O périplo africano do Papa Leão XIV constitui no momento atual motivo de séria reflexão, pela importância do gesto apostólico, cívico e político e pelos apelos muito exigentes feitos nas intervenções que produziu. Lembrou, assim, antes do mais que “a África é, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperança, que não hesitaria em definir como virtudes “políticas”, porque os seus jovens e os seus pobres ainda sonham, ainda esperam, não se contentam com o que já existe, desejam reerguer-se, preparar-se para grandes responsabilidades, empenhar-se na primeira pessoa. A sabedoria de um povo não se deixa esmorecer por nenhuma ideologia e, realmente, o desejo de infinito que habita o coração humano é um princípio de transformação social mais profundo do que qualquer programa político ou cultural”. De um modo muito claro e corajoso, o Papa lembrou “quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta uma lógica extrativista! Em todas as partes do mundo, vemos como ela, no fundo, alimenta um modelo de desenvolvimento que discrimina e exclui, mas que ainda pretende impor-se como o único possível”. Usando palavras que contrastam com o “espírito do tempo”, lembrou Paulo VI e a Encíclica “Populorum Progressio”, quando falava do “aspeto senil – totalmente anacrónico – de uma civilização comercial, hedonista, materialista, que ainda tenta passar por portadora do futuro».

Aclamações de fiéis ao Papa Leão XIV em Saurimo, Lunda Sul (Angola), na missa ali presidida pelo Papa em 20 Abril 2026. Foto reproduzida da página do FB do Governador Gildo Matias José.
Graças a sabedorias muito antigas, “a África tem uma necessidade urgente de superar situações e fenómenos de conflitualidade e inimizade, que dilaceram o tecido social e político de tantos países, fomentando a pobreza e a exclusão. Somente no encontro a vida floresce. No princípio, está o diálogo. Este não exclui a divergência, que pode tornar-se conflito. Como ensinou o Papa Francisco na Exortação “Evangelii gaudium”: «Perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projetam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a unidade torna-se impossível”. Mas há uma outra forma de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. «Felizes os pacificadores». Daí o discurso eminentemente positivo de Leão XIV, segundo o qual “Angola pode crescer muito, se, em primeiro lugar, vós, que detendes autoridade no país, acreditardes na multiformidade da sua riqueza”. E a palavra serena do Papa lançou o desafio: “Sabei gerir conflitos, transformando-os em caminhos de renovação. Colocai o bem comum acima das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo. Então, a história dar-vos-á razão, mesmo que, no imediato, alguns vos sejam hostis”.
Sem margem para ilusões, o Sumo Pontífice deixou a um tempo a prevenção relativamente aos recursos mal aproveitados, ao risco de corrupção, bem como à ganância extrativista e à lógica transacional. “Juntos, podeis fazer de Angola um projeto de esperança. A Igreja Católica, cuja obra de serviço ao país sei o quanto estimais, deseja ser fermento na massa e promover o crescimento de um modelo justo de convivência, livre das escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias”. Ao ouvir estas palavras, lembrámo-nos de D. Alexandre do Nascimento, o grande Cardeal que é um verdadeiro exemplo para as terras angolanas. E com sentido profético a Papa acrescentou: “Só juntos poderemos multiplicar os talentos deste povo maravilhoso, mesmo nas periferias urbanas e nas regiões rurais mais remotas, onde pulsa a sua vida e se prepara o seu futuro” Com efeito, urge eliminar “os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, lutando e esperando com aqueles que o mundo rejeitou, mas que Deus escolheu. Foi assim, na verdade, que surgiu a nossa esperança: A pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular”.
Mas nesta viagem histórica, ficam-nos ainda os ecos da presença ecuménica de Leão XIV na Grande Mesquita de Argel: “Nesta tarde, rezo por vós, pelo povo da Argélia, por todos os povos da terra, para que a paz e a justiça do Reino de Deus se tornem presentes também entre nós, e para que todos nós estejamos cada vez mais convencidos da necessidade de sermos promotores da paz, da reconciliação, do perdão e daquilo que é verdadeiramente a vontade de Deus para toda a sua criação”.

Papa Leão XIV durante a visita à Grande Mesquita de Argel, no primeiro dia da sua visita à Argélia, 13 de Abril de 2026, numa viagem que o levará ainda aos Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Imagem captada da transmissão vídeo dos canais oficiais.
Numa conjuntura de guerra, intolerância, de incompreensão e de incerteza, ouvimos da boca de Leão XIV estas palavras: “Neste lugar (o memorial do mártir Maqam Echahid na Argélia), recordamos que Deus deseja a paz para todas as nações: uma paz que não é apenas ausência de conflito, mas expressão de justiça e dignidade. E esta paz, que permite enfrentar o futuro com o coração reconciliado, só é possível através do perdão. A verdadeira luta pela libertação só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações. Sei como é difícil perdoar. Todavia, enquanto os conflitos continuam a multiplicar-se em todo o mundo, não se pode acrescentar ressentimento ao ressentimento, de geração em geração. O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz. Por fim, a justiça triunfará sempre sobre a injustiça, e a violência, apesar das aparências, nunca terá a última palavra”.
Num tempo em que ouvimos palavras de ódio e ressentimento, a voz do Papa é encorajante, mas cada vez mais difícil, perante a cegueira e a indiferença. Eis por que teremos de serenamente ouvir estes ensinamentos, sabendo interpretar os sinais dos tempos à luz de uma corajosa determinação, mesmo que os tempos imediatos pareçam estar muito longe desta esperança. Mais do que respostas imediatas, impõe-se a que a dignidade humana prevaleça, como Leão XIV bem recordou ao evocar a perenidade da mensagem de Santo Agostinho de Hipona.
Guilherme d’Oliveira Martins é presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura.
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