O mal tem sempre uma origem espiritual.
(Fiódor Dostoievski, Os Irmãos Karamazov)
Um escritor, como um cantor e um
pintor é sempre a voz de qualquer coisa
que está latente nas pessoas.
(António Lobo Antunes, in O Diário, 1980)
Loghismoí («pensamentos inebriantes ou entontecedores», pensamentos, sentimentos e memórias que assaltam a mente, surgindo frequentemente sem aviso prévio), Evágrio o Pôntico (346-399/400 d.C.), Apocalipse, Jesus Cristo (séc. I d.C.), Giancarlo Pavanello (1944) para invisuais que somos ou em que nos tornamos. Alguns destes vocábulos, livros, nomes próprios ou experiências estético-espirituais serão, porventura, quase desconhecidos ou pouco relevantes para a vida de muitos de nós aqui reunidos. Mas o que conta é que todos eles, a seu modo e no seu tempo, foram aquilo a que poderíamos chamar de espeleólogos do espírito humano, pois cartografaram a anatomia da alma humana, das suas virtudes e defeitos, não como denúncia acusatória, mas com a força da palavra e do gesto, para iluminar a vida dos seus contemporâneos.
Procurarei, com esta minha modesta prelecção, simplesmente traçar a génese cultural do loghismoí do Apocalipse, a partir de dois ou três exemplos, inserindo aí, na expressão cultura destas duas dimensões da existência humana, a perspectiva e originalidade desta exposição. Para uma aproximação mais filosófico-fenomenológica, remeto para o meu contributo patenteado no belíssimo catálogo desta exposição, que será apresentado no próximo dia 30 de Março.
I – “Apocalypse Now”, entre o fim dos tempos e o tempo do fim

Apocalypse Now: “A expressão sintomática de um apocalipse a acontecer já.” Foto de promoção do filme: Direiros reservados.
Apocalypse Now (1979), de Ford Francis Coppola, com a interpretação irrepetível de Marlon Brando, com as vestes do coronel Kurtz, considerado aos olhos de hoje, talvez já não se trate de simples science-fiction, nem da estéril discussão de ser pró-guerra ou antiguerra. A guerra do Vietname é aqui meramente o pretexto para a expressão sintomática de um apocalipse a acontecer já, da catástrofe iminente ou já em acto, mas também de uma revelação ou des-velação mais profunda, não só de fim dos tempos, mas de um tempo do fim iminentemente a vir.
Para além da guerra brutal, com pano de fundo, que por si só é já um apocalipse (tempo de revelação e tempo de catástrofe), no sentido literal e metafórico do termo, na medida em que é ao mesmo tempo revelação de uma crise maior, a saber, o da potência maléfica da soberba ou do «coração das trevas» humano. Mais do que a guerra em si mesma, mais fundamental será revelar ou desvelar os mecanismos humanos que provocam os apocalipses interiores vários que conduzem à guerra (apocalipse exterior). Se quisermos, trata-se de perceber e de interrogar a necessidade que subjaz à intenção humana de destruição planetária, de barbarização da vida de outrem ou de impor uma supremacia ou hegemonia imperial sobre as outras nações.
O Coração das Trevas (Joseph Conrad) é precisamente um romance assombroso que nos mergulha nas profundezas da selva do rio Congo, na África Central, e do turvo coração humano. Aqui se levanta o véu do inferno da colónia kafkiana, dissecando os limites da experiência humana e dos fantasmas primitivos da luta pela sobrevivência. A fome, a escravatura e a miséria. Barbárie, canibalismo e violência. A subida iniciática do rio não é senão à subida, ou a descida, melhor dizendo, ao Coração das Trevas – aos abismos infernais do ser. Descida ao «Coração do mal» e talvez do Homem. Uma ambiência obscura e tenebrosa atravessada pela morte, que contamina o mundo, e que nos faz respirar o odor dos cadáveres. Um apocalipse teológico, espiritual, social e ecológico a acontecer já, portanto, diante dos nossos olhos impotentes ou anestesiados pela autofagia hiperliberal, que o filme, de certo modo, antecipa e faz ver.

Apocalypse Now: “A guerra que se trava no âmago do coração humano a todos diz respeito e tudo mistura…” Foto de promoção da versão Final Cut do filme: Direiros reservados/Studio Canal.
As palavras finais do coronel Walter E. Kurtz, interpretado por Marlon Brando, no filme Apocalypse Now ecoam fortemente em nós: «O horror… o horror». Mas que grito de «horror» é este? Sussurradas enquanto o coronel Kurtz morre às mãos do seu camarada capitão Willard, estas palavras refletem o reconhecimento das atrocidades que cometeu e a revelação suprema da escuridão da natureza humana. Mas aqui não há o preceito maniqueu, de um lado os bons, do outro os maus, heróis e vilões, pois a guerra, sobretudo aquela que se trava no âmago do ser ou do coração humano, a todos diz respeito e tudo mistura, travestindo, por vezes, o bem de mal, e o mal de bem.
A expressão «O horror… o horror» é como um reconhecimento da sua própria decadência moral e da natureza caótica e insana da guerra. O fim trágico de uma aventura épica tremendamente grega (não nos recorda a actual «Operação Fúria Épica»?), mas agora, homens e mulheres que somos, já não temos nem a memória do regresso de Ulisses (a quem regressar nos fragmentos das identidades) nem a força do reconhecimento paterno (a quem reconhecer como nosso familiar próximo) de uma força divina maior que nos transcenda e redima do mal total que se nos impõe, de dentro ou de fora, porque somos um ser de duas folhas visceralmente interligadas, individual e socialmente, natural e culturalmente.
Porém, este homem de apocalipses ou apocalíptico é também o homem que espera a redenção, a de uma «esperança possibilitante» (António de Castro Caeiro) e reabilitante n’Aquele que era, que é e que será ou continua a ser (Apocalipse 1,4; 1,8), que torna continuamente novas todas as coisas, que faz do fim o começo, ou um outro começo, pois, segundo o teólogo João de Patmos, ele é o Alfa e o Ómega, que ama e liberta o sangue versado das vítimas da história e dos soberbos da destruição humana e cósmica. Esta «esperança possibilitante» não é uma esperança ingénua, mas que, contra toda a intuição comum, resulta de um gesto de lucidez extrema diante do real obscuro, salvando o nosso quotidiano da perdição total.[1]
As provações da dura realidade, sejas elas quais forem, não anulam a esperança, antes pelo contrário, se esperança há ou é possível, ela é suscitada no meio da crise ou da desesperança, como aquela maravilhosa visão de Jeremias que vê nascer um ramo de amendoeira em pleno de inverno, ou então aquele «Quarteto para o fim dos tempos» (1941), notoriamente inspirado pelo livro neotestamentário do Apocalipse ou da Revelação, que Olivier Messiaen (1908-1992) tão sublimemente musicou em oito andamentos, com os instrumentos (clarinete, violino, violoncelo e piano) e músicos que tinha ao seu dispor naquela sua situação desesperante, para ele e os seus companheiros de prisão, estreado diante de centenas de presos e guardas, não sucumbirem a desesperança de um apocalipse destrutivo, no campo de prisioneiros nazi de Görlitz. O próprio Messiaen afirmara que ele nunca foi «escutado com tanta atenção e compreensão» como naquela condição de prisioneiro.
Aqui ressoa-nos intensamente os versos interrogativos de Thomas Stearns Eliot, no seu livro A Terra Devastada: «Que raízes se prendem, // que ramos crescem // Neste entulho pedregoso?»[2] O mesmo significa perguntar que «esperança possibilitante» ou reabilitante do quotidiano humano nos chega ou advém em tempos de escombros ou de crise existencial, política, social, ecológica ou axiológica? Mas que «esperança possibilitante» e reabilitante será esta, se esmagados estamos pelo peso da comunicação sem qualidade e infernal das guerras várias? Escreve Stearns: «Meu amigo, sangue a agitar-me o coração// A tremenda ousadia de um instante de entrega […]».[3] A «ousadia de um instante de entrega» ou de doação de si à escuta da diferença de outrem, eis, talvez, a esperança possibilitante e concreta para uma nova ecologia das relações humanas.
Surpreendentemente, a excelente escritura bíblico-visual da música The End, do grupo norte-americano The Doors, que aparece logo na sequência inicial do filme de Apocalypse Now, remete para esse grito humano diante do caos interior de sentir o nada de nada, mas em busca de uma mão que resgate do inferno de uma «terra desesperada». Ouça, quem puder, e, por momentos, vire-se «para ver a voz» (Apocalipse 1,12) que fala, o grito musical dissonante como se fosse o do pintor norueguês Edvard Munch:
Este é o fim
Meu belo amigo
Este é o fim
O meu único amigo, o fim
Dos nossos planos elaborados, o fim
De tudo o que existe, o fim
Sem segurança nem surpresa, o fim
Nunca mais olharei nos teus olhos
Consegues imaginar o que será
Tão ilimitado e livre
Desesperadamente a precisar da mão de um estranho
Numa terra desesperada?
II – O Apocalipse, entre a ideologia da dromologia e a estética do desaparecimento
O filósofo Paul Virilio, urbanista e arquitecto, que cunhou o nosso tempo como uma sociedade acaparada pela ideologia dromológica (da correria ou da pressa imposta pelas tecnologias da comunicação), diz que o fim do mundo é um conceito sem futuro, pois, apesar de tudo, há duas universidades fundamentais da existência, que é a guerra e a arte, na medida que ambas concretizam, uma por via trágica, outra por via do sublime caos, uma estética do desaparecimento.
Que haverá antídoto então para esta dromologia apocalíptico-destrutiva, seja ele espiritual, sociológico ou cosmológico? O que ele nos revela e desvela seja, talvez, a necessidade de um Desaceleramento, Decrescimento e de uma certa dose de Indisponibilidade (no sentido de não dispor nem de tudo capturar), dirá o filósofo sociólogo Hartmut Rosa, o mesmo se diga, em termos teológicos, despojamento ou desapossamento, para estarmos mais generosamente disponíveis, sobriamente libertos e entrar em ressonância connosco mesmos, com o mundo e com o outro de nós.
Como se não fosse suficiente, em 2025, tive a graça de ver e contemplar uma das mais notáveis exposições na Biblioteca Nacional de França, intitulada precisamente: Apocalypse: Hier et Demain, e não somente hoje, traçando uma génese da ideia de apocalipse ao longo da história do pensamento, da cultura, da literatura e das artes, como um excelente contributo contra todo o tipo de catastrofismo presentista. Ter uma consciência materialmente histórica, não apenas filosófico-literária, permite afrontar com mais serenidade o tempo presente, sem cair nem no imobilismo nem na desqualificação das urgências várias que solicitam do humano a mais alta performance para afrontar a complexidade do nosso tempo. O texto de apresentação desta exposição na BNF sintetizava de modo seguinte a ideia de Apocalipse:
Hoje associada a um imaginário de catástrofe, o Apocalipse foi inicialmente o relato bíblico da Revelação. Através de imagens poderosas – cavaleiros da Apocalipse, dragão, grande prostituta da Babilónia, Juízo Final –, o texto, ao mesmo tempo ameaçador e consolador, evoca a travessia de flagelos para alimentar melhor a esperança de um futuro luminoso. Uma exposição que dava a ver as visões impressionantes do escritor evangélico João, que deram origem a uma imensa tradição iconográfica e literária no Ocidente. Das iluminuras do Beatos de Saint-Sever e da tapeçaria de Angers às aquarelas de William Blake ou às tapeçarias de Kiki Smith, do Patmos de Friedrich Hölderlin ao Apocalipse árabe de Etel Adnan, as obras aqui reunidas permitem compreender como o Apocalipse ultrapassou largamente a sua dimensão religiosa para se erigir num grande mito coletivo do fim dos tempos.
III – Um outro Apocalipse, o olhar “bordeaux” de Pavanello
Por que razão dedicar então uma exposição desta natureza e com esta excelência curatorial, como é a de Pavanello, hoje?[/speaker-mute] [ver 7MARGENS][/speaker-mute]
Mais ainda: por que motivo um artista agnóstico, aparentemente sem filiação religiosa confessional declarada, mas intelectualmente inquieto e aberto às interrogações fundamentais do ser e da vida, a um dado momento do seu percurso artístico, decide expor-se espiritualmente, ou pelo menos, dar a conhecer algo que em si estava religiosamente latente? Que poder de desvelamento próprio ao verbo visual coloca Pavanello nos seus painéis? Que abertura ao ser nos dá a ele a ver e a sentir? O que nos dão a ver estes nove painéis de pintura encarnada dos «pensamentos malignos ou tenebrosos», de uma poética visual que deveio pictórica? O que nos mostra o políptico de sete quadros do regard rouge do artista veneziano Pavanello, de um fundo bordeaux predominante, com técnica mista (têmpera, tinta, marcador indelével) e textos bíblicos escritos em latim?
Esta exposição de Giancarlo Pavanello abre-nos, creio, para a imaginação poética do escritor indiano Rabindranath Tagore:
Como uma planta rodeada de trevas, que se esforça por crescer, como se estivesse em bicos de pés, para encontrar o caminho para chegar à luz, quando qualquer morte lançava na escuridão da negação à volta da minha alma, estava incessantemente atingir a luz da sua realidade. E que outra dor é comparável àquele estado em que a escuridão tenta impedir que se encontre o caminho para chegar à luz? […]. E, tal como o nevoeiro dos montes a desvanecer-se, como os rios e florestas a ficarem à vista, assim a imagem lavada da vida do mundo, aberta à minha frente, parecia ter-se renovado, mostrando-se ainda mais bela.[4]
Esta experiência poética da vida que Tagore nos narra é, no fundo, a experiência visual de Pavanello. Rodeado o mundo de escuridão, de pensamentos malignos e de Apocalipses, ou de apocalipses interiores, de revelação e destruição ao mesmo tempo, de pulsões de vida e de morte, de fúria e de silêncio, a «pena de pavão» de Carlo Pava (pseudónimo de Giancarlo Pavanello), com que tece os painéis ou quadros desta exposição, abre em nós um caminho possível e percorrível para chegar à luz, ainda que por instantes, mas sem evitar a travessia do deserto, a dura ruminação do caroço de azeitona, o sangue das palavras escritas, da finitude do corpo da fala e da presença, da perda ou da ausência total de sentido. Muitas são as dores e gemidos do humano de hoje, muita é a escuridão ou o abismo que impede que o mundo fale em nós e nos fale, tal é a sobreposição do texto biográfico de cada um à alteridade da vida.

Exposição Os Loghismoí de Evágrio Pôntico e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello (março-abril 2026): “Um caminho possível e percorrível para chegar à luz.” Foto © Joaquim Félix de Carvalho.
Mas que escuridão é essa, como se Evágrio o Pôntico, monge e padre espiritual do século IV, nos interrogasse a consciência, que nos impede de encontrar o caminho para a luz, seja individualmente seja como comunidade humana global?
Que vícios do pensamento, da imaginação ou dos sentidos são esses que impedem uma ecologia da vida interior e da vida social do mundo?
Que neblina ou nevoeiro cerrado obstaculiza o nosso olhar, embaçando o nosso olhar febril de consumação e extrativista das terras raras, e impede a experiência de ver «a imagem lavada da vida do mundo», como escrevia Tagore?
Fora de todo o moralismo, ou contra toda a falsa moralidade ou moralina que desvirtua os propósitos dos ditos e feitos dos padres espirituais do deserto, quem poderá negar que a gula, a luxúria, a avareza, a ira, a tristeza, a acédia (lassidão, preguiça, negligência ou a letargia), a inveja, a vanglória são bem a parte escura do que em nós é ‘humano, demasiadamente humano’? Que martelo usar para quebrar a rigidez dos «pensamentos malignos» anteriores a toda a palavra ou agir humanos? Não querer ver nem discernir o que em nós há de abismal, a nossa finitude enquanto tal, é, como diz Pavanello, passivamente «assistir à sua queda». Ou àquilo que o grande filósofo alemão Günther Anders falava como a entrada na era da «obsolescência do homem» (qualidade de obsolescente ou obsoleto; qualidade do que está a cair em desuso, a tornar-se antiquado face às grandes transformações resultantes da hibridação homem-máquina) ou a destruição da vida e da alma na terceira revolução industrial, diríamos nós, hoje, na era hiperdigital e do pós-humano.
Pois, como diz Albert Camus, no seu célebre discurso de 10 de Dezembro de 1957, em Estocolmo, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura: «Os verdadeiros artistas não desprezam nada; eles estão obrigados a compreender ao invés de julgar» […]. Quaisquer que sejam as nossas enfermidades pessoais, a nobreza do nosso ofício se enraizará tempo em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre o que se sabe e a resistência à opressão»[5], Nem Evágrio Pôntico nem Pavanello condenam, mas iluminam e mostram as vias possíveis da redenção, sugerindo caminhos possíveis para sair do círculo fechado do pensamento, da imaginação e da acção malignas que a todos, de vez em quanto, acomete, oprime e esmaga o pneuma de vida do mundo.
IV – Evágrio, um filósofo no deserto

Exposição Os Loghismoí de Evágrio Pôntico e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello: “Evágrio passa do socrático «conhece-te a ti mesmo» ao “reconhece Deus em ti mesmo” Foto © Joaquim Félix de Carvalho.
A doutrina místico-espiritual de Evágrio situa-se dentro de um sistema mais vasto que inclui uma cosmologia e uma escatologia, ela insere-se, na verdade, na lógica da filosofia grega estoico-epicurista enquanto concepção da filosofia como exercício espiritual ou maneira de viver sabiamente a vida no exercício das virtudes e na identificação e catarse dos vícios. As sentenças à arte de viver do filósofo estoico Epicteto (55-135 d.C.), por exemplo, quando escreve «quanto às necessidades do corpo, satisfaz apenas o indispensável, como seja a comida, a bebida, a roupa, o abrigo e a criadagem. Mas rejeita tudo quanto seja ostentação ou conforto»[6], não são muito distintas das máximas da doutrina espiritual de Evágrio o Pôntico. Ambos visam o caminho da simplicidade e da tranquilidade de espírito; um a união absoluta com Deus (Evágrio), o outro a realização pessoal como ponto culminante da felicidade terrena (Epicteto).
Evágrio passa do célebre aforisma socrático «conhece-te a ti mesmo» inscrito no templo grego de Delfos ao “reconhece Deus em ti mesmo” (νῶθι σεαυτόν), a partir do discernimento espiritual da solidão do deserto, da meditação orante e do trabalho manual, que depois a vida monástica, em particular Bento de Núrsia, abraçou e sentenciou com a célebre expressão Ora et Labora, não só como pensamento, mas essencialmente como forma de vida espiritual comunitária, dando origem a um dos movimentos mais significativos da civilização humana, seja no Oriente, seja no Ocidente.
Há um belíssimo e excelente ensaio de Aviad Kleinberg, O Deus Sensual, escrito por um judeu israelita agnóstico, em que o filósofo das ideias afirma:
Liberta das regras áridas da lógica estrita, a viagem religiosa pelas grandes questões é mais impetuosa, mais audaciosa, mais imaginativa do que qualquer outra reflexão filosófica sobre os mesmos temas. Como qualquer pensador ‘directo’, fico cativado pela ousadia e beleza das linhas curvas […]. Os pensadores religiosos levam a existência a sério, tratam-na como uma questão de vida ou de morte e investem aí tanto de talento como de paixão. Considero que tais preocupações [Porque estamos aqui? Qual é o sentido da nossa existência? Porque é que os humanos sofrem? Porque é que eles merecem ou não a salvação? Quem é o responsável deste estado de coisas?] e tais comportamentos emocionais contém um poderoso charme, no registo filosófico, moral, até mesmo estético.[7]

A Ira, um dos quadros de Giancarlo Pavanello: “O mal não está no objecto propriamente dito dos nossos pensamentos, mas na sua representação enquanto tal.” Foto: Direitos reservados.
É fundamental atendermos à definição exacta que Evágrio dá dos pensamentos ou loghismoí, que vem ao encontro do gesto artístico minimal de Pavanello, que bem poderíamos concentrar na máxima arquitectural «menos é mais» (Mies Van Der Rohe), da sua depuração escultural do campo cromático e do campo espacial verbo-visual, para chegar à forma essencial ou à simplicidade natural das coisas não contrafeitas. Assim, para Evágrio, segundo o grande especialista Antoine Guillaumont na obra do padre do deserto, os loghismoí são «representações de um objeto sensível que desencadeia, de forma antinatural, a força ou os desejos».[8]
Para Evágrio o problema fundamental, ou se quisermos o mal, não está no objecto propriamente dito dos nossos pensamentos, mas na sua representação enquanto tal. Ora, se há algo que acomuna o monge Evágrio e o artista Pavanello, é o facto de serem anti-representacionistas e anti-sensacionalistas, na medida em que não se nega de forma alguma a força das emoções ou do desejo, mas a necessidade de um pensamento emocionado direccionar e equilibrar os nossos tumultos mais profundos, à procura da forma depurada da contemplação ou da pintura poético-visual, sem distracções nem entretenimentos fáceis.
Trata-se, portanto, como se diz em fenomenologia, de operar uma epokhé do julgamento, de suspender e reconduzir a nossa atitude natural para o fim transcendental, ou se quisermos, de conversão ou transformação do que somos, portanto de discernimento espiritual, que é um exercício corpóreo-mental para a vida toda. Escute-se um dos ditos de Evágrio, no seu «Tratado Prático»: «Com aqueles que vivem no mundo, as sensações manifestam-se principalmente através de objetos e pessoas; mas com os monges, isso acontece mais frequentemente através dos pensamentos».[9] Mais do que aquilo que realmente nos acontece, a questão está em assumir conscientemente e superar o julgamento (moral, estético, psíquico, espiritual, religioso ou filosófico) que fazemos acerca daquilo que acontece.
A intenção do Padre do deserto Evágrio é fundamentalmente antropológica, espiritual e terapêutica, e não propriamente moralizante ou legalista. Mais do que denunciar uma falta moral ou apelar à mortificação corpóreo-espiritual (como erroneamente interpretou uma certa espiritualidade rigorista e desumanizadora, cujas consequências foram e ainda são notórias em muitos crentes), ou de apelos sacrificiais desmesurados como aplacação da ira divina, trata-se de explicitar as causas do desequilíbrio interior e de mobilização da liberdade face às distracções interiores que combatem e atentam contra a nossa atenção vigilante. Trata-se de passar da luta ou combate contras as doenças do espírito ou da alma à paz interior através de uma sabedoria terapêutica do cuidado do ser.

Exposição Os Loghismoí de Evágrio Pôntico e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello. “Para alcançar o silêncio interior e conhecer e amar verdadeiramente Deus, ao crente é proposto esforçar-se por analisar e dirigir os seus pensamentos.” Foto © Joaquim Félix de Carvalho.
Para alcançar o silêncio interior e conhecer e amar verdadeiramente Deus, ao crente é proposto esforçar-se por analisar e dirigir os seus pensamentos. Evágrio identifica oito destes pensamentos, a que chama loghismoí (que poderia ser traduzido por «pensamentos obsessivos ou obsidiantes») representando oito sintomas de uma doença mental ou espiritual que conduz ao pecado: gula, impureza, avareza, preguiça, ira, tristeza, vaidade e orgulho.[10] Evágrio o Pôntico é, na verdade, um médico da alma e do corpo, pois tudo o que o corpo sente a alma ressente-se e tudo o que alma sofre afecta o corpo, porque o humano é um todo indivisível, uma unidade bio-psíquico-espiritual.
A doença psíquica do espírito é o sintoma de uma ruptura no equilíbrio espírito-alma-corpo cuja origem se encontra, no entendimento dos Padres do Deserto, na comunhão ferida com Deus. Todas as oito doenças genéricas têm como patologia-fonte o narcisismo ou o egotismo, que os gregos apelidam de philautie. Na base de toda a doença ou patológica noopsíquica está o amor excessivo de si mesmo, daqui resultando as oito doenças de foro espiritual com forte impacto somático ou anatómico: as avidezes de toda a espécie; a relação patológica com o sexo; a relação patológica com o dinheiro; a tristeza; a agressividade; a acédia ou a negligência; a relação com as honras e a glória; o orgulho.
Evágrio, o Pôntico, enfatiza o que produz uma verdadeira comorbidade das afecções ou doenças interiores, colocando em relevo três das oito patologias por si classificas a título indicativo ou sugestivo, sem pretensões de exclusividade ou de rigidez, pois, como bem sabia, estamos no domínio da «verdadeira vida» e da complexidade humana, e não no domínico em que «tudo entra nas gavetas e nos procedimentos» de uma folha Excel. Quais são então estas três doenças primordiais? Segundo o biólogo e psiquiatra Jean-Guilhem Xerri: o excesso de avidez (de comida, dinheiro e sexo), a relação patológica com o dinheiro e a busca frenética de honra e de glória, às quais todas as outras doenças se encontram subordinadas.

A Tristeza, um dos quadros de Giancarlo Pavanello, uma das doenças que “desarranjam a alma”. Foto: Direitos reservados.
Trata-se, portanto, de assumir com lucidez uma luta ou combate espiritual para escapar às três doenças-mãe que engendram todas as outras e são fonte de todas as paixões excessivas (a avidez, a vaidade e a acédia) que desarranjam a alma e que a impedem de a progredir no caminho da luz, da verdade, do belo e do justo. A libertação terapêutica por via do desprendimento, da sobriedade e do despojamento de si ou do amor excessivo de si, de um narcisismo malsão, é o caminho para a libertação interior, para que o verdadeiro ser apareça.
Cristina Campo, que prefaciou uma das primeiras antologias dos Ditos e Feitos dos Padres do Deserto, escreve o seguinte: «As sentenças são dardos com pontas de ferro que zunem longamente nos ares antes de atingirem verticalmente o coração do discípulo. Deus precipita-se a prumo nessas celas, nesses corpos, com um único e tremendo bater de asas».[11]
O ancião Efraim de Filoteu (1927-2019), monge grego do Monte Athos, explicou sugestivamente da seguinte forma os loghismoí e o modo de os controlar ou vencer: «Imagina um aeroporto e que cada aeroporto possui uma torre que permite (dá permissão) para que aviões vindos de diferentes direções e lugares do mundo ali aterrem. O piloto de cada aeronave deve primeiro identificar quem é, de onde vem, o país de origem, etc., mas tudo deve ser verificado pela torre antes de ser concedida a permissão para aterrar». A mente humana assemelha-se, portanto, a um aeroporto. Todos os tipos de pensamentos entram nas nossas mentes ao longo do dia, mas especialmente quando estamos a meditar ou em momentos de oração. Quando o silêncio não se faz corpo ou palavra, e se torno um peso difícil de suportar, que é a solidão extrema e insolidária.
V – Onde está a origem de todos os nossos males?

Aleksandr Soljenítsin: “Descobri que a linha divisória entre o bem e o mal não separa Estados, classes ou partidos, mas atravessa o coração de cada homem e de toda a humanidade.” Foto © Bert Verhoeff for Anefo, CC0, via Wikimedia Commons.
Tal como podemos ver através de várias personagens da literatura clássica ou da filosofia antiga ou até da arte, as doenças psíquicas do espírito não estão reservadas nem aos eremitas, nem aos monges, nem aos homens e mulheres religiosos, nem somente aos primeiros séculos, ao tempo anterior à nosologia biomédica moderna, mas elas atravessam a nossa comum humanidade, porque elas dizem respeito a todos, ao ser humano enquanto tal. O dito evangélico diz isso de modo simples e lapidar: ‘Quem dentre vós nunca pecou ou errou que atire a primeira pedra?’ O problema não será tanto errar ou não errar, mas já não reconhecer que se errou, na medida em que a nossa visão se encontra embaçada e a ecologia da nossa vida interior encontra-se calcificada, pelo que já não sabemos o que é mal e o que é bem, como diz o nosso poeta visual Alberto Pimenta, dado que ambos vivem lado a lado e habitam-nos, e para os quais, todo o discernimento é pouco.
Ou como escrevia esse gigante da literatura mundial Aleksandr Soljenítsin, no seu livro O Arquipélago Gulag: «Aos poucos, descobri que a linha divisória entre o bem e o mal não separa Estados, classes ou partidos, mas que ela atravessa o coração de cada homem e de toda a humanidade.» A resistência ao poder totalitário, que se espalha vertiginosamente por toda a parte, começa pela resistência às avidezes várias do nosso próprio ser, não são as sensações exteriores que estimulam a nossa imaginação, o nosso pensamento ou os nossos sonhos, mas também as ruminações interiores onde nasce todo o ressentimento de outrem.
Evágrio Pôntico escreveu sobre o discernimento do espírito: «Aprendemos, após muita observação, a distinguir entre pensamentos angélicos, pensamentos humanos e pensamentos que vêm de demónios…» Elaborou também uma lista abrangente em 375 d.C. de oito pensamentos malignos (loghismoí) ou oito tentações terríveis, das quais se origina todo o comportamento errático que separa a humanidade da luz divina. A lista tinha como objetivo fazer um diagnóstico para ajudar os leitores a identificar o processo de tentações, os seus próprios pontos fortes e fracos, e os remédios para as ultrapassar, pois ele próprio, como bom sábio que era, antes de os propor aos outros, reflectiu-os em si mesmo, a partir da sua experiência de discernimento no deserto do Egipto.
Como escreve ainda Jean-Guilhem Xerri, autor do livro «Prestai cuidado à vossa alma: Pequeno tratado de ecologia interior», profundamente influenciado e inspirado na prática hesicasta de Evágrio o Pôntico:
Pensa-se que todos os males do homem hoje em dia sejam de origem biológica ou psicológica: recusa-se ver que ele também tem uma parte dos males que são de natureza espiritual – ou seja, coisas que envolvem a nossa liberdade, a nossa vontade profunda. A vida do homem moderno, em suma, consiste em trabalhar muito para impulsionar o crescimento e ganhar dinheiro suficiente para sentir prazer ao consumir […]. Dizem-nos que é assim que deve ser a nossa vida.[12]

A Avareza, segundo Pavanello: quando todos pedem incremento do consumo, do crescimento desmesurado, há quem peça a redescoberta das fontes naturais da vida, ao contacto atento e cuidado com a vida interior de si. Foto: Direitos reservados.
Mas neste imperativo hiperliberal da consumação, «é assim que deve ser», que nos arrasta a todos para o abismo do não-sentido, que torna o ser humano de carne e osso, já não escravo de um outro senhor, mas escravo de si mesmo e da sua auto-produção e crescimento desmesurados, muito para além do necessário ou da ordem natural das coisas, portanto consumo autofágico, aqui está a origem da crise do homem moderno – a perda de sentido, o vazio existencial, que o desaparecimento da ritualidade ou dos rituais que ritmavam o tempo da vida pessoal e comunitária acelerou e agudizou. Quem melhor do que Francis Kafka ou Robert Musil para descrever esse humano desqualificado ou sem qualidades, triturado pelo sistema da produtividade esgotante e alienante, só diante do seu espelho?
Quando todos pedem incremento do consumo, do crescimento desmesurado, do progresso tecnológico infinito, há filósofos, pensadores, poetas e padres espirituais que pedem regresso ao «homem em carne e em osso», à redescoberta das fontes naturais da vida, ao contacto atento e cuidado com a vida interior de si, de outrem e da natureza, às manifestações sensíveis do sublime no quotidiano, à beleza das pequenas coisas que dão sentido a vida como um todo, à desaceleração, à ressonância com a vida natural do mundo, consigo mesmo e com outrem; à descoincidência como espaço de revelação do ser. Há um esgotamento evidente do humano, um esgotamento ou fadiga de ser só si mesmo, de ser um eu híper-narcísico, que tem levado à possessão e esgotamento dos recursos naturais e espirituais da vida em detrimento de uma visão total da humanidade e das suas necessidades essenciais.
VI – Duas expressões diferentes para o mesmo gesto

A exposição Os Loghismoí de Evágrio Pôntico e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello, em Braga, procura expressar, com os dois biombos de movimento serpenteado, “o despojamento de Evágrio o Pôntico”. Foto © Joaquim Félix de Carvalho.
A arte de Pavanello, em particular a exposição que aqui nos é proposta, procura expressar, nos meios e na forma usados (dois biombos de movimento serpenteado), o despojamento de Evágrio o Pôntico. O gesto é o mesmo, se bem que por expressões diversas. Tanto o pintor como o monge dão a ver algo na profundidade do silêncio, por diferentes modos, no espaço retirado e sagrado das suas ‘celas’ poiéticas. A necessidade de se despir de toda a imagem e forma para chegar à contemplação ou à forma absolutas. A apatia, que é algo bem diferente da impassibilidade estoica – a paz e a mansidão de uma alma inteiramente purificada pela sobriedade e pela caridade.
A arte de Pavanello, no despojamento das suas formas e matérias, na potência medida e sóbria das suas cores, é um fortíssimo convite à contemplação, a aprender a ver de novo a verdadeira vida, a dar tempo ao tempo que medita, que contempla, que pensa, que sente, que deseja, que ama, que sonha, que ri, que chora, que caminha, que repousa. É um convite a repousar e demorar o olhar que tocar e o toque que vê. É um apelo para o humano sair do círculo fechado dos pensamentos e desejos capitais, para que o círculo do eu se abra ao nós do mundo, da comunidade, do outro para além de si, como lugar de revelação-apocalipse (de reconstrução do humano e não destruição) que abre o presente à vida futura de uma esperança possibilitante e já reconhecível entre nós.
Se os Padres do Deserto, como Evágrio Pôntico, se centraram nas doenças ou patologias da alma humana, sem qualquer tipo de moralismos, mas em ditos e feitos plenos de ironia, pois melhor do que ninguém sabiam na própria pele o significado da fragilidade humana, também o escritor russo Fiódor Dostoievski caracteriza três tendências psicológicas modernas, não muito diversas das dos padres do deserto ou dos staretz (monges ou padres espirituais ortodoxos russos): o prazer (hedonismo), a revolta e a descrença (niilismo). Em ambos estamos bem no centro do «coração das trevas» de que falava Conrad.
Tanto um como outro, e nós com eles, procuramos as «razões poéticas da vida» (Vernunft) ou do sentido, para além de qualquer racionalidade estritamente científica (Verstand). O psicólogo austríaco Viktor Frankl, criador da dita «Logoterapia», identificou as causa das neuroses modernas: o vácuo noológico, isto é, ausência de significado e sentido na cognição e no agir humanos, como o problema central da vida moderna.

A exposição em Braga procura expressar, com os dois biombos de movimento serpenteado, “o despojamento de Evágrio o Pôntico”. Foto © Joaquim Félix de Carvalho.
Mas que relação haverá ainda entre o Apocalipse de Jesus Cristo de Giancarlo Pavanello, que os Loghismoí de Evagro Pôntico poderiam ser o prenúncio ou o vaticínio fatídico, e os apocalipses ilustrados, Beato de Saint-Sever, a série de gravuras sobre o Apocalipse de Dürer, as obras de Odilon Redon, as visões de William Blake, o Juízo Final de Wassily Kandinsky, entre outras? É a visão geral do apocalipse através de uma paleta diversificada de significados: o apocalipse como tempo de revelação, como levantar do véu, como des-cobrimento; o apocalipse como tempo da catástrofe; o apocalipse como futuro ou o dia a seguir à catástrofe.
A inspiração na Sabedoria espiritual e terapêutica filosófica do Deserto – a relação entre uma ecologia interior da sobriedade e uma ecologia ambiental ou do entorno (ética da hospitalidade, da atenção e do cuidado do outro) – poderá ser um contributo significativo para a superação da «ageusia existencial» ou do bloqueio da vida sensível como condição para a vivência do sublime no quotidiano abafado ou sufocado pela simples sobrevivência. Um sopro de vida contra a sobrevivência e o sentimento de abafamento da vida interior acompanhado de uma impressão real de não degustarmos e respirarmos autenticamente a nossa existência individual e comunitária (ageusia existencial).
A religação com a natureza, com o humano e com o divino implica uma escolha e uma experiência. A visão da interioridade é também uma experiência humana, filosófica e espiritual ao mesmo tempo, um trabalho do espírito e do corpo, um apelo à sobriedade, ao desaceleramento e ao decrescimento, para uma verdadeira preocupação pelo outro, de atenção vigilante e de meditação, como guias seguros e acessíveis para habitar o «o mundo de amanhã», após a catástrofe, se «após» ainda houver…
Uma saúde espiritual integral passa não apenas por uma ciência ou terapêutica da alma ou do psíquico humano, mas também pela relação com a transcendência, com Deus ou o divino, sobretudo para o humano que é religiosamente crente. Essa relação é possível ao ser humano através da capacidade de infinito que nos habita. Todo os humanos, de uma maneira ou de outra, procuram uma «existência indivisa», uma harmonia mínima entre a vida do espírito ou do pensamento e a vida do corpo e do mundo.
Não por acaso os Padres do Deserto (figuras dos oito primeiros séculos cujos escritos e exemplo de vida influenciaram grandemente a doutrina cristã, que iniciaram e anteciparam a psicologia propriamente dita, uma «ciência da alma» humana) apelavam frequentemente para uma dimensão psicofísica, e no seu prolongamento para uma dimensão espiritual vital que convida o humano ferido na própria humanidade a abrir-se àquele que, misteriosamente, comunica a Vida que circula no mundo. Por detrás das preocupações terapêuticas, os padres e mães do Deserto viam a eternidade, o que nos transcende, o que nos intensifica e o que nos espera. Não lhes basta a cura imediata, mas chegar à via da salvação eterna, que era o Logos da vida.
A união com Deus e a caridade compassiva para com os humanos é a sua divisa antropológico-mística. Não se trata simplesmente de «estar melhor» ou «andar melhor», no sentido medical moderno, mas de viver eternamente, como participantes da natureza divina de Deus! Nem somente, como na meditação moderna, de ser fazer mais presente ao que é ou si mesmo, mas de estar disposto a ser mais presente «Àquele que era, que é e que será», aos equilíbrios entre palavra e silêncio, entre solidão e comunidade, entre despojamento de si e vida ritual litúrgico-sacramental como entrada para a missa cósmica do mundo, com diria Teilhard de Chardin.
VII – Atravessar o Rubicão da in-finitude digital, como?

“Para não sucumbirmos ao hiper-narcisismo das redes que nos habita a todo o tempo, a pergunta fundamental é: «Mas quem é esse do outro lado de ti?». Foto © Camilo Jimenez/Unsplash
Se a filosofia é, acima de tudo, um exercício espiritual, tal como a entendiam os antigos, em particular a tradição greco-latina, que é também uma maneira de viver, isso significa que a arte de pensar é também uma terapia, uma arte de viver e uma vida espiritual.[13] Não se trata apenas de mostrar somente uma via possível de saída dos caos das paixões ou do rigor racional, ou de mostrar a via para entrar no humano-humanidade, mas também de nos mostrar o caminho para nos voltarmos para a nossa divino-humanidade. Se a filosofia estrita, se o homem contemporâneo não ultrapassa este limiar, já o homem crente ou teologal assume o risco de crer nessa «esperança possibilitante» de um Deus encarnado na vida do mundo.
Se os Padres do Deserto ou a grande espiritualidade cristã oriental ainda inspira, então é porque a sua proposta hoje assume a via de uma espiritualidade prática da ressurreição. Atendamos a este apotegma ou dito pleno de ironia de um dos Padres do Deserto:
Diz-se que um ancião estava a morrer e que os irmãos se reuniram ao redor do seu leito e lhe vestiram o hábito, chorando. Ele abriu os olhos e riu; e riu três vezes. E os irmãos perguntaram-lhe: “Padre, diz-nos porque é que nós choramos e tu ris? Ele disse-lhes: «Ri-me da primeira vez porque tendes todos medo da morte; da segunda vez, ri-me porque vós não estais preparados. E da terceira vez, ri-me porque troco o sofrimento pelo repouso.» E imediatamente, ele entregou a sua alma.[14]
O pensador George Steiner, essa figura monumental da cultura humanista europeia, no seu livro inclassificável Presenças Reais. As artes do sentido, diz-nos que «é a intensidade lúcida do encontro com a morte que engendra as formas estéticas desta afirmação da vitalidade, da presença viva, que distingue o pensamento e o sentimento sérios do banal e do oportunismo».[15]
Mas como não sucumbir ao peso do quotidiano, da linguagem informativa que nos inferniza e anuncia a todo o instante o apocalipse (não de revelação da vitalidade humana, mas de catástrofe e desastre), à ausência de horizonte, à desesperança que todos os dias nos entra dentro, com múltiplas crises reais ou fictícias: crise de democracia, crise de compreensão da diferença do outro, crise de imigração, crise climática, crise de valores, crise de presença real, crise de alheamento da relação presencial de uns com os outros, crise de empatia, crise de gentileza? Como não sucumbir a tanta e tão grande crise do humano contemporâneo? Como não sucumbir diante de uma Terra Devastada (T. S. Eliot) e sugada pela hiper-consumação?
O que disse o Trovão, no canto V, de Terra Devastada, de Sterns Eliot, alude subtilmente à passagem dos dois companheiros da via de Emaús, como cintilação do sublime no meio de pedras sem água e de estradas arenosas, e como resposta possível à fatalidade destinada do sucumbimento actual:
Quem é o terceiro que sempre caminha a teu lado?
Quando conto, só estamos tu e eu/
Mas quando olho pela estrada branca acima/
Há sempre alguém a caminhar junto de ti/
Envolto em manto castanho, e embuçado/
Não sei se será homem ou mulher
– Mas quem é esse do outro lado de ti?[16]
Na verdade, não basta não sucumbir, é necessário ressurgir das cinzas ou aprender a habitá-las diversamente. É como se a potência vital, a potência do desejo de ser de uma outra maneira, de poder vir a ser, se encontrasse acaparada por todo uma lógica hiperdigital que nos devasta e impede de ver esse nosso outro ao lado, e que esgota a vontade de fazermos algo ou de transformar a realidade. Ao passarmos o dedo o tempo todo na droga viciante do scroll infinito dos ecrãs, sem nada aprendermos de relevante, produzem-se embotamentos afectivos insanáveis e zombies digitais, nesse paradoxo que é de se estar, aparentemente, profundamente conectados online, mas totalmente alheados e apáticos quando offline, com um discurso, vocabulário ou linguagem reduzidíssima.
Aqui reside, talvez, uma das causas fortíssimas para a nossa invisualidade ou invisuais em que nos tornamos, pois são polifónicas vozes autorizadas a dizê-lo (desde a pedagogia à neurociência, da filosofia à psiquiatria), para já não sabermos ver, contemplar e meditar o assombro da realidade ou a manifestação de um sublime que nos transcende e faz mergulhar em profundidade no mistério do ser e dos entes, das cores do desejo ou nos ritmos dos sons naturais.
Para não sucumbirmos ao hiper-narcisismo das redes que nos assalta e habita a todo o tempo, para não sucumbir ao vazio de ser, a pergunta do poeta poderá ser também a nossa pergunta fundamental: «Mas quem é esse do outro lado de ti?». E da pergunta se passa uma concreção possível de salvação, mais que não seja como promessa: «Há sempre alguém a caminhar junto de ti», e por isso, mesmo o tempo da catástrofe, interior ou exterior, não poderá ter em nós a última palavra, pois, como também escreve o filósofo e escritor Gabriel Marcel, «venha o que vier, tu não morrerás», porque a comunhão sacramental de uma presença amorosa é mais forte do que a morte física do ser amado.
VIII – Que arte para os tempos do fim?

Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrestres: “Voltar a pensar e a viver naturalmente não é nostalgia de um «paraíso perdido» que nunca existiu; é sim, retomar as origens do nosso ser. Imagem: Domínio público, via Wikimedia Commons.
Para que servirá o pensamento, a filosofia, a criação artística, a dança, a fé, a poesia ou a música em tempos de colapso climático, político e ético? O que sobrevive verdadeiramente à catástrofe e depois dela? Não obstante tudo isso, e por causa disso tudo, continuamos a pensar, a filosofar, a criar, a dançar, a crer, a poetar e musicar as cordas dissonantes da nossa existência frágil, a nossa e a do mundo, a minha e a tua, ou a nossa comum humanidade. Em suma, continuamos a renascer das cinzas de quarta-feira, não obstante a catástrofe já em acto ou iminente.
Tal como para aprender de novo é precisar desaprender o já adquirido, libertar e deixar espaço para a eterna novidade do aparecer do mundo, também para voltarmos a habitar diversamente a realidade e o mundo – com espanto e surpresa – precisamos de desabitar as formas de habitação habituais do mundo, que esgotam os bens da terra no hiperconsumo de toda espécie. Só desabitando o habitual rotineiro, «habitando o desabrigo» (Carlos Poças Falcão), da nossa presente e malograda habitação do mundo, é que poderemos voltar à demora digna das coisas e dos seres, não apenas em função do presente, mas em função de uma transmissão e de uma passagem de testemunho aos vindouros: o que deixamos para as gerações vindouras? Que mundo habitável será o deles? Como podemos contribuir para uma nova vida, para uma nova visão ecológica da existência? Estamos nós dispostos a suspender e a transformar o nosso olhar actual, o nosso pensamento e as nossas práticas e formas de vida demolidoras da habitação natural do mundo?
Voltar a pensar e a viver naturalmente não é seguramente uma apologia do passado nem nostalgia de um «paraíso perdido» (Milton) que nunca existiu, como se houvesse harmonia nas origens e só caos no final, é sim, antes, retomar as origens do nosso ser, o fundamento transcendente da nossa existência, a voz de um apelo que arde no mais íntimo do nosso coração, de uma força sublime transcendente sob os nossos pés, que não vemos nem conhecemos, mas que sentimos como luz natural do mundo.
Não será, portanto, de todo displicente propormos aqui, como rebate final, os versos interrogativos de «Já?», qual «sentença» (loghismoí) contemporânea de uma des-velação ou des-cobrimento do véu (ἀπο–κάλυψις) que oculta a verdadeira Vida, desse nosso poeta visual e surreal maior que foi Alberto Pimenta, tal como Pavanello que, por momentos, também foi surrealista, quando escreve:
Já?
já tentaste praticar o bem
fazendo mal?
já tentaste praticar o mal
fazendo bem?
já tentaste praticar o bem
fazendo bem?
já tentaste praticar o mal
fazendo mal?
já tentaste praticar o bem
não fazendo nada?
já tentaste praticar o mal
fazendo tudo?
já tentaste praticar tudo
não fazendo nada?
e o contrário, já tentaste?
já?
seja qual for a tua resposta,
não sei que te diga.
João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016), À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020), Urdiduras Espaciais (Officium Lectionis, 2026) e Com Sabedoria Se Habita uma Casa – Meditações à Sombra de um Terebinto (Officium Lectionis, 2026).
Este texto corresponde à prelecção ou breve meditação para o acto inaugural da exposição Os Loghismoí de Evágrio Pôntico e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello, no dia 14 de Março, na capela Imaculada Conceição, Braga, e que pode ser visitada até ao dia 7 de Abril.
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Notas
[1] Veja-se o recentíssimo ensaio filosófico de Philippe Capelle-Dumont, Le moment Espérance. Provocation sur le temps, Paris, Cerf, Paris, 2026.
[2] Thomas Stearns Eliot, A Terra Devastada, Relógio D’Água, Lisboa, 1999, p. 19.
[3] Thomas Stearns Eliot, A Terra Devastada, p. 49.
[4] Rabindranath Tagore, A Voz da Mãe Dava Sentido às Estrelas [textos breves sobre a infância], Assírio & Alvim, Lisboa, 2017, pp. 153, 154.
[5] Albert Camus, Conférences et discours 1936-1958, Gallimard, Paris, 2017, p. 335.
[6] Epicteto, A Arte de viver, Edições Sílabo, Lisboa, 2023, p. 57 («§ 33. A postura do filósofo», pp. 56-60).
[7] Aviad Kleinberg, Le Dieu sensible, Gallimard, Paris, 2017, p. 8-9.
[8] Antoine Guillaumont, Un philosophe au désert. Évagre le Pontique, Vrin, Paris, 2015, p. 210.
[9] Evágrio, Traitée Pratique, 4.
[10] Veja-se o excelente livro de Mário Rui de Oliveira, A Estrela e o Espelho. Compreender hoje os pecados capitais, Paulinas Editora, Lisboa, 2026. Os painéis de Giancarlo Pavanello com os “loghismoí” de Evágrio Pôntico foram criados propositadamente para acompanhar o livro A Estrela e o Espelho, e que resultou na exposição «Os loghismoí de Evágrio Pôntico e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello», em exibição na Capela Imaculada Conceição em Braga.
[11] Cristina Campo, «Introdução», in Cristina Campo – Piero Draghi (eds.), Ditos e Feitos dos Padres do Deserto, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.19.
[12] Cf. https://www.rcf.fr/articles/vie-spirituelle/jeanguilhem-xerri-medecin-du-corps-medecin-de-lame, consultado a 10 de Março de 2026.
[13] Quem melhor estudou a filosofia na perspectiva de um exercício espiritual, muito anterior aos exercícios espirituais de Loyola, o qual se inspirou nos gregos, sacralizando-os ou evangelizando-os, foi, sem dúvida, o filósofo Pierre Hadot.
[14] Les Apophtegmes des Pères, t. II, Cerf, Paris, 2003, p. 115.
[15] George Steiner, Réelles présences. Les arts du sens, Gallimard, Paris, 1991, p. 173.
[16] Thomas Sterns Eliot, A Terra Devastada, Relógio d’Água, Lisboa, 1999, p. 47.










