flores. Foto © Hélder Ferreira

 

Naquela tarde, a imagem da Senhora da Soledade que seguia na procissão de Sexta-Feira Santa, carcomida pelo caruncho de séculos, desmoronou-se e caiu, estatelando-se pelo chão fora. Um clamor de piedade perpassou pelo povo crente e pelos turistas, que sempre acodem em grande número às festas da Páscoa, em Castelo de Vide.

Apesar do incidente, que poderia lançar presságios de tempos de vingança divina – uma teoria obsoleta sem qualquer consistência teológica – depressa chegou o ansiado Sábado de Aleluia.

Em Sexta-Feira Santa, guardam-se, nesta vila, o jejum e a abstinência, como mandam as leis da Igreja Católica. Os únicos sacrificados naquela noite de mau agoiro foram os peixes do rio Sever, envolvidos numas saborosas migas, originárias deste Alto Alentejo. Pela manhã de sábado, ouviam-se já, junto à igreja matriz, os balidos ternurentos e inseguros dos cordeiros, apertados no atrelado de um velho camião.

Esperavam-se as “bendições” do pároco a presidir à liturgia pascal, que haveriam de chegar em meio de uma chuva impenitente. Começavam, assim, nesta vila notável de quatro mil habitantes, as notas de um ritual a aproximar os costumes judaicos, expressos ao longo de mais de 500 anos de história em comunidades de cristãos-novos, foragidos à perseguição que se fazia sentir do outro lado da fronteira: comprados pela manhã, os cordeiros eram, de imediato, mortos às portas de casa. O sangue era também benzido em forma de cruz, sendo as peles e as vísceras menos nobres dos animais remetidos para a cozinha, para acudirem ao sarapatel, a iguaria que os castelvidenses mais apreciam nesta Festa das Flores.

 

“Ver aparecer o Aleluia”…

“Uma cascata de sons de chocalhos irrompe, então, em competição com as vozes e os acordes das bandas, num ruído ensurdecedor. Foto © Hélder Ferreira

 

Há colchas nas janelas, na praça central. Ao cair da noite, agita-se o povo, em volta da igreja, à espera que se dê início à vigília de ”ver aparecer o Aleluia”.

E não se esquecem os chocalhos que os animais usam nas lides agrícolas. Quando o celebrante, de paramentos brancos, entoa o canto do Glória, uma cascata de sons de chocalhos irrompe, então, em competição com as vozes e os acordes das bandas, num ruído ensurdecedor. A primeira refrega sonora numa noite que há-de ver fim, sem stress, lá pela madrugada, regada com vinho da região. O gesto da paz que se propõe aos crentes dentro da missa é levado, como nunca, a sério, com promessas de perdões mútuos.

A explosão de alegria que ali é produzida, na noite de Sábado Santo, estende-se até ao Domingo de Páscoa. De tarde, a procissão da Páscoa ocupa lugar de grande solenidade. Será momento único no país. O poder civil toma dianteira ao poder religioso e, com todas as forças vivas da vila, juntos, percorrem de pendões e estandartes nas mãos, as ruas animadas pelas desempoeiradas fanfarras.

Ao toque dos sinos da igreja, e dos que o edifício da Câmara Municipal também possui, apresentam-se, oficialmente, a todos, os cumprimentos de boas festas pascais.

 

Há 44 anos foi o tumulto…

A memória é-me trazida pelo comendador Carolino Tapadejo, de 71 anos, provedor da Misericórdia e antigo autarca de Castelo de Vide. No país, corriam os dias exaltados do pós-25 de Abril de 1974…

Não cuidando o pároco de acordar com o povo as alterações que decidira introduzir no começo das  cerimónias litúrgicas – a democracia dava ainda poucos sinais de vida –, houve uma reação tal entre os forasteiros daquela Páscoa judaico-cristã que os tumultos, a vozearia e as agressões não se extinguiram por longos minutos, querendo, os mais inflamados, dependurar o padre, numa árvore, com um cinto de calças mais abonado.

Foi necessário recorrer ao então Copcon, as forças militares anti-motim organizadas por Otelo Saraiva de Carvalho, para que a acalmia descesse ao povoado. Ficou, assim, a noite de “ver aparecer o Aleluia” daquele ano, encalhada na disputa entre o poder religioso e a agitação política reinantes.

Em cada ano, entretanto, regressam os sinais do tempo e da fé que repõem, nesta terra de judeus e cristãos, os ventos de uma história multicultural.

 

(Este texto é inspirado na reportagem de rádio sobre a Páscoa judaico-cristã realizada em Castelo de Vide e disponível aqui).

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