A interdição de o patriarca Pizzaballa celebrar na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, a missa de Domingo de Ramos (uma das celebrações mais relevantes do calendário católico), é mais um passo na escalada do extremismo e do belicismo que governa Israel: os cristãos são cada vez menos no Médio Oriente e isso, nas últimas décadas, tem sobretudo a ver com a política dos governos europeus e, principalmente, dos Estados Unidos, de apoio incondicional a Israel e aos governos dos chamados países árabes “moderados” — que mais não são do que regimes que não toleram a liberdade religiosa e forçam os cristãos a deixar os países onde vivem há séculos.
No caso concreto, Israel tem tido, na Cisjordânia, uma política de terra queimada, expulsando palestinianos, entre os quais muitos cristãos, desapossando-os das suas casas ou das suas terras agrícolas, cortando inclusive milhares de oliveiras, que são o sustento de muitas famílias. Ou ainda deixando os colonos ameaçar, perseguir e por vezes matar impunemente muitos palestinianos — também cristãos, repito.
Por tudo isso, muitos cristãos (e muçulmanos e crentes de outras religiões e agnósticos e ateus) deixaram os seus países ao longo das últimas décadas. No caso dos cristãos, os papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco, referiram-se abundantemente ao problema, nomeadamente nas visitas que fizeram à região, tal como o fizeram os patriarcas latinos Michel Sabbah e Fouad Twal, antecessores de Pierbattista Pizzaballa.
Obviamente, o que aconteceu e continua a acontecer em Gaza levou a política de terra queimada a um extremo inadmissível, com a desculpa da legítima defesa. Aliás, o argumento do primeiro-ministro israelita de que a expulsão — foi disso que se tratou — do cardeal Pizzaballa não teve “má intenção, apenas preocupação de segurança” soa tão cínico e falso quanto as suas afirmações a lamentar quando os mísseis iranianos matam inocentes em Israel — quando sabemos que os bombardeamentos em Gaza ou no Irão provocaram já dezenas de milhares de mortes, incluindo as de crianças, mulheres e idosos inocentes. Sabendo que Pizzaballa e o padre Francesco Ielpo iam sozinhos, sem quaisquer “procissão” nem fiéis, até porque os principais lugares santos estavam encerrados por causa da guerra, é risível a preocupação do extremista que governa Israel.
Por tudo isto, soam a lágrimas de crocodilo as reacções de vários líderes europeus e americanos ao sucedido em Jerusalém. O apoio do actual (ir)responsável da Casa Branca e de vários governantes europeus à lógica belicista do governo de Israel só pode ter finais tristes como este: fomenta-se cada vez mais o ódio entre povos e comunidades, em vez de se promover o diálogo e a resolução dos conflitos.
Risível também, noutro âmbito, é a declaração retórica do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, apelando às autoridades israelitas para “garantirem e praticarem a liberdade de religião e de culto”. Como se o apoio à passagem de armas com destino a Israel e destinadas ao esmagamento dos palestinianos, e a consideração de que a “resposta” ao massacre de 7 de Outubro de 2023 é justificada, não deitassem por terra qualquer apelo retórico daquele género. Por contraste com a insuspeita Giorgia Meloni, cujo ministro dos Negócios Estrangeiros chamou o embaixador de Israel em Itália para lhe pedir explicações, um gesto diplomaticamente relevante.
Mas não só: o primeiro-ministro esteve quinta-feira, 26, numa vigília pela paz promovida pelo Patriarcado de Lisboa; não compreendeu, certamente, que, como disse o Papa neste domingo, Deus “rejeita a oração de quem faz a guerra” – e fazer a guerra não é apenas bombardear, é também deixar usar território para transportar armas e bombardeiros, por exemplo (esta segunda-feira, 30, prevê-se a passagem pelas Lages de um contingente de “drones assassinos”, como são conhecidos).
Como disse Pizzaballa na homilia que proferiu depois na Igreja de Todas as Nações, no Monte das Oliveiras, referindo o episódio dos evangelhos em que Jesus chora sobre Jerusalém: “Ele chora por todas as vítimas de uma guerra que parece não ter fim, pelas famílias destruídas e pelas esperanças perdidas.”
[Este texto adapta e alarga um comentário feito na Antena 1]










