Uma peregrinação interior com “Triságia”

| 5 Dez 2020

Ao percorrer as páginas do livro Triságia, fi-lo em diferentes modos, ritmos e olhares, numa cadência que passou pela curiosidade, atravessou a espessura do desconhecido e mergulhou na profundidade. Primeiro, o livro ficou à espera, à minha espera em cima da mesa, junto de outros livros não lidos. De vez em quando deitava de soslaio o olhar àquela capa manchada de tinta alilasada. O título Triságia empurrava-me para o dicionário, mas tinha preguiça de procurar. Aliás, quando falei do livro a uma amiga, a pergunta saltou: Que significa essa palavra?

Aquele título desconhecido fez-me adentrar e, tal como Moisés diante da sarça que ardia sem se consumir, descalcei as sandálias e deixei-me conduzir. Sentei-me e comecei a folhear aquelas páginas densas, devagarinho, como se de um ritual se tratasse. De facto, não podemos apressar a leitura. Senti em mim a mesma sensação que me assola sempre que me coloco em oração diante de um ícone. Não é à primeira, nem à segunda que se entra. É preciso esperar ali, no sossego, de mãos e mente vazias. Aguardar no silêncio junto do umbral até que a janela se abra e se dê início a um diálogo não conhecido. Folheara apenas…

No dia seguinte sentei-me de novo e abri o livro com aquela sensação de que ele me esperava com ansiedade. Agora, já não ao ritmo do folhear, mas do contemplar… Eu que tantas vezes rezara ao “Menino e sua mãe” (expressão de Mateus no seu evangelho da infância), diante do ícone de Nossa Senhora da Ternura, de Vladimir, eu que visitara o original e a história das suas vicissitudes, eu que animara um workshop sobre ele e convidara imensas pessoas a contemplá-lo, entro no livro e deparo-me, nas primeiras páginas, com um condensado de todas estas vivências na expressão faseada do ícone dada pela iconógrafa Lisa Sigfridsson. A escritora convida a olhar… É preciso um olhar contemplativo, um olhar que vê sem ver, um olhar que se deixa guiar pelo mistério do inacabado. Um olhar que revisita os cânones iconográficos da Tradição, mas abre à dimensão do ainda não. É de facto o ícone de Vladimir que os meus olhos viram tantas vezes?

Descalcei-me outra vez e continuei nesse processo de adentramento do livro. A sua leitura não se possui, aponta para uma sabedoria do fruir, do saborear, com horizontes abertos de significados. Ouço o murmurar das palavras que dançam e cantam o ícone: a lenda, a história, os materiais, a liturgia, a brandura daquele que balbucia uma oração, “Por teus olhos abertos à ternura fecha os meus” e uma aclamação (triságia), “Santa Mãe, Santa amiga de carinho, santa rainha vacila de ternura por nós”. Ah, o título…

É preciso tempo, muito tempo e silêncio para entrar num livro que dança ao ritmo de toda a Criação. Fica o eco das histórias de avós aos netos e a palavra do teólogo que ilumina a fundura do ícone. Fica a beleza, a cor sem contornos. Fica o murmúrio no fundo da alma, “Como és bela lâmpada dos meus olhos!”

Triságia, espanto e assombro… Desejo de voltar mais uma vez a adentrar-se no mistério do indizível.

 

Triságia, de Joaquim Félix de Carvalho
Ed. Seminário de Nossa Senhora da Conceição – Braga
108 pág., 17 euros
O livro está disponível para encomendas na Livraria Diário do Minho.

 

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